Sábado, Fevereiro 19

Schumann, uma fantasia

Amo aquele que pede o impossível
quando sente a casa desmoronar tijolo
a tijolo
com a leveza de uma pena liberta pleno
voo

de um azul e oiro, o ritmo —
esse tijolo de barro vermelho
de um modo apaixonante pede

a vida
e a vida, num último instante, dá-lhe jardins,
deuses e a energia de uma
cidade suspensa
a luz de um palacio submerso

no último instante,
muito lento,
silvam as chamas do desamparo, caducidade
duração.

João Miguel Fernandes Jorge", "Invisíveis Correntes", Relógio d'Água, Junho de 2004
[hoje no Mil |Folhas]

Sexta-feira, Fevereiro 18

Errata

Where it says snow
read teeth-marks of a virgin
Where it says knife read
you passed through my bones
like a police-whistle
Where it says table read horse
Where it says horse read my migrant's bundle
Apples are to remain apples
Each time a hat appears
think of Isaac Newton
reading the Old Testament
Remove all periods
They are scars made by words
I couldn't bring myself to say
Put a finger over each sunrise
it will blind you otherwise
That damn ant is still stirring
Will there be time left to list
all errors to replace
all hands guns owls plates
all cigars ponds woods and reach
that beer-bottle my greatest mistake
the word I allowed to be written
when I should have shouted
her name

Charles Simic

Quinta-feira, Fevereiro 17

uma biblioteca por minuto*

Se o João Barrento desalinha no Musil então eu voto no Godard!



Andava desconfiada, primeiro foi a estreia de Notre Musique, uma aula política sobre campo e contra-campo. Hoje começa no Nimas, em Lisboa, um ciclo de sete filmes de Jean-Luc Godard. Ora vejam a pontaria: no domingo, dia 20, dia de eleições, passa Pedro, o Louco e no dia seguinte, Nova Vaga. São indícios claros, as sondagens ignoram mas o realizador francês é o preferido por milhares de portugueses. A partir de segunda-feira será ele a dirigir o país?

À hora do almoço fui apanhar sol, entrei — inocente, juro — na fnac de Santa Catarina. "Só para ver", pensei, mas o tipo malandro que se entretem a espalhar livros e discos improváveis, pois bem, ele pregou-me uma partida e colou umas etiquetas verdes n' O Acossado e no Desprezo do jovem Godard: 7.95 euros cada um. Desenrolei o meu cachecol vermelho e decidi votar no Godard.

— Mas o Godard está velho e chato...
— Por isso mesmo.

Ainda bem que me faz essa pergunta (desse modo)

— A Francesca Woodman desfez-se, desapareceu através de uma parede, de um espelho, foi embora. A Alejandra Pizarnik vai continuar por aí *, uma rapariga com uma pedra amarrada aos pés (e a pedra é ela própria? pobre, pobre, Alejandra). Queria falar sobre a maravilhosa Mouchette de Bresson mas não consigo, estou ainda, desde ontem à noite, completamente rendida. Como é possível um filme assim tão belo e comovente e escondido? Deve haver um gesto, uma posição de mãos certa para descrever os filmes de Bresson, vou treinar. Queria também falar de um verbo. No sábado, à mesa do restaurante chinês, comecei, empolgada, a estruturar uma lei que proibia o uso desmesurado de certas palavras. Guardá-las numa fortaleza, será possível? Ou num sussurro? Isto leva-me ao Saraband de Bergman (é para isto os filmes servem?). E já me perdi, desculpe, não respondi à pergunta, pois não?


Nuvens sobre Londres, fotografadas na semana passada pelo Miguel

Francesca Woodman III

entre as sombras o negro e eu

Alguns dos seus poemas dos anos setenta recordam — pura coincidência, creio — os de Alejandra Pizarnik, que lia há catorze anos e que uma tarde viu de longe no bar Taita de Barcelona, uma tarde de Outubro de 1969, que a minha mãe deixou anotada no seu diário: «Hoje vi essa poetisa argentina miudita, que parece atormentada, acompanhavam-na uns meninos-bem do bairro de Calvo Sotelo...»

Alguns dos seus poemas poderiam ser da própria Pizarnik, veja-se este exemplo de uns versos da minha mãe escritos na tarde de 27 de Julho de 1977: «Viver livre. / Nos candeeiros da noite, / no centro do vazio, na escuridão aberta, / entre as sombras o negro e eu. / Viver livre. / Apoiada na tumba, / e eu perdida, / na luz única do filho.»


Enrique Vila-Matas, "O Mal de Montano"
Teorema, Outubro de 2004

Quarta-feira, Fevereiro 16

Francesca Woodman II

debajo de mi nombre

Emprestaram-me os "Diarios" de Alejandra Pizarnik. É um livro grosso com quinhentas e quatro páginas. Na capa, uma fotografia a preto e branco de Alejandra a escrever à máquina. No seu rosto há um vislumbre de alegria, parece-me, mas depois folheio o livro e desconfio dessa alegria. A sua escrita é sempre dolorosa. É o corpo que não encaixa, são os outros que estão demasiado longe, inatingíveis, é a literatura que a empurra para as trevas, é a própria escrita que custa e desilude. Debaixo do seu nome, dentro de uma jaula, lutando com as palavras, aí está Alejandra.

Francesca Woodman

1963

16 de febrero

Leí Mémoires d'un Souterrain. Toda la noche estuve sentada en el suelo, mirando las grietas de la pared. ¿Qué es este libro? ¿Por qué mirar una pared?

Alejandra Pizarnik, Diarios, Lumen, noviembre 2003

Café Belas Artes

Fim da tarde. Em cima da mesa: um café, um descafeínado e quatro livros. Um deles é um vulcão prestes a explodir...

Terça-feira, Fevereiro 15

[post mutante]

Pastoral

Quando era mais jovem
tinha a certeza
que devia fazer algo da minha vida.
Agora, mais velho,
caminho por vielas
admirando as casas
dos muito pobres:
telhados desengonçados
pátios cheios de
velho arame de capoeira, cinzas,
móveis desconjuntados;
as cercas e os anexos
construídos com aduelas
e tábuas de caixotes, todos,
com alguma sorte,
sujos de um verde-azulado
cuja pátina
me agrada mais
que qualquer cor.

Ninguém
acreditará que isto
seja tão importante para a nação.

William Carlos Williams, "Antologia Breve", tradução de José Agostinho Baptista, Assírio e Alvim

Let's take a walk


Richard Serra em Serralves

cor de ferrugem

Gosto de casas abandonadas, com os vidros partidos, heras a trepar pelas paredes; fábricas esquecidas; chaminés de tijolo. Gosto do papel velho que se desfaz nas mãos; das estufas do Jardim Botânico; do edifício de Januário Godinho na esquina de D. Pedro V; das ruínas do Convento de Monchique; das folhas do meu tulipeiro no outono. Gosto da casa de Domenico em Nostalghia; das cores que o tempo envelhece. Gosto da cor de ferrugem.


pormenor de escultura de Richard Serra

Segunda-feira, Fevereiro 14

Dia de procissão em Santa Cruz da Graciosa

Junto ao farol velho, na Cantareira, há uma comunidade de garajaus (andorinhas-do-mar) que mergulham a pique no rio (à atenção da Carla).


Na antena 2, hoje de manhã, entre as nove e as dez, primeiro Guilhermina Suggia (uma gravação - creio – de 1927) e depois "Porque é que odeio o poema em prosa", de Tom Whalen (ostra do Pedro Coelho). Levantei-me e bati palmas.


Melhor do que comprar um livro de Herberto Helder é receber, de presente, inesperado, um livro de Herberto Helder.


Breve recado à gerência: preciso de um dia de férias (apanhar o comboio até Coimbra para ir ao C.A.V ver "Aproxima-te, Ouve-me" de Rui Chafes). Motivo: saudades da esfera.


O sol do marmeleiro é o que ilumina os primeiros dias de Outono, quando os frutos dos marmeleiros começam a amadurecer. Coincide com o Verão de São Miguel (29 de Setembro) durante o qual se regressa ao calor do Verão:



1963

14 de febrero

— ¿Por qué tardaste tanto en venir?
— La puerta estrecha — dije.
Nos abrazamos.

Había una lámpara sostenida por un ángel. La cara del ángel era triste, al borde del sollozo.

Alejandra Pizarnik, Diarios, Lumen, noviembre 2003

Modo: noite; opção: capturar

Na sexta-feira o Miguel, recém chegado de Londres, entregou-me o belíssimo "Mouchette" ("Au Hasard Balthazar" estava esgotado). Passadas algumas horas apareceu o rapaz da DHL com a soberba edição de "El Sol del Membrillo". Há três dias, portanto, e ainda não vi nenhum dos filmes. Ontem a Rosa mostrou-me gavetas cheias de DVDs apetíveis, resisti a todos. Acho que isto é um grande exercício de contenção mas não sei se serve para alguma coisa. Logo à noite desisto.

Domingo, Fevereiro 13

se elas florescem,

O elogio do tradutor

O que vou dizer não o posso provar. Não sou profissional das letras, não entro nos livros com um bisturi, não esburaco as frases, não construo teorias, nada disso. Enfim, o que vou dizer não vale nada mas apetece-me elogiar o José Lima. Comecei a ler "À Espera no Centeio", nunca o li em inglês nem sequer a tradução anterior (a edição de Livros do Brasil) mas esta versão do José Lima é uma maravilha. Já o conheço de nome, há uns tempos que o admiro, sei que traduz do italiano (lidos: o Erri De Luca e um conto de Pavese num número das Ficções) e do inglês, por exemplo: "Contra a Interpretação" de Susan Sontag. Traduziu muito mais, de certeza (pelo menos: Jonh Cheever, Graham Greene, Joseph Mitchell, Ascanio Celestini, Voltaire,...), mas isto é apenas o que conheço. Chega e sobeja para ganhar a minha veneração. "The Catcher in the Rye" de J. D. Salinger está um primor, parece escrito em português. Nota-se que houve uma procura das palavras exactas, das expressões mais verosímeis, encaixa tudo na perfeição. É um prazer ler assim.


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p.s. por uma razão qualquer que me escapa reparei que já devia ter elogiado outro tradutor que tanto aprecio: José A. Palma Caetano (pelas soberbas traduções de Thomas Bernhard e também pela tristeza de não ter sido ele a traduzir W. G. Sebald, isto não me sai da cabeça: deveria ter sido ele). Fica para a próxima. Estou a um passo da "Extinção".