Sábado, Fevereiro 12

Se estão mesmo interessados nisto,

[Há anos que conheço o título, há anos que me sinto atraída por ele e, no entanto, sempre o ignorei. Não sei porquê. Até gosto do misterioso J. D. Salinger, gosto muito. Li os outros livros disponíveis em português, volta e meia pego no exemplar de "The Catcher in the Rye" que existe na biblioteca (a edição mais antiga, dos Livros do Brasil, que se chama "Uma Agulha no Palheiro") mas, por uma razão ou outra, antes de sair, troco-o por outro.

Hoje, quando passeava pelas estantes da fnac, esbarrei no "À Espera no Centeio", da Difel, tradução do estimadíssimo José Lima. Nem hesitei, trouxe-o e agora, se me dão licença, vou ajustar contas com o livro:]



Se estão mesmo interessados nisto, então a primeira coisa que devem querer saber é onde é que nasci, e como foi a porcaria da minha infância, o que faziam os meus pais e tudo antes de eu ter nascido, e toda essa treta estilo David Copperfield, mas não estou nada para aí virado, para dizer a verdade. Primeiro, porque é o tipo de coisa que me chateia, e segundo porque os meus pais eram capazes de ter dois ataques cada um se eu me pusesse a contar alguma coisa de mais pessoal acerca deles. São bastantes susceptíveis com coisas do género, especialmente o meu pai. São simpáticos e tudo... não é isso.. mas também são susceptíveis como o raio. E depois não lhes vou contar a merda da minha autobiografia toda nem nada que se pareça. Vou-lhes contar só aquela história de loucos que me aconteceu o ano passado por volta do Natal antes de me ter ido completamente abaixo e de ter vindo parar aqui para me pôr em forma. Aliás, também foi só o que contei ao D. B. e ele é meu irmão e tudo. Ele está em Hollywood. Não fica muito longe deste sítio merdoso e vem cá visitar-me praticamente todos os fins-de-semana. É ele que me vai levar de volta para casa quando sair daqui, talvez para o mês que vem. Comprou agora um Jaguar. Um daqueles brinquedinhos ingleses capazes de dar trezentos à hora. E que não lhe custou muito menos do que quatro mil brasas. Tem massa que se farta, agora. Dantes não. Era um escritor a sério, quando estava em casa. escreveu aquele livro de contos incrível, O Peixinho Vermelho Secreto, para o caso de nunca terem ouvido falar. O melhor conto era «O Peixinho Vermelho Secreto». Era sobre um miudito que não deixava ninguém ver o peixinho vermelho dele porque o tinha comprado com o seu próprio dinheiro. Deixou-me sem fala. Agora está em Hollywood, o D. B., a prostituir-se. Se há uma coisa que odeio, é o cinema. Nem quero que me falem nisso.

How can I contact Salinger?

You want to contact a person who wants to be left alone? That's not nice. If you are curious about how to find J. D. Salinger's house in Cornish, New Hampshire, or if you would just like to know the best way to send him a letter, click here.  Please do not actually try to see him and if you try to write him, keep in mind your chances of getting a response are quite slim.

There was a time when Salinger answered inquires if they happened to come from very young, very pretty women, but now that he's in his 80's and seriously hard of hearing, he's probably "outgrown" that behavior. (We hope so.)

A Brief Biography of J. D. Salinger, by Sarah Morrill, April 2002

Sexta-feira, Fevereiro 11

go skating on your name

Confissão literária matinal

Este é o tipo de livro que eu gostava de escrever: Colo(u)r Dictionary

A

aene(o)us brassy or golden green in colour

alabaster a pale yellowish pink to yellowish grey

albescent becoming white or moderately white; whitish

amaranth a deep reddish purple to dark or greyish, purplish red

amaranthine deep purple-red

amber having a brown hue

amethyst a moderate purple to greyish reddish purple

ancient red a deep to vivid purplish red to vivid red

apple green a moderate or vivid yellow green to light or strong yellowish green

apricot a moderate, light, or strong orange to strong orange yellow

aqua a light bluish green to light greenish blue

aquamarine a pale blue to light greenish blue

[...]

O silêncio é muito exacto



Mark Rothko

Quinta-feira, Fevereiro 10

Plum and Orange on Red

No sábado comprei uma t-shirt cor de ameixa. Ontem, antes de adormecer, comi três tangerinas. Eram muito doces, perfumadas e cor-de-laranja escuro. Há bocado a minha mãe apareceu de surpresa com uma caixa com morangos para o lanche, vermelhos e suculentos. Apesar do frio, os sinais são evidentes: o inverno tem os dias contados.
When God made the first clay model of a human being He painted in the eyes ... the lips ... and the sex.

And then He painted in each person's name lest the person should ever forget it.

If God approves of His creation, He breathed the painted clay model into life by signing His own name.

26 facts about flesh and ink. 1984

A


The most suitable flesh to write on must be very white, perhaps the flesh of a body whose jet-black hair suggests the shine of black ink.

B



We are speculative about an erotic fantasy that combines two limitless fascinations, flesh and literature.

C


THE PILLOW-BOOK OF SEI SHONAGON is an item of classic Japanese literature written a thousand years ago by an imperial-court lady-in-waiting. It is a refined and elegant occasional diary of some wit and much insight written by a strong-minded and sensuous woman. The diary, like other diaries of its kind (it was not unique) was kept in the drawer of the wooden pillow on which the authoress laid her head at night. This film concerns a modern Sei Shonagon living in the 1990s in Hong Kong. And, of course, the story has a wholly new twist.

D


This contemporary Sei Shonagon is passionate to the point of abnegation about literature, about words, about writing, authors, poets and men-of-letters. She kept a cupboard, a large eighteenth century European cupboard, stocked to overfill with a vast array of pens and inks. But there is no paper in the cupboard. Her body is the paper.

[...]

The Pillow Book, Peter Greenaway, published by Dis Voir



"Coisas que irritam: preconceitos contra a literatura", escreve Nagiko Kiyohara no Motosuke Sei Shonagon no seu diário.

Segue-se o seguinte diálogo entre ela e o seu marido:

Ele: Gastas demasiado dinheiro em livros. Não os podes ler todos ao mesmo tempo. Tenta disciplinar-te. Cem livros, não mais.
Ela: E que dizes a só comprar livros vermelhos? Ou talvez livros só com cem páginas cada? Ou talvez queiras que só leia livros sobre arcos e flechas?
Ele: Se quiseres.
Ela: Idiota.


A palavra para "chuva" devia cair como a chuva, a palavra para "fumo" devia pairar como o fumo.

in O Livro de Cabeceira, de Peter Greenaway

Quarta-feira, Fevereiro 9

i found him

Leitura num quarto de hotel

Pouco resta daquele quarto de hotel, da neve colada às vidraças,
de ti e de mim nos gestos do amor, da sombra do teu corpo na cama,
do ruído de Nova York, daqueles dias que a memória inventa.
No entanto, este livro, um paperback, agora em ruínas,
teima em recordar-nos, símbolo de outra época.
É curioso pensar que esta capa suja,
este papel manchado, estes poemas,
foram mais poderosos que nós,
mais resistentes que a tua pele e a minha.
Contudo, nesta noite de verão, tantos anos depois,
as suas páginas não me levam a Spoon River* e às suas gentes
– desolação, estupidez, fracasso
sonhos e mentiras, um rasto de ternura –
a nós, mas somente a nós conduzem, numa noite de fevereiro,
nus e ridentes com o livro nas mãos
sem saber que também ali – desolação, estupidez, fracasso –
estava escrito o nosso inexorável destino.

Juan Luis Panero, "Antes que chegue a Noite"
tradução de António Cabrita e Teresa Noronha, edição da Fenda


* Edgar Lee Masters, Spoon River Anthology

E agora, Vera Drake?



Vera Drake não é um número nas estatísticas, é um nome, uma mulher, uma excepção, uma história sombria. O grande plano dela quando, inesperadamente, a polícia a vem buscar a casa, prova-o. Vera Drake "ajuda as raparigas", trata-as por "queridas", tenta sossegá-las. Elas estão cheias de medo, o aborto é sempre tão assustador, uma ameaça ao nosso corpo. É impossível julgar Vera Drake. É impossível olhá-la nos olhos e julgá-la culpada. E o aborto não é apenas uma questão ética como nos querem obrigar a aceitar, não é uma questão de dizer sim ou não à vida, é sempre uma decisão triste e cruel, às vezes é uma questão de sobrevivência, às vezes já não há outra hipótese. A sua criminalização é que é o crime, o mais hipócrita que existe. Vera Drake pode não existir, nunca ter existido mas para mim ela é inocente, assim como aquelas mulheres. E no entanto, saio do cinema e quantas Pamelas por aí, clínicas especializadas e escondidas, abortos clandestinos, juízes cumpridores, e a cabeça enterrada na areia. Mais de cinquenta anos depois, a nossa cobardia e o rosto de Vera Drake.

Terça-feira, Fevereiro 8

Desejo de se tornar índio

Oh, se fôssemos índios, já preparados e, em cima de um cavalo que corre, inclinados contra o vento, estremecêssemos repetidamente sobre o solo que treme até largarmos as esporas porque nunca houve esporas, até deitarmos fora as rédeas porque nunca houve rédeas e quase não víssemos a terra à nossa frente revelar um prado ceifado e liso, agora que o cavalo perdeu o pescoço e a cabeça.


Franz Kafka, "Os Contos" 1º volume, Assírio & Alvim


Claudio Cambon, Ghost Horse: Spring Blizzard, 1999

até ele, às vezes

Não deixarei mais este diário. É aqui que é necessário que me agarre, pois só aqui o posso fazer.

De boa mente explicarei o sentimento de alegria que de tempos a tempos experimento dentro de mim como justamente agora. É verdadeiramente qualquer coisa de espumoso que, por jorros leves e agradáveis, me enche inteiramente e me dá a sensação de capacidades, da não existência das quais posso a todo o momento, como agora mesmo, convencer-me com toda a certeza.

Franz Kafka, no seu Diário, no dia 16 de Dezembro de 1910

Segunda-feira, Fevereiro 7

isto não é uma promessa

Ainda não acabei a lista de livros de 2004; também não terminei o ciclo dedicado ao Bergman (apesar de ter chegado a "Saraband", há alguns filmes anteriores que merecem referência). A lentidão, a tendência para a dispersão e uma notável falta de eficácia estão para além do meu controlo. Eu e o blogue, descobri recentemente, é esse o nosso erro, não temos nem nunca tivemos metas aspiracionais.

I see skies of blue and clouds of white

E agora um bocado de optimismo matinal, sem ironias nem segundos sentidos, sem razão de ser, apenas porque acordei muito bem disposta:



...and I think to myself, what a wonderful world

Why didn’t ya sing “Love Me Tender”?

GOOD WITCH: If you are truly wild at heart, you’ll fight for your dreams... Don’t turn away from love, Sailor... Don’t turn away from love... Don’t turn away from love.

"Wild at Heart" é uma história de amor, com cabeças que explodem, muito verniz nas unhas, muito baton nos lábios, perucas louras, cigarros atrás de cigarros, algumas canções. Lula gosta de Sailor, Sailor até não é mau rapaz mas nem tudo lhe corre bem e quando corre mal ele vai para a prisão. Um dia Lula e Sailor resolvem fugir da mãe de Lula que é uma bruxa má e isto não é uma metáfora, ela é mesmo a bruxa má do Feiticeiro de Oz. Para que não restem dúvidas, numa das cenas, David Lynch transformou Lula na Dorothy, com os seus sapatinhos vermelhos.
"Wild at Heart" também é um road movie. Há muitas personagens estranhas nesta história. Todos têm segredos e aventuras nas suas cabeças e movimentam-se, fogem ou perseguem. Os Estados Unidos são uma estrada.
Apesar de muitos acidentes de automóvel e alguns tiros, Lula e Sailor conseguem chegar ao fim do filme nos braços um do outro e Cage, com o seu casaco de pele de cobra, canta "Love me Tender".
"Wild at Heart" é uma história de encantar, para ver antes de adormecer e Lynch é o jovem mágico das mãos de ouro.

Domingo, Fevereiro 6

And now the story of Sailor and Lula.....

Realizando um filme

Estão a realizar um filme. Mas está tudo errado. Julgar-se-ia que o herói estaria triunfal no convés de um navio, mas pelo contrário está num cadafalso à espera de ser enforcado.
Julgar-se-ia que a heroína estaria a beijar o herói no convés desse mesmo navio, mas pelo contrário está a ser amarrada para um tratamento de electrochoques.
Multidões de camponeses que anseiam por democracia, e supostamente estariam a celebrar a morte de um tirano, estão, na realidade, a carregar esse mesmo tirano às costas, declarando-o o salvador do povo.
O realizador não sabe onde está o erro. O produtor está muito abalado.
O duplo pergunta repetidamente, agora? depois dá um salto e cai de cabeça.
Entretanto uma manada de elefantes atropela o elenco principal; e inundações fictícias estão de facto a inundar o palco.
O duplo pergunta novamente, agora? e dá um novo salto e cai de cabeça.
O realizador, coçando a cabeça, diz, talvez os electrochoques pudessem ser substituídos por insulina...?
Tem a certeza? pergunta o produtor.
Não, mas mesmo assim, podíamos tentar... E, já agora, esse duplo não é muito bom, pois não?

Russell Edson, tradução de José Alberto Oliveira
edição da Assírio & Alvim