[Há anos que conheço o título, há anos que me sinto atraída por ele e, no entanto, sempre o ignorei. Não sei porquê. Até gosto do misterioso J. D. Salinger, gosto muito. Li os outros livros disponíveis em português, volta e meia pego no exemplar de "The Catcher in the Rye" que existe na biblioteca (a edição mais antiga, dos Livros do Brasil, que se chama "Uma Agulha no Palheiro") mas, por uma razão ou outra, antes de sair, troco-o por outro.
Hoje, quando passeava pelas estantes da fnac, esbarrei no
"À Espera no Centeio", da Difel, tradução do estimadíssimo José Lima. Nem hesitei, trouxe-o e agora, se me dão licença, vou ajustar contas com o livro:]
Se estão mesmo interessados nisto, então a primeira coisa que devem querer saber é onde é que nasci, e como foi a porcaria da minha infância, o que faziam os meus pais e tudo antes de eu ter nascido, e toda essa treta estilo David Copperfield, mas não estou nada para aí virado, para dizer a verdade. Primeiro, porque é o tipo de coisa que me chateia, e segundo porque os meus pais eram capazes de ter dois ataques cada um se eu me pusesse a contar alguma coisa de mais pessoal acerca deles. São bastantes susceptíveis com coisas do género, especialmente o meu pai. São
simpáticos e tudo... não é isso.. mas também são susceptíveis como o raio. E depois não lhes vou contar a merda da minha autobiografia toda nem nada que se pareça. Vou-lhes contar só aquela história de loucos que me aconteceu o ano passado por volta do Natal antes de me ter ido completamente abaixo e de ter vindo parar aqui para me pôr em forma. Aliás, também foi só o que contei ao D. B. e ele é meu
irmão e tudo. Ele está em Hollywood. Não fica muito longe deste sítio merdoso e vem cá visitar-me praticamente todos os fins-de-semana. É ele que me vai levar de volta para casa quando sair daqui, talvez para o mês que vem. Comprou agora um Jaguar. Um daqueles brinquedinhos ingleses capazes de dar trezentos à hora. E que não lhe custou muito menos do que quatro mil brasas. Tem massa que se farta, agora. Dantes não. Era um escritor a sério, quando estava em casa. escreveu aquele livro de contos incrível,
O Peixinho Vermelho Secreto, para o caso de nunca terem ouvido falar. O melhor conto era «O Peixinho Vermelho Secreto». Era sobre um miudito que não deixava ninguém ver o peixinho vermelho dele porque o tinha comprado com o seu próprio dinheiro. Deixou-me sem fala. Agora está em Hollywood, o D. B., a prostituir-se. Se há uma coisa que odeio, é o cinema. Nem quero que me falem nisso.