Segunda-feira, Fevereiro 28

não vou falar do frio, não vou falar do frio, não vou falar do frio, não vou ...

A hora do ano que eu amo é o Verão. Mas os verões verdadeiros do Egipto ou da Grécia — com o sol forte, com os triunfantes meio-dias, com as noites extenuantes de Agosto. Não posso dizer, porém, que trabalhe (artisticamente, quero dizer) mais no Verão. Impressões dão-me muitas as formas e as sensações do Verão; mas não observei tê-las registado ou tê-las traduzido directamente em trabalho literário. Digo directamente; porque as impressões artísticas permanecem muito tempo sem serem usadas, produzem outros pensamentos, amoldam-se outra vez por novas influências, e quando se cristalizam em palavras escritas, não é fácil recordar qual foi a hora do pretexto original, de onde verdadeiramente as palavras escritas emanam.

Konstandinos Kavafis, "Poemas e Prosas", tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, Relógio d'Água, 1994

Alice (looking in mirror): How do I look?*

Nunca se sabe o que é real e o que é sonho, ou então sabemos mas fazemos de conta que não. Ela chama-se Alice, ele tem um nome banal. A mesa de bilhar de Ziegler é vermelha, talvez isso não queira dizer nada. Há quadros por todo o lado: nas salas, nos corredores, no quarto de banho. Alguns são de Chistiana Kubrick. O meu preferido é este, de Edgar Degas, que está numa parede, no consultório de Bill:


Edgar Degas, c. 1903. Pastel, 69,9X73 cms. National Gallery, Londres

[*Eyes wide Shut, logo às 21h00 no Hollywood]

Domingo, Fevereiro 27

A menina dança?

TAKE #1:
— Hoje só danço tango* [apocalypso].

TAKE #2:
— Com todo o prazer, senhor Schnitzler.
...
— Ei, onde é que se meteu o Schnitzler? Isto não é uma valsa!? Quem é este tipo?

TAKE #3
(recomposta e jazzy, como convém à personagem) — Só nos braços de Fred Astaire!


[Epílogo: eles viveram felizes até ao fim do filme. Depois fez-se silêncio e saíram todos da sala.]

Isto é uma noticia

No Mil | Folhas de ontem, na página que lista os livros que vão ser lançados em Março, na coluna da esquerda, no canto inferior:
Jakob von Gunten, de Rober Walser | Relógio d'Água

Sábado, Fevereiro 26

Roslyn: How do you find your way back in the dark?
Langland: Just head for that big star straight on. The highway's under it - it'll take us right home.



Cornell Capa | Marilyn Monroe durante as filmagens de "The Misfits", Nevada, 1960

o pescador, a escritora e o caçador de nuvens

Ao final da manhã, na Cantareira, vi um homem pescar uma gaivota. Ela deixou-se arrastar durante uma certo tempo na água aos gritos, depois desenvencilhou-se do anzol e voou.

Agustina Bessa Luís escolhia com vagar as hortaliças na mercearia fina do Passeio Alegre. Levou tudo lá para o fundo, atrás do balcão, onde foi atendida com discrição.

Depois de estacionar o carro reparei num homem de sessenta ou setenta e tal anos parado numa esquina. Vestia um casaco castanho aos quadrados, muito feio, ou melhor, tão estranho que o transformou numa personagem de David Lynch. Tinha nas mãos uma pequena máquina fotográfica digital apontada para cima. Atravessou a rua e enquadrou de novo as nuvens.

Sexta-feira, Fevereiro 25

the world is held together by the wind that blows through Gena Rowlands' hair*

Isto não é uma notícia. Desde o natal que a sala de cinema da Casa das Artes está fechada. Caiu uma parte do tecto, disseram-me. Um: não foi por causa da chuva. Dois: o edifício foi submetido a obras de manutenção recentemente. Três: ninguém sabe de nada, nem na Casa das Artes nem no IA.
As poucas sessões de cinema agendadas foram canceladas.
Para que conste, hoje ia ser projectado o filme "Uma mulher sob influência" de John Cassavettes.

_
*

Nighthawks, 1942

Nighthawks is one of the few pictures about which the taciturn painter Edward Hopper ever spoke. Nighthawks, he said, was his vision of a street at night: not necessarily something especially lonely - a restaurant in Greenwich Avenue at the junction between two roads. "I simplified the scene and made the restaurant bigger. Unconsciously, probably, I painted the loneliness of a big city...." (cont.)

Quinta-feira, Fevereiro 24

A letter from Isaac Asimov to his wife Janet written on his deathbed

One night, studying an egg tray in my kitchen, that first novel fell together in my mind: apes blowing blood into the air, the robot nymphs dipping their slender metal legs into an ammonia brook.

I began those flights from Earth in plywood space capsules, fleeing to a place Satan could not find. That was my hope. Getting away from the chain letters, fever, rats, and unemployment, away from the dark uncles that strayed over the globe, cutting brake lines and loosening screws.

And as a Jew I asked myself what good are hidden things, and as a Jew I admonished myself for asking. I knew that the best things were hidden, and all of this was said in a private voice, a cousin to the one I used to speak to pets.

I am writing this under the illumination of an old American stereo. For once I don't want to know the weather forecast. In fact, I can't bear to hear it. The jealousy would kill me before midnight. Perhaps they will make jokes at Doubleday tomorrow. I can imagine an intern asking. "What were his last ten thousand words..."

I want to know too. From my sickbed I've seen cellophane rams shimmering in the yard and cardinals that look like quarts of blood balanced in the branches. The doctor calls them apparitions. Perhaps my last words will be random.

I am so drowsy, here listening to the wild dressage of a housefly, thinking about the loyal robots in my paperbacks. Thinking about the little chalet I would have built for you on Neptune.

A Neptune indiscernible from Vermont.

David Berman, "Actual Air" | © Drag City

strangers talk only about the weather #13

Quarta-feira, Fevereiro 23

Thank you, Mr. Eastwood!

It's Yeats*

 The Lake Isle of Innisfree

I will arise and go now, and go to Innisfree,
And a small cabin build there, of clay and wattles made;
Nine bean rows will I have there, a hive for the honey bee,
And live alone in the bee-loud glade.

And I shall have some peace there, for peace comes dropping slow,
Dropping from the veils of the morning to where the cricket sings;
There midnight's all a glimmer, and noon a purple glow,
And evening full of the linnet's wings.

I will arise and go now, for always night and day
I hear lake water lapping with low sounds by the shore;
While I stand on the roadway, or on the pavements gray,
I hear it in the deep heart's core.

____________
* Frank Dunn em Million Dollar Baby

And they all pretend they're orphans

... and the wind is making speeches / and the rain sounds like a round of applause / Napoleon is weeping in the Carnival saloon / his invisible fiance is in the mirror / the band is going home / it's raining hammers, it's raining nails / yes, it's true, there's nothing left for him down here...

Segunda-feira, Fevereiro 21

nostalghia



A nostalgia é todo um sentimento. Dito de outra forma, podemos sentir nostalgia continuando no nosso próprio país, ao lado dos que nos são mais queridos. Apesar de uma casa feliz, uma família feliz, um homem pode sofrer de nostalgia, simplesmente porque sente que a sua alma está limitada, que não se desenvolve como ele deseja. A nostalgia é essa impotência diante do mundo, essa dor de não poder transmitir a sua espiritualidade aos outros.
É o mal que ataca o herói de "Nostalghia": ele sofre por não conseguir ter amigos, por não conseguir comunicar. Esta personagem diz: «É preciso destruir as fronteiras», para que todo o mundo viva livremente a sua espiritualidade. Ele sofre também porque o seu carácter não se adapta à vida moderna. Não consegue ser feliz face à miséria do mundo.

Andrei Tarkovski

A Zona não existe

Perguntam-me muitas vezes o que representa a Zona. Só há uma resposta possível: a Zona não existe. Foi o proprio Stalker que inventou a sua Zona. Criou-a para poder levar lá as pessoas infelizes e incutir-lhes a ideia de uma esperança. A sala dos desejos é igualmente uma criação do Stalker, uma provocação mais, face ao mundo material. Esta provocação, construída no seu espiríto, corresponde a um acto de fé.

Andrei Tarkovski

Domingo, Fevereiro 20

strangers talk only about the weather #12

O céu esteve sempre azul mas há pouco, quase já noite, descobri algumas nuvens a oriente.
Estes senhores garantem que vem aí chuva. A chuva (também?) seria uma boa notícia.

1963

20 febrero

No puedes con el lenguaje. El lenguaje no puede por ti.


Alejandra Pizarnik, Diarios, Lumen, noviembre 2003

Сталкер

[Tonino Guerra pede a Andrei Tarkovski para lhe contar o fim de "Stalker", plano a plano, como se ele fosse cego.]

Andrei Tarkovski: Um grande plano: a filha do stalker, uma menina doente, segura um livro nas mãos. A cabeça envolta num lenço. Vemo-la de perfil à frente de uma janela. A câmara recua lentamente e apanha uma parte da mesa. A mesa em grande plano coberta por louça suja: dois copos e um frasco. A menina pousa o livro nos joelhos e repete o que acabou de ler. Fita um dos copos. Sob o poder do seu olhar o copo começa a mover-se em direcção à câmara. Então ela desvia o olhar para o outro copo e também este começa a deslocar-se. Depois olha de novo para o primeiro copo, que já está no meio da mesa, e nós percebemos que ele se move graças à força do seu olhar. O copo cai no chão mas não se parte. Ouvimos um comboio a passar perto da casa, o comboio faz um ruído estranho, as paredes da casa abanam, tremem cada vez mais. A câmara volta ao grande plano da menina e assim, com este som, com este ruído, o filme acaba.

Sábado, Fevereiro 19

Schumann, uma fantasia

Amo aquele que pede o impossível
quando sente a casa desmoronar tijolo
a tijolo
com a leveza de uma pena liberta pleno
voo

de um azul e oiro, o ritmo —
esse tijolo de barro vermelho
de um modo apaixonante pede

a vida
e a vida, num último instante, dá-lhe jardins,
deuses e a energia de uma
cidade suspensa
a luz de um palácio submerso

no último instante,
muito lento,
silvam as chamas do desamparo, caducidade
duração.

João Miguel Fernandes Jorge, "Invisíveis Correntes", Relógio d'Água, Junho de 2004

Sexta-feira, Fevereiro 18

Errata

Where it says snow
read teeth-marks of a virgin
Where it says knife read
you passed through my bones
like a police-whistle
Where it says table read horse
Where it says horse read my migrant's bundle
Apples are to remain apples
Each time a hat appears
think of Isaac Newton
reading the Old Testament
Remove all periods
They are scars made by words
I couldn't bring myself to say
Put a finger over each sunrise
it will blind you otherwise
That damn ant is still stirring
Will there be time left to list
all errors to replace
all hands guns owls plates
all cigars ponds woods and reach
that beer-bottle my greatest mistake
the word I allowed to be written
when I should have shouted
her name

Charles Simic

Quinta-feira, Fevereiro 17

uma biblioteca por minuto*

Se o João Barrento desalinha no Musil então eu voto no Godard!



Andava desconfiada, primeiro foi a estreia de Notre Musique, uma aula política sobre campo e contra-campo. Hoje começa no Nimas, em Lisboa, um ciclo de sete filmes de Jean-Luc Godard. Ora vejam a pontaria: no domingo, dia 20, dia de eleições, passa Pedro, o Louco e no dia seguinte, Nova Vaga. São indícios claros, as sondagens ignoram mas o realizador francês é o preferido por milhares de portugueses. A partir de segunda-feira será ele a dirigir o país?

À hora do almoço fui apanhar sol, entrei — inocente, juro — na fnac de Santa Catarina. "Só para ver", pensei, mas o tipo malandro que se entretem a espalhar livros e discos improváveis, pois bem, ele pregou-me uma partida e colou umas etiquetas verdes n' O Acossado e no Desprezo do jovem Godard: 7.95 euros cada um. Desenrolei o meu cachecol vermelho e decidi votar no Godard.

— Mas o Godard está velho e chato...
— Por isso mesmo.

Ainda bem que me faz essa pergunta (desse modo)

— A Francesca Woodman desfez-se, desapareceu através de uma parede, de um espelho, foi embora. A Alejandra Pizarnik vai continuar por aí *, uma rapariga com uma pedra amarrada aos pés (e a pedra é ela própria? pobre, pobre, Alejandra). Queria falar sobre a maravilhosa Mouchette de Bresson mas não consigo, estou ainda, desde ontem à noite, completamente rendida. Como é possível um filme assim tão belo e comovente e escondido? Deve haver um gesto, uma posição de mãos certa para descrever os filmes de Bresson, vou treinar. Queria também falar de um verbo. No sábado, à mesa do restaurante chinês, comecei, empolgada, a estruturar uma lei que proibia o uso desmesurado de certas palavras. Guardá-las numa fortaleza, será possível? Ou num sussurro? Isto leva-me ao Saraband de Bergman (é para isto os filmes servem?). E já me perdi, desculpe, não respondi à pergunta, pois não?


Nuvens sobre Londres, fotografadas na semana passada pelo Miguel

Francesca Woodman III

entre as sombras o negro e eu

Alguns dos seus poemas dos anos setenta recordam — pura coincidência, creio — os de Alejandra Pizarnik, que lia há catorze anos e que uma tarde viu de longe no bar Taita de Barcelona, uma tarde de Outubro de 1969, que a minha mãe deixou anotada no seu diário: «Hoje vi essa poetisa argentina miudita, que parece atormentada, acompanhavam-na uns meninos-bem do bairro de Calvo Sotelo...»

Alguns dos seus poemas poderiam ser da própria Pizarnik, veja-se este exemplo de uns versos da minha mãe escritos na tarde de 27 de Julho de 1977: «Viver livre. / Nos candeeiros da noite, / no centro do vazio, na escuridão aberta, / entre as sombras o negro e eu. / Viver livre. / Apoiada na tumba, / e eu perdida, / na luz única do filho.»


Enrique Vila-Matas, "O Mal de Montano"
Teorema, Outubro de 2004

Quarta-feira, Fevereiro 16

Francesca Woodman II

debajo de mi nombre

Emprestaram-me os "Diarios" de Alejandra Pizarnik. É um livro grosso com quinhentas e quatro páginas. Na capa, uma fotografia a preto e branco de Alejandra a escrever à máquina. No seu rosto há um vislumbre de alegria, parece-me, mas depois folheio o livro e desconfio dessa alegria. A sua escrita é sempre dolorosa. É o corpo que não encaixa, são os outros que estão demasiado longe, inatingíveis, é a literatura que a empurra para as trevas, é a própria escrita que custa e desilude. Debaixo do seu nome, dentro de uma jaula, lutando com as palavras, aí está Alejandra.

Francesca Woodman

1963

16 de febrero

Leí Mémoires d'un Souterrain. Toda la noche estuve sentada en el suelo, mirando las grietas de la pared. ¿Qué es este libro? ¿Por qué mirar una pared?

Alejandra Pizarnik, Diarios, Lumen, noviembre 2003

Café Belas Artes

Fim da tarde. Em cima da mesa: um café, um descafeínado e quatro livros. Um deles é um vulcão prestes a explodir...

Terça-feira, Fevereiro 15

[post mutante]

Pastoral

Quando era mais jovem
tinha a certeza
que devia fazer algo da minha vida.
Agora, mais velho,
caminho por vielas
admirando as casas
dos muito pobres:
telhados desengonçados
pátios cheios de
velho arame de capoeira, cinzas,
móveis desconjuntados;
as cercas e os anexos
construídos com aduelas
e tábuas de caixotes, todos,
com alguma sorte,
sujos de um verde-azulado
cuja pátina
me agrada mais
que qualquer cor.

Ninguém
acreditará que isto
seja tão importante para a nação.

William Carlos Williams, "Antologia Breve", tradução de José Agostinho Baptista, Assírio e Alvim

Let's take a walk


Richard Serra em Serralves

cor de ferrugem

Gosto de casas abandonadas, com os vidros partidos, heras a trepar pelas paredes; fábricas esquecidas; chaminés de tijolo. Gosto do papel velho que se desfaz nas mãos; das estufas do Jardim Botânico; do edifício de Januário Godinho na esquina de D. Pedro V; das ruínas do Convento de Monchique; das folhas do meu tulipeiro no outono. Gosto da casa de Domenico em Nostalghia; das cores que o tempo envelhece. Gosto da cor de ferrugem.


pormenor de escultura de Richard Serra

Segunda-feira, Fevereiro 14

Dia de procissão em Santa Cruz da Graciosa

Junto ao farol velho, na Cantareira, há uma comunidade de garajaus (andorinhas-do-mar) que mergulham a pique no rio (à atenção da Carla).


Na antena 2, hoje de manhã, entre as nove e as dez, primeiro Guilhermina Suggia (uma gravação - creio – de 1927) e depois "Porque é que odeio o poema em prosa", de Tom Whalen (ostra do Pedro Coelho). Levantei-me e bati palmas.


Melhor do que comprar um livro de Herberto Helder é receber, de presente, inesperado, um livro de Herberto Helder.


Breve recado à gerência: preciso de um dia de férias (apanhar o comboio até Coimbra para ir ao C.A.V ver "Aproxima-te, Ouve-me" de Rui Chafes). Motivo: saudades da esfera.


O sol do marmeleiro é o que ilumina os primeiros dias de Outono, quando os frutos dos marmeleiros começam a amadurecer. Coincide com o Verão de São Miguel (29 de Setembro) durante o qual se regressa ao calor do Verão:



1963

14 de febrero

— ¿Por qué tardaste tanto en venir?
— La puerta estrecha — dije.
Nos abrazamos.

Había una lámpara sostenida por un ángel. La cara del ángel era triste, al borde del sollozo.

Alejandra Pizarnik, Diarios, Lumen, noviembre 2003

Modo: noite; opção: capturar

Na sexta-feira o Miguel, recém chegado de Londres, entregou-me o belíssimo "Mouchette" ("Au Hasard Balthazar" estava esgotado). Passadas algumas horas apareceu o rapaz da DHL com a soberba edição de "El Sol del Membrillo". Há três dias, portanto, e ainda não vi nenhum dos filmes. Ontem a Rosa mostrou-me gavetas cheias de DVDs apetíveis, resisti a todos. Acho que isto é um grande exercício de contenção mas não sei se serve para alguma coisa. Logo à noite desisto.

Domingo, Fevereiro 13

se elas florescem,

O elogio do tradutor

O que vou dizer não o posso provar. Não sou profissional das letras, não entro nos livros com um bisturi, não esburaco as frases, não construo teorias, nada disso. Enfim, o que vou dizer não vale nada mas apetece-me elogiar o José Lima. Comecei a ler "À Espera no Centeio", nunca o li em inglês nem sequer a tradução anterior (a edição de Livros do Brasil) mas esta versão do José Lima é uma maravilha. Já o conheço de nome, há uns tempos que o admiro, sei que traduz do italiano (lidos: o Erri De Luca e um conto de Pavese num número das Ficções) e do inglês, por exemplo: "Contra a Interpretação" de Susan Sontag. Traduziu muito mais, de certeza (pelo menos: Jonh Cheever, Graham Greene, Joseph Mitchell, Ascanio Celestini, Voltaire,...), mas isto é apenas o que conheço. Chega e sobeja para ganhar a minha veneração. "The Catcher in the Rye" de J. D. Salinger está um primor, parece escrito em português. Nota-se que houve uma procura das palavras exactas, das expressões mais verosímeis, encaixa tudo na perfeição. É um prazer ler assim.


__________
p.s. por uma razão qualquer que me escapa reparei que já devia ter elogiado outro tradutor que tanto aprecio: José A. Palma Caetano (pelas soberbas traduções de Thomas Bernhard e também pela tristeza de não ter sido ele a traduzir W. G. Sebald, isto não me sai da cabeça: deveria ter sido ele). Fica para a próxima. Estou a um passo da "Extinção".

Sábado, Fevereiro 12

Se estão mesmo interessados nisto,

[Há anos que conheço o título, há anos que me sinto atraída por ele e, no entanto, sempre o ignorei. Não sei porquê. Até gosto do misterioso J. D. Salinger, gosto muito. Li os outros livros disponíveis em português, volta e meia pego no exemplar de "The Catcher in the Rye" que existe na biblioteca (a edição mais antiga, dos Livros do Brasil, que se chama "Uma Agulha no Palheiro") mas, por uma razão ou outra, antes de sair, troco-o por outro.

Hoje, quando passeava pelas estantes da fnac, esbarrei no "À Espera no Centeio", da Difel, tradução do estimadíssimo José Lima. Nem hesitei, trouxe-o e agora, se me dão licença, vou ajustar contas com o livro:]



Se estão mesmo interessados nisto, então a primeira coisa que devem querer saber é onde é que nasci, e como foi a porcaria da minha infância, o que faziam os meus pais e tudo antes de eu ter nascido, e toda essa treta estilo David Copperfield, mas não estou nada para aí virado, para dizer a verdade. Primeiro, porque é o tipo de coisa que me chateia, e segundo porque os meus pais eram capazes de ter dois ataques cada um se eu me pusesse a contar alguma coisa de mais pessoal acerca deles. São bastantes susceptíveis com coisas do género, especialmente o meu pai. São simpáticos e tudo... não é isso.. mas também são susceptíveis como o raio. E depois não lhes vou contar a merda da minha autobiografia toda nem nada que se pareça. Vou-lhes contar só aquela história de loucos que me aconteceu o ano passado por volta do Natal antes de me ter ido completamente abaixo e de ter vindo parar aqui para me pôr em forma. Aliás, também foi só o que contei ao D. B. e ele é meu irmão e tudo. Ele está em Hollywood. Não fica muito longe deste sítio merdoso e vem cá visitar-me praticamente todos os fins-de-semana. É ele que me vai levar de volta para casa quando sair daqui, talvez para o mês que vem. Comprou agora um Jaguar. Um daqueles brinquedinhos ingleses capazes de dar trezentos à hora. E que não lhe custou muito menos do que quatro mil brasas. Tem massa que se farta, agora. Dantes não. Era um escritor a sério, quando estava em casa. escreveu aquele livro de contos incrível, O Peixinho Vermelho Secreto, para o caso de nunca terem ouvido falar. O melhor conto era «O Peixinho Vermelho Secreto». Era sobre um miudito que não deixava ninguém ver o peixinho vermelho dele porque o tinha comprado com o seu próprio dinheiro. Deixou-me sem fala. Agora está em Hollywood, o D. B., a prostituir-se. Se há uma coisa que odeio, é o cinema. Nem quero que me falem nisso.

How can I contact Salinger?

You want to contact a person who wants to be left alone? That's not nice. If you are curious about how to find J. D. Salinger's house in Cornish, New Hampshire, or if you would just like to know the best way to send him a letter, click here.  Please do not actually try to see him and if you try to write him, keep in mind your chances of getting a response are quite slim.

There was a time when Salinger answered inquires if they happened to come from very young, very pretty women, but now that he's in his 80's and seriously hard of hearing, he's probably "outgrown" that behavior. (We hope so.)

A Brief Biography of J. D. Salinger, by Sarah Morrill, April 2002

Sexta-feira, Fevereiro 11

go skating on your name

Confissão literária matinal

Este é o tipo de livro que eu gostava de escrever: Colo(u)r Dictionary

A

aene(o)us brassy or golden green in colour

alabaster a pale yellowish pink to yellowish grey

albescent becoming white or moderately white; whitish

amaranth a deep reddish purple to dark or greyish, purplish red

amaranthine deep purple-red

amber having a brown hue

amethyst a moderate purple to greyish reddish purple

ancient red a deep to vivid purplish red to vivid red

apple green a moderate or vivid yellow green to light or strong yellowish green

apricot a moderate, light, or strong orange to strong orange yellow

aqua a light bluish green to light greenish blue

aquamarine a pale blue to light greenish blue

[...]

O silêncio é muito exacto



Mark Rothko

Quinta-feira, Fevereiro 10

Plum and Orange on Red

No sábado comprei uma t-shirt cor de ameixa. Ontem, antes de adormecer, comi três tangerinas. Eram muito doces, perfumadas e cor-de-laranja escuro. Há bocado a minha mãe apareceu de surpresa com uma caixa com morangos para o lanche, vermelhos e suculentos. Apesar do frio, os sinais são evidentes: o inverno tem os dias contados.
When God made the first clay model of a human being He painted in the eyes ... the lips ... and the sex.

And then He painted in each person's name lest the person should ever forget it.

If God approves of His creation, He breathed the painted clay model into life by signing His own name.

26 facts about flesh and ink. 1984

A


The most suitable flesh to write on must be very white, perhaps the flesh of a body whose jet-black hair suggests the shine of black ink.

B



We are speculative about an erotic fantasy that combines two limitless fascinations, flesh and literature.

C


THE PILLOW-BOOK OF SEI SHONAGON is an item of classic Japanese literature written a thousand years ago by an imperial-court lady-in-waiting. It is a refined and elegant occasional diary of some wit and much insight written by a strong-minded and sensuous woman. The diary, like other diaries of its kind (it was not unique) was kept in the drawer of the wooden pillow on which the authoress laid her head at night. This film concerns a modern Sei Shonagon living in the 1990s in Hong Kong. And, of course, the story has a wholly new twist.

D


This contemporary Sei Shonagon is passionate to the point of abnegation about literature, about words, about writing, authors, poets and men-of-letters. She kept a cupboard, a large eighteenth century European cupboard, stocked to overfill with a vast array of pens and inks. But there is no paper in the cupboard. Her body is the paper.

[...]

The Pillow Book, Peter Greenaway, published by Dis Voir



"Coisas que irritam: preconceitos contra a literatura", escreve Nagiko Kiyohara no Motosuke Sei Shonagon no seu diário.

Segue-se o seguinte diálogo entre ela e o seu marido:

Ele: Gastas demasiado dinheiro em livros. Não os podes ler todos ao mesmo tempo. Tenta disciplinar-te. Cem livros, não mais.
Ela: E que dizes a só comprar livros vermelhos? Ou talvez livros só com cem páginas cada? Ou talvez queiras que só leia livros sobre arcos e flechas?
Ele: Se quiseres.
Ela: Idiota.
A palavra para "chuva" devia cair como a chuva, a palavra para "fumo" devia pairar como o fumo.

in O Livro de Cabeceira, de Peter Greenaway

Quarta-feira, Fevereiro 9

i found him

Leitura num quarto de hotel

Pouco resta daquele quarto de hotel, da neve colada às vidraças,
de ti e de mim nos gestos do amor, da sombra do teu corpo na cama,
do ruído de Nova York, daqueles dias que a memória inventa.
No entanto, este livro, um paperback, agora em ruínas,
teima em recordar-nos, símbolo de outra época.
É curioso pensar que esta capa suja,
este papel manchado, estes poemas,
foram mais poderosos que nós,
mais resistentes que a tua pele e a minha.
Contudo, nesta noite de verão, tantos anos depois,
as suas páginas não me levam a Spoon River* e às suas gentes
– desolação, estupidez, fracasso
sonhos e mentiras, um rasto de ternura –
a nós, mas somente a nós conduzem, numa noite de fevereiro,
nus e ridentes com o livro nas mãos
sem saber que também ali – desolação, estupidez, fracasso –
estava escrito o nosso inexorável destino.

Juan Luis Panero, "Antes que chegue a Noite"
tradução de António Cabrita e Teresa Noronha, edição da Fenda


* Edgar Lee Masters, Spoon River Anthology

E agora, Vera Drake?



Vera Drake não é um número nas estatísticas, é um nome, uma mulher, uma excepção, uma história sombria. O grande plano dela quando, inesperadamente, a polícia a vem buscar a casa, prova-o. Vera Drake "ajuda as raparigas", trata-as por "queridas", tenta sossegá-las. Elas estão cheias de medo, o aborto é sempre tão assustador, uma ameaça ao nosso corpo. É impossível julgar Vera Drake. É impossível olhá-la nos olhos e julgá-la culpada. E o aborto não é apenas uma questão ética como nos querem obrigar a aceitar, não é uma questão de dizer sim ou não à vida, é sempre uma decisão triste e cruel, às vezes é uma questão de sobrevivência, às vezes já não há outra hipótese. A sua criminalização é que é o crime, o mais hipócrita que existe. Vera Drake pode não existir, nunca ter existido mas para mim ela é inocente, assim como aquelas mulheres. E no entanto, saio do cinema e quantas Pamelas por aí, clínicas especializadas e escondidas, abortos clandestinos, juízes cumpridores, e a cabeça enterrada na areia. Mais de cinquenta anos depois, a nossa cobardia e o rosto de Vera Drake.

Terça-feira, Fevereiro 8

Desejo de se tornar índio

Oh, se fôssemos índios, já preparados e, em cima de um cavalo que corre, inclinados contra o vento, estremecêssemos repetidamente sobre o solo que treme até largarmos as esporas porque nunca houve esporas, até deitarmos fora as rédeas porque nunca houve rédeas e quase não víssemos a terra à nossa frente revelar um prado ceifado e liso, agora que o cavalo perdeu o pescoço e a cabeça.


Franz Kafka, "Os Contos" 1º volume, Assírio & Alvim

Claudio Cambon, Ghost Horse: Spring Blizzard, 1999

até ele, às vezes

Não deixarei mais este diário. É aqui que é necessário que me agarre, pois só aqui o posso fazer.

De boa mente explicarei o sentimento de alegria que de tempos a tempos experimento dentro de mim como justamente agora. É verdadeiramente qualquer coisa de espumoso que, por jorros leves e agradáveis, me enche inteiramente e me dá a sensação de capacidades, da não existência das quais posso a todo o momento, como agora mesmo, convencer-me com toda a certeza.

Franz Kafka, no seu Diário, no dia 16 de Dezembro de 1910

Segunda-feira, Fevereiro 7

isto não é uma promessa

Ainda não acabei a lista de livros de 2004; também não terminei o ciclo dedicado ao Bergman (apesar de ter chegado a "Saraband", há alguns filmes anteriores que merecem referência). A lentidão, a tendência para a dispersão e uma notável falta de eficácia estão para além do meu controlo. Eu e o blogue, descobri recentemente, é esse o nosso erro, não temos nem nunca tivemos metas aspiracionais.

I see skies of blue and clouds of white

E agora um bocado de optimismo matinal, sem ironias nem segundos sentidos, sem razão de ser, apenas porque acordei muito bem disposta:



...and I think to myself, what a wonderful world

Why didn’t ya sing “Love Me Tender”?

GOOD WITCH: If you are truly wild at heart, you’ll fight for your dreams... Don’t turn away from love, Sailor... Don’t turn away from love... Don’t turn away from love.

"Wild at Heart" é uma história de amor, com cabeças que explodem, muito verniz nas unhas, muito baton nos lábios, perucas louras, cigarros atrás de cigarros, algumas canções. Lula gosta de Sailor, Sailor até não é mau rapaz mas nem tudo lhe corre bem e quando corre mal ele vai para a prisão. Um dia Lula e Sailor resolvem fugir da mãe de Lula que é uma bruxa má e isto não é uma metáfora, ela é mesmo a bruxa má do Feiticeiro de Oz. Para que não restem dúvidas, numa das cenas, David Lynch transformou Lula na Dorothy, com os seus sapatinhos vermelhos.
"Wild at Heart" também é um road movie. Há muitas personagens estranhas nesta história. Todos têm segredos e aventuras nas suas cabeças e movimentam-se, fogem ou perseguem. Os Estados Unidos são uma estrada.
Apesar de muitos acidentes de automóvel e alguns tiros, Lula e Sailor conseguem chegar ao fim do filme nos braços um do outro e Cage, com o seu casaco de pele de cobra, canta "Love me Tender".
"Wild at Heart" é uma história de encantar, para ver antes de adormecer e Lynch é o jovem mágico das mãos de ouro.

Domingo, Fevereiro 6

And now the story of Sailor and Lula.....

Realizando um filme

Estão a realizar um filme. Mas está tudo errado. Julgar-se-ia que o herói estaria triunfal no convés de um navio, mas pelo contrário está num cadafalso à espera de ser enforcado.
Julgar-se-ia que a heroína estaria a beijar o herói no convés desse mesmo navio, mas pelo contrário está a ser amarrada para um tratamento de electrochoques.
Multidões de camponeses que anseiam por democracia, e supostamente estariam a celebrar a morte de um tirano, estão, na realidade, a carregar esse mesmo tirano às costas, declarando-o o salvador do povo.
O realizador não sabe onde está o erro. O produtor está muito abalado.
O duplo pergunta repetidamente, agora? depois dá um salto e cai de cabeça.
Entretanto uma manada de elefantes atropela o elenco principal; e inundações fictícias estão de facto a inundar o palco.
O duplo pergunta novamente, agora? e dá um novo salto e cai de cabeça.
O realizador, coçando a cabeça, diz, talvez os electrochoques pudessem ser substituídos por insulina...?
Tem a certeza? pergunta o produtor.
Não, mas mesmo assim, podíamos tentar... E, já agora, esse duplo não é muito bom, pois não?

Russell Edson, tradução de José Alberto Oliveira
edição da Assírio & Alvim

Sábado, Fevereiro 5

DECRETO-LEI Nº 595/89

Este decreto anula o anterior. O motivo é fútil: tenho um computador novo.
A inauguração segue dentro de minutos na companhia do senhor Russell Edson e de mais uma das suas intrigantes histórias.

Sexta-feira, Fevereiro 4

DECRETO-LEI Nº 567/89

Nos calendários normais Fevereiro tem menos um dia. Neste blogue tem menos uma semana.

Mesa 24

– Sobremesa, vão desejar?
– Queriamos o Agostinho Branquinho fora da Casa da Música, por favor.
– Em fatias?
– Sim, flamejadas.
– Com certeza. Para os quatro?
– Que ideia! Para nós só queremos café.

2. The Doody Waltz (ou: a música que faltou no debate)

Quinta-feira, Fevereiro 3

As Marionetas de Donos Longinquos

Um pianista sonha que é contratado por uma companhia de salvados para destroçar um piano com os seus dedos...
No dia do concerto da destruição do piano, enquanto se veste, repara numa borboleta que atormenta uma flor no canteiro da janela. Pergunta-se se deverá chamar a polícia. Depois pensa que a borboleta pode ser apenas uma marioneta manipulada pelo dono desde uma janela mais acima.
De súbito tudo é maravilhoso. Ele começa a chorar.

Depois outra borboleta começa a atormentar a primeira borboleta. De novo se pergunta se não deverá chamar a polícia.
Mas, não serão marionetas-borboleta? Acha que são, pertencendo a donos rivais observando que borboleta pode atormentar mais a do outro.

E isso passa-se no seu canteiro. O Plano Cósmico: Donos Longínquos manipulando Donos inferiores que, por sua vez, o estão a manipular a ele... Um universo entrecruzado de fios!
De súblito é tudo maravilhoso; a luz é estranha... Algo que diz respeito à luz! Ele começa a chorar...

Russell Edson, tradução de José Alberto Oliveira
edição da Assírio & Alvim

(tradução de Sandra Costa no Tempo Dual)

A Stone Is Nobody's

A man ambushed a stone. Caught it. Made it a prisoner.
Put it in a dark room and stood guard over it for the
rest of his life.

His mother asked why.

He said, because it's held captive, because it is
captured.

Look, the stone is asleep, she said, it does not know
whether it's in a garden or not. Eternity and the stone
are mother and daughter; it is you who are getting old.
The stone is only sleeping.

But I caught it, mother, it is mine by conquest, he said.

A stone is nobody's, not even its own. It is you who are
conquered; you are minding the prisoner, which is yourself,
because you are afraid to go out, she said.

Yes yes, I am afraid, because you have never loved me,
he said.

Which is true, because you have always been to me as
the stone is to you, she said.


Russell Edson
(tradução de Sandra Costa no Tempo Dual)

I love these guys:

I would consider any society near-perfect where the arts of highest irreverance were practiced and Russell Edson was poet laureate.

Charles Simic

Quarta-feira, Fevereiro 2

os meus heróis:



Antimatter

On the other side of a mirror there's an inverse world,
where the insane go sane; where bones climb out of the
earth and recede to the first slime of love.

And in the evening the sun is just rising.

Lovers cry because they are a day younger, and soon
childhood robs them of their pleasure.

In such a world there is much sadness which, of course,
is joy.


Russell Edson
(tradução de Sandra Costa no Tempo Dual)

Terça-feira, Fevereiro 1

tempo de antena:

Television is reality, and reality is less than television.

Brian O'Blivion, em Videodrome de David Cronenberg, ontem à noite na sic radical

El mejor destino que hay es el de "Supervisor de nubes" acostado en una hamaca mirando al cielo*



Lisboa, 17 de Maio de 2004, 14:40, nuvens

__________
* greguería de Ramón Gómez de la Serna

– Resistentes – diz-te –,

gente de letras e de catacumba. Lutadores contra a destruição da literatura. Gostava de os reunir em algum lugar e a partir dali começar a pôr bombas mentais contra os falsos escritores, contra os granjolas que controlam a indústria cultural, contra os emissários do nada, contra os porcos.

Musil a Rosario Girondo, disfarçado de Robert Walser em O Mal de Montano

Às vezes caminho errante

pela neblina em mil vacilações e confusões, e sinto-me frequentemente abandonado [...] No fundo, a única coisa que dá orgulho e alegria ao espirito são os esforços superados com bravura e os sofrimentos suportados com paciência»

Robert Walser citado por Rosario Girondo em O Mal de Montano