Sábado, Fevereiro 5

DECRETO-LEI Nº 595/89

Este decreto anula o anterior. O motivo é fútil: tenho um computador novo.
A inauguração segue dentro de minutos na companhia do senhor Russell Edson e de mais uma das suas intrigantes histórias.

Sexta-feira, Fevereiro 4

DECRETO-LEI Nº 567/89

Nos calendários normais Fevereiro tem menos um dia. Neste blogue tem menos uma semana.

Mesa 24

– Sobremesa, vão desejar?
– Queriamos o Agostinho Branquinho fora da Casa da Música, por favor.
– Em fatias?
– Sim, flamejadas.
– Com certeza. Para os quatro?
– Que ideia! Para nós só queremos café.

2. The Doody Waltz (ou: a música que faltou no debate)

Quinta-feira, Fevereiro 3

As Marionetas de Donos Longinquos

Um pianista sonha que é contratado por uma companhia de salvados para destroçar um piano com os seus dedos...
No dia do concerto da destruição do piano, enquanto se veste, repara numa borboleta que atormenta uma flor no canteiro da janela. Pergunta-se se deverá chamar a polícia. Depois pensa que a borboleta pode ser apenas uma marioneta manipulada pelo dono desde uma janela mais acima.
De súbito tudo é maravilhoso. Ele começa a chorar.

Depois outra borboleta começa a atormentar a primeira borboleta. De novo se pergunta se não deverá chamar a polícia.
Mas, não serão marionetas-borboleta? Acha que são, pertencendo a donos rivais observando que borboleta pode atormentar mais a do outro.

E isso passa-se no seu canteiro. O Plano Cósmico: Donos Longínquos manipulando Donos inferiores que, por sua vez, o estão a manipular a ele... Um universo entrecruzado de fios!
De súblito é tudo maravilhoso; a luz é estranha... Algo que diz respeito à luz! Ele começa a chorar...

Russell Edson, tradução de José Alberto Oliveira
edição da Assírio & Alvim

(tradução de Sandra Costa no Tempo Dual)

A Stone Is Nobody's

A man ambushed a stone. Caught it. Made it a prisoner.
Put it in a dark room and stood guard over it for the
rest of his life.

His mother asked why.

He said, because it's held captive, because it is
captured.

Look, the stone is asleep, she said, it does not know
whether it's in a garden or not. Eternity and the stone
are mother and daughter; it is you who are getting old.
The stone is only sleeping.

But I caught it, mother, it is mine by conquest, he said.

A stone is nobody's, not even its own. It is you who are
conquered; you are minding the prisoner, which is yourself,
because you are afraid to go out, she said.

Yes yes, I am afraid, because you have never loved me,
he said.

Which is true, because you have always been to me as
the stone is to you, she said.


Russell Edson
(tradução de Sandra Costa no Tempo Dual)

I love these guys:

I would consider any society near-perfect where the arts of highest irreverance were practiced and Russell Edson was poet laureate.

Charles Simic

Quarta-feira, Fevereiro 2

os meus heróis:



Antimatter

On the other side of a mirror there's an inverse world,
where the insane go sane; where bones climb out of the
earth and recede to the first slime of love.

And in the evening the sun is just rising.

Lovers cry because they are a day younger, and soon
childhood robs them of their pleasure.

In such a world there is much sadness which, of course,
is joy.


Russell Edson
(tradução de Sandra Costa no Tempo Dual)

Terça-feira, Fevereiro 1

tempo de antena:

Television is reality, and reality is less than television.

Brian O'Blivion, em Videodrome de David Cronenberg, ontem à noite na sic radical

El mejor destino que hay es el de "Supervisor de nubes" acostado en una hamaca mirando al cielo*



Lisboa, 17 de Maio de 2004, 14:40, nuvens

__________
* greguería de Ramón Gómez de la Serna

– Resistentes – diz-te –,

gente de letras e de catacumba. Lutadores contra a destruição da literatura. Gostava de os reunir em algum lugar e a partir dali começar a pôr bombas mentais contra os falsos escritores, contra os granjolas que controlam a indústria cultural, contra os emissários do nada, contra os porcos.

Musil a Rosario Girondo, disfarçado de Robert Walser em O Mal de Montano

Às vezes caminho errante

pela neblina em mil vacilações e confusões, e sinto-me frequentemente abandonado [...] No fundo, a única coisa que dá orgulho e alegria ao espirito são os esforços superados com bravura e os sofrimentos suportados com paciência»

Robert Walser citado por Rosario Girondo em O Mal de Montano

Segunda-feira, Janeiro 31

Blop, blop, pschit, plouf

Um vislumbre



Não é fácil escrever sobre um filme tão magnífico como Saraband. Rigoroso nas imagens; belo nas cores, nos enquadramentos, na música; perfeito nos diálogos. Tão perfeito nos diálogos.

É um filme para quatro personagens, instrumentos, como lhes chama Bergman, e uma sombra, a sombra de Anna. Marianne e Johan vêm de trás. Apesar de Bergman dizer que Saraband não é uma sequela de "Cenas da Vida Conjugal", é certo, não é uma sequela mas as personagens são eles. Reconheço a ira de Johan, as suas incapacidades, a necessidade de ternura, ele está mais velho, as suas mãos tremem e tem medo da morte. E reconheço o optimismo e a paciência de Marianne, a enorme paciência de Marianne. São eles, quase sempre são eles. Acompanham-os Hendrik, filho de Johan; Karin, filha de Hendrik; e o retrato de Anna, mulher de Hendrik e mãe de Karin.

Os instrumentos entram dois a dois e falam do que sempre se fala em Bergman: o amor, o ódio e a morte. "Ninguém nos ensina a sentir", diz Johan num dos episódios de "Cenas da Vida Conjugal", "somos analfabetos dos sentimentos". É verdade, nada sabemos, entramos às apalpadelas, demasiado tarde percebemos como "é bom estar sentado de mãos dadas a olhar a paisagem".

De todos os personagens, só Anna conseguiu o milagre de amar desmesuradamente e digo milagre porque acho que o amor em Bergman é quase um milagre. O ódio não. A cena mais terrível do filme passa-se no escritório de Johan. Ele recusa qualquer diálogo com o filho Hendrik. Ele odeia o filho. O escritório está atulhado de livros, Johan tem as mãos sobre Kierkegaard e diz palavras intoleráveis.

A personagem mais luminosa de Saraband é Karin. É espantoso que Bergman, com 86 anos, tenha criado esta rapariga que tem o nome da mãe dele, que é a virgem que corre pela floresta e é muito mais, é também o próprio Bergman, ou melhor, é a sua última possibilidade. Karin liberta-se da família, diz não ao amor opressivo do pai, diz não às propostas mefistofélicas do avô e decide viver a sua própria vida. Não quero brilhar num palco sozinha, quero fazer parte de uma orquestra, de um grupo, diz ela, "quero uma vida simples".
Uma vida simples. É o que todos queremos, querida Karin, mas é tão difícil.

the sixties

Vou passar o dia a ouvir música dos anos sessenta, ou, como disse John Zorn This is beauty. This is truth. This is music that touches the heart in a way no other music ever has, or ever could. Bom, ele exagera um bocadinho mas o disco é divertido e encantador.



Informações e excertos aqui.

Domingo, Janeiro 30

Manifesto Eleitoral dos Desalinhados

...
Musil disse já, há mais de setenta anos, o que há a fazer. O que é o sentido de possibilidade? É "aquela capacidade de pensar tudo aquilo que também poderia ser e de não dar mais importância àquilo que é do que àquilo que não é". Imaginemos, então, imaginemos aquilo que não é, mas poderia e deveria ser. Imaginemos que o lote de qualidades que os realistas sem sentido do real nos querem vender por boas estão quase todas podres. E sejamos todos, pelo tempo que for preciso, até ver (se vem alguma mudança), homens e mulheres sem qualidades. Homens e mulheres do conjuntivo. Do sentido de possibilidade. Da vontade imaginante.


João Barrento, no Mil | Folhas