
Não é fácil escrever sobre um filme tão magnífico como Saraband. Rigoroso nas imagens; belo nas cores, nos enquadramentos, na música; perfeito nos diálogos. Tão perfeito nos diálogos.
É um filme para quatro personagens, instrumentos, como lhes chama Bergman, e uma sombra, a sombra de Anna. Marianne e Johan vêm de trás. Apesar de Bergman dizer que Saraband não é uma sequela de "Cenas da Vida Conjugal", é certo, não é uma sequela mas as personagens são eles. Reconheço a ira de Johan, as suas incapacidades, a necessidade de ternura, ele está mais velho, as suas mãos tremem e tem medo da morte. E reconheço o optimismo e a paciência de Marianne, a enorme paciência de Marianne. São eles, quase sempre são eles. Acompanham-os Hendrik, filho de Johan; Karin, filha de Hendrik; e o retrato de Anna, mulher de Hendrik e mãe de Karin.
Os instrumentos entram dois a dois e falam do que sempre se fala em Bergman: o amor, o ódio e a morte. "Ninguém nos ensina a sentir", diz Johan num dos episódios de "Cenas da Vida Conjugal", "somos analfabetos dos sentimentos". É verdade, nada sabemos, entramos às apalpadelas, demasiado tarde percebemos como "é bom estar sentado de mãos dadas a olhar a paisagem".
De todos os personagens, só Anna conseguiu o milagre de amar desmesuradamente e digo milagre porque acho que o amor em Bergman é quase um milagre. O ódio não. A cena mais terrível do filme passa-se no escritório de Johan. Ele recusa qualquer diálogo com o filho Hendrik. Ele odeia o filho. O escritório está atulhado de livros, Johan tem as mãos sobre Kierkegaard e diz palavras intoleráveis.
A personagem mais luminosa de Saraband é Karin. É espantoso que Bergman, com 86 anos, tenha criado esta rapariga que tem o nome da mãe dele, que é a virgem que corre pela floresta e é muito mais, é também o próprio Bergman, ou melhor, é a sua última possibilidade. Karin liberta-se da família, diz não ao amor opressivo do pai, diz não às propostas mefistofélicas do avô e decide viver a sua própria vida. Não quero brilhar num palco sozinha, quero fazer parte de uma orquestra, de um grupo, diz ela, "quero uma vida simples".
Uma vida simples. É o que todos queremos, querida Karin, mas é tão difícil.