Sábado, Janeiro 22

um triplo mortal (e já é sábado)

afinal não é difícil, basta encontrar o desenhador certo: Lorenzo Mattotti


Sexta-feira, Janeiro 21

T. S. Eliot

Depois de Eugenio Montale, o meu outro livro de poesia de 2004 * foi "Quatro Quartetos" de T. S. Eliot, com tradução e introdução de Gualter Cunha e editado pela Relógio d'Água. Pensando melhor deveria ter escolhido mais. Esqueci-me de Philip Larkin, de Manuel António Pina, mas ficamos assim: Montale e Eliot. Há uma certa coerência nesta dupla no entanto, se nada disse sobre Eugenio Montale, que poderei dizer sobre Eliot? A seco, o autor, o grande T. S. Eliot, de Burnt Norton:

I


O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que poderia ter sido é uma abstracção
Que fica uma possibilidade perpétua
Somente num mundo de especulação.
O que poderia ter sido e o que foi
Apontam para um só fim, sempre presente.
Sons de passos ecoam na memória,
Descem o caminho que nós não seguimos
Em direcção à porta por nós nunca aberta
Para o jardim de rosas. As minhas palavras ecoam
Assim, no teu espírito.

Mas com que propósito
Perturbam o pó numa taça de folhas de rosa
Não sei.
Outros ecos
Habitam o jardim. Vamos seguir?
Depressa, disse o pássaro, procurai-os, procurai-os,
Ao voltar da esquina. Pelo primeiro portão,
Para dentro do nosso primeiro mundo, vamos seguir
O ludíbrio do tordo? Para dentro do nosso primeiro mundo.
Ali estavam, graves, invisíveis,
Moviam-se sem pressa, sobre as folhas mortas,
No calor do Outono, pelo ar vibrante,
E o pássaro chamou, em resposta
À inaudível música oculta nos arbustos,
E o invisível relance perpassou, pois as rosas
Tinham o ar de flores que são olhadas.
Ali estavam como convidadas nossas, acolhidas e acolhedoras.
Assim nós e elas avançámos, num padrão formal,
Pela alameda vazia, até ao círculo de buxo,
Para olhar para dentro do lago esvaziado.
O lago seco, o cimento seco, de bordos castanhos,
E o lago encheu-se com água feita da luz do Sol,
E o lótus subiu, devagar, devagar,
A superfície cintilou do coração da luz,
E ficaram por detrás de nós, reflexos no lago.
Passou então uma nuvem, e o lago ficou vazio.
Ide, disse o pássaro, pois as folhas estavam cheias de crianças,
Em excitação escondidas, a refrear o riso.
Ide, ide, ide, disse o pássaro: a espécie humana
Não pode suportar muita realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que poderia ter sido e o que foi
Apontam para um fim, sempre presente.

[...]

comme un nuage

Programa para um fim-de-semana perfeito

adiar a Saraband de Bergman para o próximo sábado, desligar a televisão, esquecer os dvd's, ir ao cinema: amanhã à noite "Belarmino" de Fernando Lopes, no pequeno auditório do Rivoli; sessões (mais ou menos) regulares de "A Rapariga Santa" de Lucrecia Martel, no Bom Sucesso; e "Oito e meio" de Federico Fellini, ao fim da tarde ou à noite, no Campo Alegre.


Quinta-feira, Janeiro 20

memória descritiva

#1
Este blogue esteve para se chamar Stalker. "Stalker" é o meu filme. E é por isso que este blogue não se chama Stalker, por gostar tanto dele.

#2
Este blogue esteve para se chamar Rua de Sentido Único. Uma homenagem a Walter Benjamim. Tive vergonha e um certo medo de me colar a ele. Afastei-me mas não o esqueço.

#3
A evidência: este blogue acabou por se chamar Last Tapes. Krapp é um velho que remexe nas suas fitas gravadas, remexe no passado. Não procura nada (creio que as personagens de Beckett nunca procuram nada nem ninguém). Não quer dizer que não encontre. Tanto faz.

Anexo:
Este é o caderno de Tarkovski, é assim que se escreve Stalker em russo:

O rosto de Karin



Há uns anos atrás fiz um documentário curto sobre o rosto da minha mãe. Para isso usei a minha máquina de oito milímetros, provida de uma objectiva especial. Como eu, por ocasião do falecimento do meu pai, tinha roubado todos os álbuns que havia em casa com fotografias da família, o material à minha disposição era em quantidade suficiente. O filme é portanto sobre o rosto da minha mãe e intitula-se "O Rosto de Karin". Começa com uma fotografia de quando ela tinha três anos, e termina com uma fotografia para o passaporte, tirada uns meses antes de ter sofrido o último enfarte.
[...]

das últimas páginas de "Lanterna Mágica", de Ingmar Bergman
Editora Caravela, 1988

Quarta-feira, Janeiro 19

Lágrimas e suspiros



Todos os meus filmes podiam ser filmados a preto e branco, menos "Lágrimas e suspiros". No roteiro está mencionado que imagino a cor vemelha como sendo o interior da alma. Quando era criança, via a alma como se fosse a sombra de um dragão, de um cinzento-azulado, pairando sobre nós sob a forma de um ser alado, meio ave meio peixe. Mas tudo dentro desse dragão era vermelho.



A primeira cena surgia em minha mente o tempo todo: um quarto com papel de parede vermelho e mulheres vestidas de branco. Acontece que certas imagens voltam teimosamente ao meu cérebro sem que eu perceba a intenção delas. Depois desaparecem, para voltarem mais uma vez idênticas às anteriores.



Repetidas vezes eu rechaçara esta visão, recusando-me a usá-la como ponto de partida para um filme ou para o que quer que fosse. Mas ela foi teimosa e, contra minha vontade, identifiquei-a; trata-se de três mulheres que esperam o falecimento da quarta. E velam por turnos.



Creio que o filme – ou o que quer que isso seja – se compõe deste poema: Um ser humano deixa esta vida, mas, como num pesadelo, detém-se a meio caminho, pedindo aos que ficam ternura, reconciliação, libertação. Pedindo tudo, tudo. Estão mais duas pessoas presentes, e tanto as acções como os pensamentos delas estão em relação com a morte, a moribunda. A terceira pessoa presente vai redimir a doente, incutindo-lhe paz, acompanhando-a na fase final.



Ingmar Bergman, "Imagens"

Terça-feira, Janeiro 18

exercício número dois (divertimento)

ligar 21 754 90 00

exercício número um

em vez do hino --> Esta entrevista

[...]

Paulo Moura: O que há de errado com a auto-estima?

José Gil: Essa ideia reflexiva, de nos amarmos a nós próprios... Em vez de estarmos virados para fora, para os outros, para o mundo. Só nos podemos afirmar agindo, exprimindo-nos - não voltando-nos para a autocomplacência. Tudo o que é válido vem "de fora". Nós ainda temos essa ideia de que é preciso começar por uma transformação interior... Mas, em Portugal, não existe um "fora".

[...]

in the mirror

Isto é um bocadinho estúpido

Miguel Gonçalves Mendes: A pergunta era: porquê a necessidade do outro?

Mário Cesariny: Eu sei lá, pergunta ao Jeová.
Não fui eu que criei essa necessidade.
Eu acho que em muitos casos, o outro é o nosso espelho, sem esse espelho, nós não nos vemos. Não existimos. É claro que podes dizer que isto é um bocado abusivo, que eu no espelho não me vejo senão a mim, mas não é isso. Eu no espelho ou vejo os dois ou vejo o outro, através de mim. E os seres habituais têm necessidade desse encontro, que não é um espelho mudo, etc.
Não é o Narciso, que esse quer ver-se a si próprio, não! É o que olha para a água e olha para o espelho e vê o outro, ou a outra, com quem pode conversar, viver.
Isto é um bocadinho estúpido também, mas é da sabedoria antiga. (ri)

verso de autografia / Mário Cesariny (à conversa com Miguel Gonçalves Mendes, para além do filme) / Assírio & Alvim

Segunda-feira, Janeiro 17

strangers talk only about the weather #10

O frio regressou. O céu está de novo azul, quase sem nuvens.
Este inverno o Porto tornou-se uma cidade luminosa:

Mestre? Sim, ele é um Mestre





Ontem à noite apanhei, inesperadamente, na rtp memória, a célebre entrevista feita a Almada Negreiros no programa Zip Zip em 1969. As respostas dele são todas antológicas: curtas e muito inteligentes.
Por exemplo, quando Carlos Cruz lhe pergunta:
– Qual é a importância do fenómeno comunicação na sua carreira? Em que é que a comunicação, o fenómeno da comunicação, terá influenciado a carreira de Almada Negreiros?
Responde Almada Negreiros:
– Tenho setenta e seis anos de idade e desde que me conheço nunca pisei o risco fora daquilo que não fosse comunicação.

_________
as imagens foram retiradas do arquivo da rtp, assim como este excerto da entrevista

Ver mais, ouvir mais e sentir mais*

Ao fim de cinco anos irrepreensíveis, o meu magnífico imac pifou. Qualquer coisa no sistema eléctrico falhou, deixando-o completamente morto. Mais do que o carro, o telemóvel ou a televisão, é este pequeno computador que funciona como a extensão do meu corpo. Os meus olhos, os meus ouvidos, a minha boca, o meu cérebro, a minha pele. De repente fiquei mais pequena e tudo à minha volta mais silencioso.

A partir de agora e durante algum tempo os posts serão publicados, muitas vezes, em diferido.


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* disse (não sei quando nem onde) Karl-Heinz Stockhausen

Domingo, Janeiro 16

ainda Montale

Talvez certa manhã andando por um ar de vidro,
árido, voltando-me, veja acontecer assombrado:
o nada por cima dos meus ombros, e atrás de mim
o vazio, com um terror de embriagado.

Depois, como sobre um écran postar-se-ão lado a lado
árvores casas colinas para o costumado credo.
Mas será tarde demais; e eu escapar-me-ei calado
por entre os homens que não olham para trás, com o meu segredo

Eugenio Montale, "Poesia", selecção, tradução, prefácio e notas de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim

O que é que eu posso dizer sobre a “Poesia” de Montale?

È vero che non può darsi grande poesia senza grandi anime.



Foi um dos meus livros de 2004. Uma antologia soberba. Um feito editorial. O que é que eu posso dizer sobre Eugenio Montale? Que me faz estremecer? Que os seus poemas quase nos permitem descobrir o ponto morto do mundo, o fio do novelo? Ou mais ainda? Não, não posso dizer nada que valha a pena. Os poemas sim, dizem. Escuta,


OS LIMÕES

Escuta, os poetas laureados
movem-se apenas entre plantas
com nomes pouco comuns: buxos, ligustros ou acantos.
Por mim, prefiro os caminhos que vão dar às fossas
cobertas de ervas onde em lameiros
meio secos os miúdos apanham
alguma enguia definhada:
as veredas que bordejam as ravinas,
descem por entre os tufos dos canaviais
e entram pelas hortas, por entre os limoeiros.

É melhor ainda quando a algazarra dos pássaros
se cala engolida pelo azul do céu:
mais claro se ouve o sussurro
dos ramos amigos no ar que quase não se move,
e as impressões deste cheiro
que não consegue separar-se da terra
e faz chover no peito uma doçura inquieta.
Aqui das divertidas paixões
por milagre cala-se a guerra,
aqui também nós os pobres temos a nossa parte de riqueza
que é o cheiro dos limões.

Olha, neste silêncios em que as coisas
se abandonam e parecem perto
de trair o seu último segredo,
esperamos por vezes
descobrir um erro da Natureza,
o ponto morto do mundo, o elo que não liga,
o fio do novelo que finalmente nos leva
ao centro de uma verdade.
O olhar procura derredor,
a mente indaga harmoniza separa
no perfume que se espalha
quando o dia mais enfraquece.
São os silêncios nos quais se vê
em cada sombra humana que se afasta
alguma perturbada Divindade.

Mas a ilusão perde-se e o tempo transporta-nos
até ruidosas cidades onde o azul se mostra
apenas em pedaços, no alto, entre os telhados.
Então a chuva cansa a terra: concentra-se
o tédio do inverno sobre as casas,
a luz torna-se avara – a alma amara.
Quando um dia, de um portão entreaberto
por entre as árvores de um pátio
se nos depara o amarelo dos limões;
e o gelo do coração se desfaz,
e ao peito afluem
as suas canções
as trombetas de ouro da solaridade.


Eugenio Montale, "Poesia", selecção, tradução, prefácio e notas de José Manuel de Vasconcelos,
edição memorável da Assírio & Alvim, Junho de 2004