Sábado, Janeiro 15

Meet me at Café Lehmitz



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Café Lehmitz was located near the Reeperbahn in Hamburg, Germany. Open for most of 24 hours, it was frequented by sailors and stokers from all corners of the world. By merchants, dockers and cabdrivers. By prostitutes, striptease dancers and pimps. By poets, small time criminals and other night-revellers. One thing they had in common: they were given the cold shoulder by 'respectable society'.
Swedish photographer Anders Petersen came across the place at the end of the Sixties and for nearly three years would spend most of his days and nights near the tables, benches and dance floor where life was lived to the full.
His debut book Café Lehmitz - as dark, wild and rugged as the place itself - was published in 1978. It instantly made his name as a passionated chronicler of unruly daily life. The cover-image of the book would in 1985 be used by Tom Waits for his LP Rain Dogs.

Anders Petersen @ Noorderlicht Photogallery

Sexta-feira, Janeiro 14

por vezes nota-se Robert Walser no mundo

Na hospedaria à beira da cidade apareceram três jovens raparigas: uma anã, uma muito gorda, grande e uma bonita, muito frágil. As três fumavam. A anã e a gorda falavam muito alto, cumprimentavam em volta e riam. A bonita era tímida (por vezes nota-se Robert Walser no mundo e é de ir buscá-lo novamente).

Peter Handke, "De manhã à janela do rochedo" (e outras horas locais 1982-1987)", página 78,
in Novíssimas Histórias com Tempo e Lugar (Prosa de Autores Austríacos 1970-2000)

God's away on Business

Sabes, ele não é certo. Um dia acorda-nos com um sussurro, no outro com um grito.

Quinta-feira, Janeiro 13

Pocket Theatre

Fingers in an overcoat pocket. Fingers sticking out of a black leather glove. The nails chewed raw. One play is called "Thieves' Market," another "Night in a Dime Museum." The fingers when they strip are like bewitching nude bathers or the fake wooden limbs in a cripple factory. No one ever sees the play: you put your hand in somebody else's pocket on the street and feel the action.

Charles Simic

Actividades lúdicas

Depois da prestidigitação e antes de ensaiar um triplo mortal, vou tentar um golpe diferente. Desta vez, para fazer o jeito ao Alexandre, sem palavras. Um golpe de mãos. Apenas de mãos. E alguma moral, vá lá. Um, dois, três:

Quarta-feira, Janeiro 12

it’s a song about the weather

O Pedro definiu-o deste modo: não será bem uma rádio mas um sítio onde emitimos o que nos é oferecido pelas editoras e sites oficiais de artistas.

A mim parece-me uma jukebox, uma jukebox muito gira. Fui convidada para me juntar ao grupo, lembrei-me logo do velho Tom Waits (jukebox, Tom Waits, bastante café, alguns cigarros, Jarmusch , e por aí fora).

Strange weather, all kinds of weather, aqui ao lado


A Chuva, fotografada por Konstantin Smilga

Prestidigitação para um regresso

Podia pegar no livro por tantos lados diferentes. Escolhi uma perspectiva muito pessoal e limitada, uma espécie de truque de magia mas, antes de mais, importa ressalvar que "Contra a Interpretação" demorou trinta anos anos a ser publicado no nosso país (parabéns à Gótica).

Ainda um pormenor e uma motivação: [1] gosto da tradução de José Lima (e não é só desta) e [2] volto muitas vezes a alguns dos textos de Susan Sontag, por exemplo às paginas dedicadas a Robert Bresson ou a Jean-Luc Godard.

[E agora é que é:] avanço em direcção a "Vivre sa Vie" com um propósito: se o Alexandre desapareceu e deixou a pobre Nana, presa num fotograma com uma pergunta tão difícil, então eu tomo de empréstimo a pele do velho filósofo Brice Parain e, com a ajuda de um café, um cigarro e da própria Susan Sontag, vou ensaiar a resposta que liberte a rapariga.

Nana: Como é que podemos ter a certeza de ter encontrado a palavra certa?

Susan Sontag: [ponto 13 do artigo sobre Vivre sa Vie em "Contra a Interpretação", pp. 236-237] O texto mais elaborado, intelectualmente, de todo o filme é a conversa no Quadro XI entre Nana e um filósofo (desempenhado pelo filósofo Brice Parain) num café. Discutem a natureza da linguagem. Nana pergunta por que não se pode viver sem palavras; Parain explica que é porque falar equivale a pensar, e pensar a falar, e sem pensamento não há vida. Não se trata de uma questão de falar ou de não falar, mas de falar bem. Falar bem exige uma disciplina ascética (uma ascese), um distanciamento. Tem de se compreender, desde logo, que não se pode chegar directamente à verdade. É necessário errar.
No início da conversa, Parain conta a história de Porthos de Dumas, o homem de acção, cujo primeiro pensamento o matou. (Correndo para se afastar de uma carga de dinamite que tinha colocado, Porthos subitamente perguntou-se como era possível caminhar, como é que se punha sempre um pé a seguir ao outro. Parou. A dinamite explodiu. E ele morreu.) Em certo sentido, também esta história, tal como a história da galinha, é sobre Nana. E através desta história e do conto de Poe* que é contada no quadro seguinte (e último), somos preparados – formalmente, não substancialmente – para a morte de Nana.

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* O Retrato Oval

Terça-feira, Janeiro 11

it tango

Percebe-se porque é que os jovens críticos da nouvelle vague francesa, Truffaut e Godard, se entusiasmaram tanto com "Mónica e o desejo". O filme conta uma história simples, de amor, fuga e transgressão. Dois jovens apaixonam-se, resolvem fugir da cidade e das suas famílias e passar um verão despreocupado, com muito sol, sexo e algum álcool. Entretanto a rapariga engravida e quando o dinheiro e a comida acabam e começa a ficar frio eles regressam, não só a Estocolmo mas também a uma vida enfadonha. Adivinham-se as dificuldades, os esforços, um rame rame sem brilho. Mónica não foi feita para aquilo. E é então que surge esse célebre plano, esse plano maravilhoso em que Harriett Andersson nos encara e os seus olhos dizem tudo o que as palavras não conseguem dizer. Assim:


Your eyes. It's a day's work just to look in to them.

um contacto directo e impudico com o público

Nunca fiz um filme tão simples como "Mónica e o desejo". A bem dizer foi assim: partimos para o arquipélago e gravamos o filme. Aquela liberdade nos encantou. E o sucesso de bilheteira foi considerável.
Foi uma experiência rica em ensinamentos a de apresentar um talento tão original como é o de Harriett Andersson. Observar como esta actriz se comporta diante da câmara.
[...]
Harriett Andersson é um dos raros génios cinematográficos. Nas tortuosas sendas da selva que é a nossa profissão, só se encontram muito poucos do mesmo quilate.
Um exemplo: o Verão chegara ao termo. Harry não está em casa e Mónica sai com Lelle. No café, Lelle põe em marcha a juke-box. Durante a barulheira do swing, a câmara é dirigida para Harriett, e ela faz então o seguinte: deixa de olhar o actor com quem contracena e olha fixamente para a objectiva. Pela primeira vez na história do cinema um actor estabeleceu um contacto directo e impudico com o público.

Ingmar Bergman, "Imagens", edição da Martins Fontes

Segunda-feira, Janeiro 10

C'est le plan le plus triste de l'histoire du cinéma

Un film d'Ingmar Bergman, c'est, si l'on veut, un vingt-quatrième de seconde qui se métamorphose et s'étire pendant une heure et demie. C'est le monde entre deux battements de paupières, la tristesse entre deux battements de coeur, la joie de vivre entre deux battements de mains.

Il faut avoir vu "Monika" rien que pour ces extraordinaires minutes où Harriett Andersson, avant de recoucher avec un type qu'elle avait plaqué, regarde fixement la caméra, ses yeux rieurs embués de désarroi, prenant le spectateur à témoin du mépris qu'elle a d'elle-même d'opter involontairement pour l'enfer contre le ciel. C'est le plan le plus triste de l'histoire du cinéma.

Jean-Luc Godard [O artigo que Jean-Luc Godard escreveu sobre Bergman (Bergmanorama) para a revista Cahiers du Cinéma, (#85, de Julho de 1958) pode ser lido aqui]

modas & bordados

não desfazendo no senhor Galliano (vale a pena visitar o site), também gosto muito destes modelos da Mariana Sá Nogueira:


da esquerda para a direita:
1. Carlos Alves e André Teodósio com fatos de "Furiosa Tempestade" e Paula Sá Nogueira com o vestido de "Aguantar"
2. Vitor Gonçalves com um casaco de "Nocturno Delirante", Marcello Urgeghe com o pijama de "Problemas" e Paula Sá Nogueira com um vestido de "Pano de Muro"
3. Marcello Urgeghe e Vitor Gonçalves com fatos de "Histórias Misóginas"


fotografias de Miguel Madeira para a revista Pública#428, 5 Setembro 2004

Um livro único

Para mim, o melhor livro de 1970, o livro do ano, foi Ambas as Mãos sobre o Corpo, de Maria Teresa Horta (colecções Europa-América, Colecção Nova Literatura).
Dou razões, concisamente:
lê-se a primeira página e não se percebe nada, logo recomeça-se, nisto podem levar-se semanas;
a primeira página empinada, e nós à beira duma astenia mental ou melancolia depressiva, vira-se e acontece sucessivamente sem cessar o mesmo, até final. E passam meses.
chegado ao fim, o Leitor (que não percebeu nada) esquece tudo e está na altura de recomeçar, sucessivamente, sem cessar. E chega a noite do 31 de Dezembro. Então, ou se fazem votos de vida nova, trepando à cadeira, emborcando champanhe e o livro voa janela for a com as panelas os tachos os cacos o lixo da barulheira ritual. Ou não. Nesta alternativa, pode ser ainda o livro único de 1971, até – bem entendido – à saída do meu Vamos Jogar Xadrez?
Viram a vantagem? enquanto os compradores assíduos dos livros RTP têm que ler e entender um livro em 7 dias, porque já lá vem outro, com a Teresinha faz-se uma grande economia… Lê-se e relê-se, fi/traumatica/ca-se na mesma, um tanto oirado, tá tudo certo; até se pode (traumatizado gravemente) deixar de ler. Para sempre.

(Notícia, Luanda, 13 Fevereiro 1971)

in Figuras, Figurantes e Figurões, de Luiz Pacheco, edição de Independente

Domingo, Janeiro 9

Isto são rosas, senhores, são rosas

Desviei-me do caminho/sumário traçado no domingo passado mas não me esqueci das alíneas. Para continuar com a boa disposição nada melhor do que passar ao prémio que atribuí ao melhor livro comprado num quiosque: Figuras, Figurantes e Figurões, de Luiz Pacheco.
Saiu com "O Independente" no final do ano; foi uma pechincha e já é uma relíquia.

O livro foi organizado pelo jornalista João Pedro George (que, entre outras coisas, também escreve na esplanada). Da sua apresentação (muito sucinta e certeira) e em jeito de resumo, retiro este excerto:
«O grosso das crónicas deste livro, nunca antes reunidas provêm da revista angolana Notícia (em 1965-71), de Manoel Vinhas, e do jornal Diário Económico (em 1995-96), então dirigido por Nicolau Santos. A estes textos, ordenados por afinidade temática, juntei seis, entretanto incluídos em livro, por três razões: uns, porque clarificam particularmente bem o tipo de crítica que defendeu e praticou; outros, porque dão sequência a textos desta antologia; outros ainda – como as primeiríssimas referências críticas a O Que Diz Molero, de Dinis Machado, e a Levantado do Chão, de José Saramago, reunidas em Textos de Guerrilha –, porque nos recordam o seu instinto para descobrir novos talentos literários, como aliás fizera antes, nos anos 50, com Herberto Helder ou Natália Correia na Contraponto. Finalmente, incluí um texto cómico, hilariante mesmo, sobre Vergílio Ferreira.»

Não conheço bem o Luiz Pacheco mas gostava de acrescentar, mesmo correndo o perigo de não adiantar nada de novo, que ele é um escritor formidável. Conhece bem as palavras, não aquelas viciadas, por exemplo da crítica literária que se vai praticando por aí, tipo: território, emergentes, rugoso. Não, conhece as outras, as que as páginas dos jornais perderam, que os livros esquecem, e tão bonitas e luminosas que elas são. Para além disso Luiz Pacheco tem genica, tem mau feitio e tem humor. Com certeza que um homem assim (num tempo de gente balofa) merece todo o nosso respeito e admiração. Pena ele não ler blogues, senão mandava-lhe uns beijos.

Mal possa (e já que ando em maré de balanços e prémios), deixo aqui “Um livro único”, sobre o melhor livro de 1970. Quanto ao Vergílio Ferreira, podem não acreditar mas Luiz Pacheco descobriu que ele tem swing!