À falta de "Sarabanda"* (e antes de "Na pele do Lobo" e dos outros que entraram pela minha casa dentro no natal), resolvi rever as "Cenas da Vida Conjugal" na sua versão mais longa. São seis episódios (de cinquenta minutos cada) realizados por Ingmar Bergman para a televisão em 1972: Inocência e pânico; A arte de fazer como a avestruz; Paula; O Vale de lágrimas; Os analfabetos; e No meio da noite numa casa às escuras algures no mundo.
Filmes sem música, com planos longos e angustiantes.
[Recomenda-se, principalmente aos casados, o visionamento com algum álcool à mistura. Pelo sim pelo não]
A história começa assim: Johann e Marianne estão casados há dez anos, parece tudo bem. Uma jornalista entrevista-os para uma revista feminina, eles transbordam de felicidade. Sentados no sofá verde, são a
imagem perfeita de harmonia familiar. Claro que sofá, sorrisos e amabilidades implicam já muita representação e enganos, mas eles ainda não se dão conta.
A pouco e pouco a crise instala-se e o que parecia estável e eterno, estilhaça-se. Afinal a vida deles estava colada com mentiras e conveniências sociais. O casamento acaba definitivamente quando Johann anuncia que vai embora, que vai viver com uma outra mulher. As coisas que eles calaram, dizem-nas agora e são agressivas; a fronteira entre o amor e o ódio é demasiado pequena.
Segue-se o divórcio, um processo complicado que envolve negociações de dinheiros, confissões, acusações e insultos.
Passam mais dez anos, Johann e Marianne casam de novo, resignados, com outras pessoas. Uma noite encontraram-se por acaso num teatro, estão ambos sozinhos e reatam a relação, agora em modo extra-conjugal.
No último episódio escapam à família e refugiam-se durante um fim-de-semana numa
casa às escuras algures no mundo. É Agosto mas no norte faz frio. Acendem a lareira, trocam confissões, vão para a cama. Marianne acorda com um pesadelo em que se vê, sem mãos, enterrando-se, mais e mais, num chão movediço sem conseguir alcançar nem Johann nem as fillhas. Ele reconforta-a.
Segue-se o último diálogo entre os dois, antes de "Sarabanda".
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* felizardos os lisboetas pois podem ver o filme na próxima quinta-feira, dia 13, no Cinema Millenium Alvaláxia