Sábado, Janeiro 8

diz-me o que ouves



Com o dinheiro que me sobrou do natal comprei um casaco novo e um ipod em segunda mão. Passei a tarde a escolher cds. Junto com as músicas, é inevitável, vou gravar no pequeno aparelho parte da minha memória: as pessoas de quem gostei, as pessoas de quem gosto, os filmes que vi, as viagens que fiz, os programas de rádio que guardo todos os domingos, composições belíssimas, canções quase pirosas, algumas ninharias e mais de vinte por cento da minha personalidade.
Por uma questão de pudor, espero nunca perder o meu ipod. Nem o casaco.

O que disse Bill

Bill disse: «Houve um tempo em que precisei
de palavras, das minhas e das dos outros.
Porque eu era cego, surdo e mudo,
e as palavras eram o meu bordão, os meus ouvidos e a minha voz.
Hoje sou ainda cego, surdo e mudo,
mas não preciso de palavras
porque todos os caminhos por onde vou
partem de mim e por eles regresso,
e porque aquilo que ouço e me ouve
habita em mim (eu, o número mais pequeno),
e porque as palavras são um longo caminho para chegar onde estou.»

O Mestre não respondeu (Rinzai Ma-tsou ter-lhe-ia dado com um pau) pois,
ao contrário de Bill, não tinha nada para dizer
que pudesse ser dito com palavras ou sem palavras.

"Os Livros" de Manuel António Pina

Survival Kit

Her list: 1. A violin; 2. Book of images of all art work in the Prado; 3. Nikon D1X Camera; 4. DeSica's "Miracle in Milan"; 5. Antony and the Johnsons (CDs); 6. equipment for an agility course for my dog; 7. various disguises; 8. complete works of Astor Piazzola;

Sexta-feira, Janeiro 7

strangers talk only about the weather #9

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Depois de ler a notícia do post anterior a temperatura deste blogue subiu para níveis surpreendentes.

The End of the Moon

Quinta-feira, Janeiro 6

teoria de choque: depois do Bergman, os irmãos Marx!

Dorme bem

Marianne: Às vezes entristece-me nunca ter amado ninguém. E também não creio que alguém me tenha amado. Isso desgosta-me muito.

Johann: Estás a exagerar tudo.

Marianne: Estou?

Johann: Só posso falar por mim. Acho que te amo à minha maneira imperfeita e egoísta. E tu à tua maneira complicada e tumultuosa. Acho simplesmente que nos amamos. De uma forma terrena e imperfeita. Tu tens tantas pretensões.

Marianne: Pois tenho...

Johann: Mas assim na maior simplicidade, a meio de noite, numa casa às escuras algures no mundo, eu estou de facto aqui a abraçar-te, e tu estás de facto aqui nos meus braços. Não posso afirmar que sinto alguma especial compreensão ou solidariedade, provavelmente não tenho imaginação para isso.

Marianne: Sim, tens tão pouca imaginação.

Johann: Não sei como é o meu amor, não consigo descrevê-lo e quase nunca o sinto no dia-a-dia.

Marianne: E achas então que eu também te amo?

Johann: Sim, acho realmente. Mas não vamos falar nisso, ou o amor evapora-se.

Marianne: Vamos ficar aqui toda a noite.

Johann: Isso é que não vamos, de certeza.

Marianne: Não vamos?

Johann: Tenho uma perna dormente e o meu braço esquerdo já quase saltou da articulação. Estou a morrer de sono e tenho frio nas costas.

Marianne: Então é melhor deitamo-nos outra vez.

Johann: Sim, também acho.

Marianne: Boa noite, meu amor. E obrigada pela conversa.

Johann: Boa noite.

Marianne: Dorme bem.

Johann: Obrigado, tu também.

Marianne: Boa noite


Cenas da Vida Conjugal



À falta de "Sarabanda"* (e antes de "Na pele do Lobo" e dos outros que entraram pela minha casa dentro no natal), resolvi rever as "Cenas da Vida Conjugal" na sua versão mais longa. São seis episódios (de cinquenta minutos cada) realizados por Ingmar Bergman para a televisão em 1972: Inocência e pânico; A arte de fazer como a avestruz; Paula; O Vale de lágrimas; Os analfabetos; e No meio da noite numa casa às escuras algures no mundo.
Filmes sem música, com planos longos e angustiantes.
[Recomenda-se, principalmente aos casados, o visionamento com algum álcool à mistura. Pelo sim pelo não]

A história começa assim: Johann e Marianne estão casados há dez anos, parece tudo bem. Uma jornalista entrevista-os para uma revista feminina, eles transbordam de felicidade. Sentados no sofá verde, são a imagem perfeita de harmonia familiar. Claro que sofá, sorrisos e amabilidades implicam já muita representação e enganos, mas eles ainda não se dão conta.
A pouco e pouco a crise instala-se e o que parecia estável e eterno, estilhaça-se. Afinal a vida deles estava colada com mentiras e conveniências sociais. O casamento acaba definitivamente quando Johann anuncia que vai embora, que vai viver com uma outra mulher. As coisas que eles calaram, dizem-nas agora e são agressivas; a fronteira entre o amor e o ódio é demasiado pequena.
Segue-se o divórcio, um processo complicado que envolve negociações de dinheiros, confissões, acusações e insultos.
Passam mais dez anos, Johann e Marianne casam de novo, resignados, com outras pessoas. Uma noite encontraram-se por acaso num teatro, estão ambos sozinhos e reatam a relação, agora em modo extra-conjugal.
No último episódio escapam à família e refugiam-se durante um fim-de-semana numa casa às escuras algures no mundo. É Agosto mas no norte faz frio. Acendem a lareira, trocam confissões, vão para a cama. Marianne acorda com um pesadelo em que se vê, sem mãos, enterrando-se, mais e mais, num chão movediço sem conseguir alcançar nem Johann nem as fillhas. Ele reconforta-a.

Segue-se o último diálogo entre os dois, antes de "Sarabanda".


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* felizardos os lisboetas pois podem ver o filme na próxima quinta-feira, dia 13, no Cinema Millenium Alvaláxia

interlúdio musical (com árvores em fundo)

Quarta-feira, Janeiro 5

C. despede-se

(...) Tinha dez ou onze anos e estava a tentar adormecer a minha irmã embalando-a. Como havia muitas crianças na nossa família e sendo eu o segundo irmão mais velho, tinha frequentemente de adormecer os mais novos... Já tinha esgotado o meu repertório de canções. Tinha de cantar alto, pois para adormecermos tem de estar enevoado. Mas por que estava ela a demorar tanto tempo a adormecer? Fechei os meus olhos e tentei perceber qual era o problema. Por fim adivinhei a razão... Talvez fosse por causa de um zhuk? Então fui buscar uma toalha e coloquei-a sobre os seus olhos... e ela adormeceu.
(Registo de Setembro de 1934)

Um zhuk é uma parte amolgada do penico... É um bocado de pão de centeio... E quando à noite ligamos a luz, isso também é um zhuk, pois nem todo o quarto fica iluminado, apenas uma zona pequena, o resto permanece na obscuridade: um zhuk. As verrugas também são um zhuk.
Agora, vejo-os a sentarem-me frente ao espelho. Ouve-se barulho e pessoas a rirem-se. Os meus olhos escuros fitam-me a partir da minha imagem refletida, elas também são um zhuk... Estou deitado no berço... oiço um grito, barulho, ameaças. Depois, alguém está a ferver alguma coisa na chaleira de estanho. É a minha avó, a fazer café. Primeiro, deixa cair na chaleira uma coisa vermelha, depois retira-a: um zhuk. Um pedaço de carvão também é um zhuk... Vejo-os a acenderem as velas no Sabat. Uma está a arder no castiçal, mas uma parte da cera ainda não derreteu. O pavio estremece e a chama apaga-se. Fica tudo escuro. Tenho medo, começo a chorar; isto também é um zhuk... E quando as pessoas são desastradas a servir o chá e em vez de acertarem nas chávenas derramam-no para cima dos pratos, isso também é um zhuk.
(Registo de Setembro de 1934)


in O Caso do Homem que Memorizava Tudo, de A. R. Luria

C. apresenta-se

(...) Reconheço uma palavra não só pelas imagens que evoca, mas também por um conjunto complexo de sentimentos que desperta. É difícil de explicar... não se trata apenas de uma impressão visual ou auditiva, mas de uma sensação mais geral. Normalmente, sinto o sabor e o peso de uma palavra e não tenho de me esforçar para recordá-la — surge espontaneamente. Mas é difícil descrever este processo, é como se sentisse uma coisa gordurenta a escapar-me das mãos... ou apercebo-me de uma leve comichão na minha mão esquerda, causada por um grande número de pontos leves e pequenos. Quando isso acontece, simplesmente recordo-me, sem ter de fazer nenhum esforço...
(Registo de 22 de Maio de 1939)


Quando oiço a palavra verde, aparece um vaso verde; se escuto a palavra vermelho vejo um homem com uma camisa vermelha a aproximar-se na minha direcção; quanto à azul, surge uma imagem de alguém a acenar à janela com uma pequena bandeira azul (...). Até os números evocam imagens. O número 1, por exemplo, é um homem orgulhoso, bem constituído; o 2 é uma mulher cheia de vida; o 3, uma pessoa triste (porquê, não sei); o 6, um homem com um pé inchado; o 7 um homem de bigode; o 8 é uma mulher muito gorda; um saco dentro de outro saco. Quanto ao número 87, vejo uma mulher gorda e um homem a enrolar as pontas do bigode.
(Registo de Setembro de 1936)

Tinha nesse momento iniciado o meu percurso a partir da Praça Maiakovski quando me deram a palavra Kremlin, então tive de me pôr a caminho do Kremlin. Não há problema, posso atirar uma corda através da cidade para lá chegar... mas logo a seguir deram-me a palavra poesia e fui mais uma vez à Praça Púchkin. Se me tivessem dito índio, teria ido à América. Podia, é claro, atirar uma corda através do oceano, mas é tão cansativo viajar assim...
(Registo de Maio de 1935)


in O Caso do Homem que Memorizava Tudo, de A. R. Luria

Terça-feira, Janeiro 4

O outro C.


Fotografias de Daniel Blaufuks [mixed short stories]

Encontrei-o por acaso, numa visita, alguns dias antes das férias de Verão, à livraria da Assírio na Rua Miguel Bombarda. Levei-o comigo. Li-o no avião, li-o na praia, li-o em voz alta, sublinhei-o. Tornei-me amiga íntima de C.

“O Caso do Homem que Memorizava Tudo” foi editado em 1967 e transformou-se rapidamente num clássico da literatura na área das patologias da memória. Mas as qualidades do livro ultrapassam esse campo restrito. Como Jerome S. Bruner explica na Introdução à edição americana de 1987: [Luria] segue o espírito das obras de Kafka ou de Beckett, onde as personagens são simbolicamente privadas da capacidade de encontrar o sentido das coisas no mundo. À sua maneira, o paciente de Luria [apresentado pelo cientista como C.], analisado neste livro, ocupa o seu lugar ao lado de Joseph K., a personagem de “O Processo”, ou na galeria de almas perdidas criadas por Beckett nas suas histórias e peças de teatro.

Mais do que um caso patológico, C. é um caso poético*.

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* apresentação das provas em breve.

breve relato sobre um indivíduo invulgar

«Passei este Verão no campo, longe da cidade. Através das janelas abertas, ouvia o som das folhas a agitarem-se nas árvores e sentia o cheiro aromático da erva. Na minha secretária estavam pousados alguns apontamentos antigos, já amarelecidos, a partir dos quais elaborei este breve relato sobre um indivíduo invulgar: um rapaz judeu que, não sendo bem sucedido como músico ou jornalista, acabou por ganhar a vida a dar espectáculos onde memorizava, a pedido do público, listas de palavras, sequências de nomes e passagens e livros. Conheceu muitas pessoas proeminentes, mas sempre viveu à deriva, na esperança de encontrar algo de especial.»

A. R. Luria, Verão de 1965, no prefácio do seu livro “O Caso do Homem que Memorizava Tudo”,
edição da Relógio d'Água, Setembro de 2003

Segunda-feira, Janeiro 3

A Rosa, de Robert Walser


com fotografia de Nobuyoshi Araki

Continuando com Robert Walser e andando para trás, chegou a altura d’ A Rosa. O livro foi editado em 1925 (entre nós, apenas setenta e nove anos mais tarde, graças ao empenho de uma das minhas editoras preferidas, a Relógio d’Água) e agrupa pequenas histórias que nenhuma tentativa racional conseguiria resumir. Digamos que são passeios estranhos, digamos que os olhos de Walser vêm outras coisas, diferentes, belas, que nos escapam. É talvez neste registo, fragmentado e inconsequente, que Walser se revela mais espantoso, mas isso não o posso afirmar, é só uma suspeita, há ainda tantas páginas por traduzir. Na contracapa, Susan Sontag escreve que «[Robert Walser] é um escritor verdadeiramente magnífico que nos parte o coração.» A frase é de tal forma sucinta e justa que nem vale a pena acrescentar mais nada. Tudo, mas tudo mesmo, se concentra na sua magnificiência e na disponibilidade do nosso coração.

No natal, publiquei o delicioso “Torrãozinho de açúcar” (página 101) agora estava a pensar em “Parsifal escreve à sua amiga” (página 88) que surge citado no “Elogio do Amor” de Jean-Luc Godard e que nos mostra que o amor nunca é bem aquilo que nós julgamos que é… no entanto, o que me está a apetecer são umas batatinhas salteadas, por isso, assim seja, ei-las, servidas por Ibsen:

NORA, de IBSEN ou AS BATATAS SALTEADAS

Uma vez, um actor estreou-se no papel de Helmer. No quinto acto, depois de ler a famosa carta, sorriu, interpretou, pelos vistos, a situação como não tendo nada de trágico e exclamou num tom meloso: «Minha querida Nora, sabes uma coisa? Bem podias fazer-me, num instantinho, umas batatinhas salteadas.»
Que deixa tão estranha, que até fez suspender a respiração do público. Nora ficou apavorada. Como podia o seu marido despir assim, de repente, o seu pequeno manto de irresolução? Entre os espectadores notou-se alguma agitação. Aquele desejo tão prosaico, expresso num momento tão profundamente significativo, afigurou-se a toda a gente como muito singular, mas ninguém assobiou a cena. Falar de batatinhas salteadas numa altura em que se tratava de valores morais era assaz grave. Já não tinham qualquer cabimento todas as frases generosas a pronunciar por Nora. Com um ar negligente, como de um experimentado homem mundano, Helmer sentou-se na borda da mesa. Nora perguntou-lhe com voz hesitante se o que ele queria nesse momento era, realmente, comer umas batatas salteadas, e estava encantadora nessa sua perplexidade. «O que eu disse é a mais pura das verdades», retorquiu o seu interlocutor. O público do promenoir abanava a cabeça. Subitamente, o milagre operou-se em Nora; o público estava varado. Ela ficou contente por Helmer ter dito uma coisa tão inesperada. Os espectadores não o aplaudiram, realmente, mas deixaram-no fazer o que lhe apetecia.

Robert Walser, in A Rosa, tradução de Leopoldina Almeida, edição da Relógio d'Água, Janeiro de 2004

Domingo, Janeiro 2

Os rapazes do Instituto Benjamenta



Começo por falar de Jakob von Gunten, o romance de Robert Walser que a Relógio d'Água nos prometeu em 2004 e que, quero acreditar, já está em provas, ou, melhor ainda, já está em impressão na gráfica e um dia destes aparece aí, nas livrarias. Imagino até que há listas de espera, gente desesperada (eu, reconheço, estou um bocado). Não sei o que dizer de um livro que ainda não li, talvez... começar pelo princípio? É o mais indicado e é fácil, roubo-o ao Vila-Matas:

«Aqui aprende-se muito pouco, falta pessoal docente e nós, os rapazes do Instituto Benjamenta, jamais chegaremos a nada, quer dizer, que no dia de amanhã seremos todos gente muito modesta e subordinada.»

É um belo início e ao mesmo tempo, também, o contrário perfeito de auspicioso. Está na página cento e catorze de "O Mal de Montano" (Teorema). Agora só falta o resto. Meses? Semanas? Quantos dias?

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As fotografias são da primeira longa metragem dos irmãos Quay, Stephen e Timothy (mais pormenores nesta entrevista em uma e duas partes). Já agora, se não for pedir de mais, quem é que pode exibir o filme?

Sumário

[Gosto, nos blogues, da forma como os textos se encadeiam em dois movimentos contrários. Embora sejam escritos de baixo para cima são, na maior parte das vezes (pelo menos é o que eu faço) lidos de cima para baixo. Queria aproveitar esta estrutura tipo escadas rolantes mas ainda não sei bem para quê. ]

O parágrafo de cima é um aparte, o verdadeiro sumário começa aqui e sintetiza o que vão ser os posts das próximas semanas (uma, duas, ou três, se necessário e) se eu conseguir seguir um fio condutor.

Alínea um: folhear de novo os meus livros de 2004 (doze posts mais abaixo). Os prémios ou nos devolvem os objectos/pessoas premiados ou então não servem para nada.

Alínea dois: acompanhar um pequeno ciclo caseiro dedicado ao Ingmar Bergman.

Alínea três: abster-me de dispersões e derivações, seguir a monotonia das alíneas anteriores com prazer e dedicação.

Nota: talvez seja tempo para referir que na 3ª regra da casa se explica que, sem qualquer justificação, este blogue pode tornar-se muito chato e obsessivo.

p.s. aproveito para agradecer ao masson não só a distinção mas também a companhia que me rodeia no sexto degrau, sinto-me em família.