Segunda-feira, Janeiro 31
Um vislumbre

Não é fácil escrever sobre um filme tão magnífico como Saraband. Rigoroso nas imagens; belo nas cores, nos enquadramentos, na música; perfeito nos diálogos. Tão perfeito nos diálogos.
É um filme para quatro personagens, instrumentos, como lhes chama Bergman, e uma sombra, a sombra de Anna. Marianne e Johan vêm de trás. Apesar de Bergman dizer que Saraband não é uma sequela de "Cenas da Vida Conjugal", é certo, não é uma sequela mas as personagens são eles. Reconheço a ira de Johan, as suas incapacidades, a necessidade de ternura, ele está mais velho, as suas mãos tremem e tem medo da morte. E reconheço o optimismo e a paciência de Marianne, a enorme paciência de Marianne. São eles, quase sempre são eles. Acompanham-os Hendrik, filho de Johan; Karin, filha de Hendrik; e o retrato de Anna, mulher de Hendrik e mãe de Karin.
Os instrumentos entram dois a dois e falam do que sempre se fala em Bergman: o amor, o ódio e a morte. "Ninguém nos ensina a sentir", diz Johan num dos episódios de "Cenas da Vida Conjugal", "somos analfabetos dos sentimentos". É verdade, nada sabemos, entramos às apalpadelas, demasiado tarde percebemos como "é bom estar sentado de mãos dadas a olhar a paisagem".
De todos os personagens, só Anna conseguiu o milagre de amar desmesuradamente e digo milagre porque acho que o amor em Bergman é quase um milagre. O ódio não. A cena mais terrível do filme passa-se no escritório de Johan. Ele recusa qualquer diálogo com o filho Hendrik. Ele odeia o filho. O escritório está atulhado de livros, Johan tem as mãos sobre Kierkegaard e diz palavras intoleráveis.
A personagem mais luminosa de Saraband é Karin. É espantoso que Bergman, com 86 anos, tenha criado esta rapariga que tem o nome da mãe dele, que é a virgem que corre pela floresta e é muito mais, é também o próprio Bergman, ou melhor, é a sua última possibilidade. Karin liberta-se da família, diz não ao amor opressivo do pai, diz não às propostas mefistofélicas do avô e decide viver a sua própria vida. Não quero brilhar num palco sozinha, quero fazer parte de uma orquestra, de um grupo, diz ela, "quero uma vida simples".
Uma vida simples. É o que todos queremos, querida Karin, mas é tão difícil.
the sixties
Vou passar o dia a ouvir música dos anos sessenta, ou, como disse John Zorn This is beauty. This is truth. This is music that touches the heart in a way no other music ever has, or ever could. Bom, ele exagera um bocadinho mas o disco é divertido e encantador.
Informações e excertos aqui.
Informações e excertos aqui.
Domingo, Janeiro 30
Manifesto Eleitoral dos Desalinhados
...
Musil disse já, há mais de setenta anos, o que há a fazer. O que é o sentido de possibilidade? É "aquela capacidade de pensar tudo aquilo que também poderia ser e de não dar mais importância àquilo que é do que àquilo que não é". Imaginemos, então, imaginemos aquilo que não é, mas poderia e deveria ser. Imaginemos que o lote de qualidades que os realistas sem sentido do real nos querem vender por boas estão quase todas podres. E sejamos todos, pelo tempo que for preciso, até ver (se vem alguma mudança), homens e mulheres sem qualidades. Homens e mulheres do conjuntivo. Do sentido de possibilidade. Da vontade imaginante.
João Barrento, no Mil | Folhas
Musil disse já, há mais de setenta anos, o que há a fazer. O que é o sentido de possibilidade? É "aquela capacidade de pensar tudo aquilo que também poderia ser e de não dar mais importância àquilo que é do que àquilo que não é". Imaginemos, então, imaginemos aquilo que não é, mas poderia e deveria ser. Imaginemos que o lote de qualidades que os realistas sem sentido do real nos querem vender por boas estão quase todas podres. E sejamos todos, pelo tempo que for preciso, até ver (se vem alguma mudança), homens e mulheres sem qualidades. Homens e mulheres do conjuntivo. Do sentido de possibilidade. Da vontade imaginante.
João Barrento, no Mil | Folhas
Sábado, Janeiro 29
Sexta-feira, Janeiro 28
O frio em Auschwitz
A imagem mais forte que tenho na minha cabeça de Auschwitz não é uma imagem, quer dizer, não é objectivamente foto/cinematográfica no entanto não deixa de o ser. Digamos que é um filme imaginário que se projecta no meu corpo. E não é de Auschwitz, mas tudo é Auschwitz (em Sebald). Talvez por se manter um pouco abstracta, delimitada apenas por palavras, talvez por isso, ela é tão poderosa. Transporta-me para um sítio onde não se pode estar, mostra-me o que não se pode ver. Auschwitz não é apenas a crueldade, é, acima de tudo, a incapacidade de perceber e de explicar. O movimento lento e desfazado, o som irreal, está tudo aqui, nestas palavras que se reconstroem na nossa cabeça como um borrão preto. O único filme possível?
Do livro de W. B. Sebald, Austerlitz (Teorema, Setembro de 2004):

A impossibilidade de fixar melhor aquelas imagens que pareciam desaparecer mal surgiam, disse Austerlitz, acabou por me dar a ideia de mandar fazer uma cópia dos fragmentos de Theresienstadt [trata-se de um filme de propaganda nazi intitulado Der Führer schenkt den Juden eine Stadt (O Führer oferece uma cidade aos Judeus)] em câmara lenta com a duração de uma hora e efectivamente, neste documento quatro vezes mais longo que desde então não parei de rever, as coisas e as pessoas até então ocultas tornam-se visíveis. Agora tem-se a impressão de que os homens e mulheres trabalham nas oficinas como sonâmbulos, tal o tempo que precisavam para puxar para cima a agulha com a linha quando cosiam, tal o peso com que caíam as suas pálpebras, a lentidão com que moviam os lábios quando falavam para a câmara. Não caminhavam, pareciam flutuar, como se os pés não tocassem no chão. A forma dos corpos esbatia-se e, especialmente nas cenas de exterior, à luz clara do dia, perdia nitidez, como os contornos da mão humana nas fluografias e electrografias realizadas por Louis Draget em Paris, no fim do século XIX. Os muitos pontos danificados da película que antes quase não notara diluíam-se, mesmo no meio da imagem, manchavam-na, dando origem a zonas brancas com pintas pretas que me faziam lembrar vistas aéreas do extremo norte ou uma gota de água vista ao microscópio. Mas o mais perturbador, disse Austerlitz, era a transformação dos ruídos nesta versão em câmara lenta. Numa curta sequência do início que mostra o trabalho sobre o ferro ao rubro e a ferração de um boi de tiro na forja de um ferrador, a alegre polca de um qualquer compositor vienense de operetas que se ouve na banda sonora da cópia de Berlim torna-se uma marcha fúnebre que se arrasta de um modo quase grotesco e as outras peças musicais que acompanham o filme, de que somente consegui identificar o can-can de La Vie Parisienne e o scherzo de Sonho de uma Noite de Verão, de Mendelssohn, evoluem num mundo que poderia dizer-se subterrâneo, das profundezas tenebrosas, assim disse Austerlitz, onde nunca voz humana desceu. Não se compreende nada do comentário. Onde a cópia berlinense, numa voz enérgica, arrancada à laringe com violência, falava de grupos de intervenção e das centúrias que realizavam conforme as necessidades os mais diversos trabalhos e eventualmente recebiam formação de modo a que todos os que tivessem vontade de trabalhar ganhassem a possibilidade de se integrar sem dificuldades no processo de trabalho, nesse ponto, disse Austerlitz, tudo o que se percebia era um grunhido ameaçador como só uma vez ouvi, há muitos anos, num 1º de Maio invulgarmente quente, em Paris, no Jardin des Plantes, quando, após um acesso de indisposição, fiquei um tempo sentado junto de um aviário, não longe da jaula das feras invisíveis do sítio onde estava e, pensei eu então, disse Austerlitz, privados da razão por força do cativeiro, os leões e os tigres davam a ouvir os seus rugidos lamentosos horas a fio, sem descanso. Sim, e depois, prosseguiu Austerlitz, mais para o fim vem a sequência relativamente longa da primeira audição da peça musical de um compositor de Thereseinstadt, se não estou em erro trata-se do Estudo para Orquestra de Cordas, de Pavel Haas. Começamos por ver a sala desde a entrada, com as janelas todas abertas, e com muito público, que não está sentado em filas, conforme é costume nos concertos, mas a umas mesas para quatro, como num restaurante, em cadeiras de estilo alpino, provavelmente feitas para a ocasião na marcenaria do gueto, com um coração recortado no espaldar. Ao longo de todo o concerto, a câmara vai procurando grandes planos de diversas pessoas, entre elas um senhor de idade cuja cabeça, com o cabelo grisalho cortado curto, enche a metade direita da imagem enquanto do lado esquerdo, um pouco atrás e junto ao canto superior, surge o rosto de uma mulher jovem que mal se distingue das sombras que o rodeiam, pelo que não o tinha notado logo. Tem ao pescoço, disse Austerlitz, um colar de três voltas finas que pouco se destaca do vestido escuro subido, e no cabelo uma flor branca. Exactamente como nas frouxas recordações e outros raros indícios que hoje me restam, assim imagino a actriz Agáta [mãe de Austerlitz], pensei eu, e olho uma e outra vez aquele rosto para mim tão estranho quanto familiar, disse Austerlitz, rebobino o filme várias vezes e vejo no indicador horário no canto superior do ecrã os algarismos que cobrem uma parte do seu rosto, os minutos e os segundos, das 10:53 às 10:57, e as centésimas de segundo que correm tão depressa que não se podem fixar nem decifrar.
Do livro de W. B. Sebald, Austerlitz (Teorema, Setembro de 2004):

A impossibilidade de fixar melhor aquelas imagens que pareciam desaparecer mal surgiam, disse Austerlitz, acabou por me dar a ideia de mandar fazer uma cópia dos fragmentos de Theresienstadt [trata-se de um filme de propaganda nazi intitulado Der Führer schenkt den Juden eine Stadt (O Führer oferece uma cidade aos Judeus)] em câmara lenta com a duração de uma hora e efectivamente, neste documento quatro vezes mais longo que desde então não parei de rever, as coisas e as pessoas até então ocultas tornam-se visíveis. Agora tem-se a impressão de que os homens e mulheres trabalham nas oficinas como sonâmbulos, tal o tempo que precisavam para puxar para cima a agulha com a linha quando cosiam, tal o peso com que caíam as suas pálpebras, a lentidão com que moviam os lábios quando falavam para a câmara. Não caminhavam, pareciam flutuar, como se os pés não tocassem no chão. A forma dos corpos esbatia-se e, especialmente nas cenas de exterior, à luz clara do dia, perdia nitidez, como os contornos da mão humana nas fluografias e electrografias realizadas por Louis Draget em Paris, no fim do século XIX. Os muitos pontos danificados da película que antes quase não notara diluíam-se, mesmo no meio da imagem, manchavam-na, dando origem a zonas brancas com pintas pretas que me faziam lembrar vistas aéreas do extremo norte ou uma gota de água vista ao microscópio. Mas o mais perturbador, disse Austerlitz, era a transformação dos ruídos nesta versão em câmara lenta. Numa curta sequência do início que mostra o trabalho sobre o ferro ao rubro e a ferração de um boi de tiro na forja de um ferrador, a alegre polca de um qualquer compositor vienense de operetas que se ouve na banda sonora da cópia de Berlim torna-se uma marcha fúnebre que se arrasta de um modo quase grotesco e as outras peças musicais que acompanham o filme, de que somente consegui identificar o can-can de La Vie Parisienne e o scherzo de Sonho de uma Noite de Verão, de Mendelssohn, evoluem num mundo que poderia dizer-se subterrâneo, das profundezas tenebrosas, assim disse Austerlitz, onde nunca voz humana desceu. Não se compreende nada do comentário. Onde a cópia berlinense, numa voz enérgica, arrancada à laringe com violência, falava de grupos de intervenção e das centúrias que realizavam conforme as necessidades os mais diversos trabalhos e eventualmente recebiam formação de modo a que todos os que tivessem vontade de trabalhar ganhassem a possibilidade de se integrar sem dificuldades no processo de trabalho, nesse ponto, disse Austerlitz, tudo o que se percebia era um grunhido ameaçador como só uma vez ouvi, há muitos anos, num 1º de Maio invulgarmente quente, em Paris, no Jardin des Plantes, quando, após um acesso de indisposição, fiquei um tempo sentado junto de um aviário, não longe da jaula das feras invisíveis do sítio onde estava e, pensei eu então, disse Austerlitz, privados da razão por força do cativeiro, os leões e os tigres davam a ouvir os seus rugidos lamentosos horas a fio, sem descanso. Sim, e depois, prosseguiu Austerlitz, mais para o fim vem a sequência relativamente longa da primeira audição da peça musical de um compositor de Thereseinstadt, se não estou em erro trata-se do Estudo para Orquestra de Cordas, de Pavel Haas. Começamos por ver a sala desde a entrada, com as janelas todas abertas, e com muito público, que não está sentado em filas, conforme é costume nos concertos, mas a umas mesas para quatro, como num restaurante, em cadeiras de estilo alpino, provavelmente feitas para a ocasião na marcenaria do gueto, com um coração recortado no espaldar. Ao longo de todo o concerto, a câmara vai procurando grandes planos de diversas pessoas, entre elas um senhor de idade cuja cabeça, com o cabelo grisalho cortado curto, enche a metade direita da imagem enquanto do lado esquerdo, um pouco atrás e junto ao canto superior, surge o rosto de uma mulher jovem que mal se distingue das sombras que o rodeiam, pelo que não o tinha notado logo. Tem ao pescoço, disse Austerlitz, um colar de três voltas finas que pouco se destaca do vestido escuro subido, e no cabelo uma flor branca. Exactamente como nas frouxas recordações e outros raros indícios que hoje me restam, assim imagino a actriz Agáta [mãe de Austerlitz], pensei eu, e olho uma e outra vez aquele rosto para mim tão estranho quanto familiar, disse Austerlitz, rebobino o filme várias vezes e vejo no indicador horário no canto superior do ecrã os algarismos que cobrem uma parte do seu rosto, os minutos e os segundos, das 10:53 às 10:57, e as centésimas de segundo que correm tão depressa que não se podem fixar nem decifrar.
Hay algo entre la medicina y la santidad
Hay algo entre la medicina y la santidad que me interesa. Los cuerpos enfermos y los cuerpos sanos. Las lepras de Job, donde se esconden Dios y el Demonio. Los santos enfermos de santidad y sus milagros de sanación. Las llagas de los estigmas y la idea de pasión. El médico del alma. Los enfermos tan enfermos que parecen monstruos. Me gusta pensar en los monstruos. En la antigüedad la aparición de un monstruo, alguien físicamente contrahecho, era una señal divina. Un gran cataclismo se acerca, algo va a suceder, ha nacido un niño con cola de rana. El Monstruo, el que señala, el que devela los designios divinos. Los monstruos mutaron con el tiempo y aparecieron otros monstruos, los degenerados, las medidas arias, los asesinos seriales vestidos en cuero humano, ¿las ligas de cuero?, el petizo orejudo, los pobres en general, que amenazan con su monstruosas carencias. Desde Aristóteles, pasando por Plinio, los fisionomistas, el libro de Lavater (con prólogo de Goethe), los frenólogos, la antropología antropométrica, la antropometría forense, el alma y el cuerpo, tantas veces separados para ser santos, volvieron a reunirse en el mal.
Lucrecia Martel
Lucrecia Martel
LaNiñaSanta
[Do Equador à Argentina, ao som de um theremin: o site e o trailer.]
Gosto da forma como Lucrecia Martel filma, a forma como dá coesão a uma série de acções e diálogos fragmentados. A Rapariga Santa parece um mosaico, há muita gente em cena, quase sempre em salas pequenas ou muito cheias, os corpos tocam-se, as personagens esbarram nos enquadramentos. Sente-se que algo não bate certo mas não se sabe o que é (um mal estar que já vem d'O Pântano). E acaba assim mesmo, sem se saber, as conclusões ficam fora de campo.
O que é que acontece ao médico? O que é que acontece à miúda? Há uma pergunta mais importante: como é posssível tocar um instrumento que não se vê?
Quinta-feira, Janeiro 27
Um hábito muito meu
Um hábito muito meu. Eis as circunstâncias: é quando estou deitado e o sono não vem. Então cumulo-me. Dou-me a mim próprio em espírito tudo o que desejo obter. Partindo de factos pessoais sempre dentro da realidade e de uma linha plausível, aos poucos chego a fazer-me coroar rei de vários países, ou coisa no género. Este hábito é tão velho quanto a minha memória, e não fico muitos dias sem me dar esta satisfação. Por isso me levanto da cama com uma grande paz. Se acontece faltar-me o tempo para não ter sono, bato o dente o dia inteiro, o ar e as palavras alheias enregelam-me.
Henri Michaux, Equador
tradução de Ernesto Sampaio, Fenda Luminosa #5, 1998
Henri Michaux, Equador
tradução de Ernesto Sampaio, Fenda Luminosa #5, 1998
O Equador é recto e hirto

O Equador é recto e hirto.
Só às cinco ou às seis horas da manhã, estando o sol baixo no horizonte, há sombra, momento em que o Equador perde a sua dureza.
A escuridão deita-se nas ravinas como nos nossos sítios, a montanha suaviza a planície, os caminhantes arrastam atrás de si os seus bocados mais preguiçosos, até os vagões tomam uns ares amolecidos, afectados, distraídos: é a Sombra, a Sombra.
Mas isso depressa acaba. O sol toma altura, recompõe-se rapidamente, encarniça-se contra todas as sombras. E em breve só temos sombra debaixo dos pés. A justiçã implacável do Equador está de regresso.
Henri Michaux, Equador
tradução de Ernesto Sampaio, Fenda Luminosa #5, 1998
Grandes nuvens de quando em quando
Grandes nuvens de quando em quando.
Uma vasta ilha de sombra sobre o mar acompanha-as fielmente, e decerto também são fielmente seguidas por alguns peixes que gostam de sombra e de poucas profundidades. Mas o andamento é veloz e os peixes têm de dar o máximo com as barbatanas. Ficam rapidamente cansados. Alguns, fingindo achar a água fria de mais, depressa voltam para trás com um ar desprendido.
Henri Michaux, Equador
tradução de Ernesto Sampaio, Fenda Luminosa #5, 1998
Uma vasta ilha de sombra sobre o mar acompanha-as fielmente, e decerto também são fielmente seguidas por alguns peixes que gostam de sombra e de poucas profundidades. Mas o andamento é veloz e os peixes têm de dar o máximo com as barbatanas. Ficam rapidamente cansados. Alguns, fingindo achar a água fria de mais, depressa voltam para trás com um ar desprendido.
Henri Michaux, Equador
tradução de Ernesto Sampaio, Fenda Luminosa #5, 1998
Quarta-feira, Janeiro 26
strangers talk only about the weather #11
É difícil determinar o clima do Equador. Nos altos planaltos, as pessoas costumam dizer, e está certo: as quatro estações num dia.
De manhã, Verão.
Ao meio-dia, Primavera. O céu começa a ficar encoberto.
Às quatro da tarde, chuva. Fresco.
Noite de Inverno, fria e luminosa.
Assim, quando se anda por fora várias horas de seguida, o vestuário constitui uma real dificuldade.
Vêem-se desesperados sair de chapéu de palha, casaco de linho, peliça e guarda-chuva.
Henri Michaux, Equador
tradução de Ernesto Sampaio, Fenda Luminosa #5, 1998
De manhã, Verão.
Ao meio-dia, Primavera. O céu começa a ficar encoberto.
Às quatro da tarde, chuva. Fresco.
Noite de Inverno, fria e luminosa.
Assim, quando se anda por fora várias horas de seguida, o vestuário constitui uma real dificuldade.
Vêem-se desesperados sair de chapéu de palha, casaco de linho, peliça e guarda-chuva.
Henri Michaux, Equador
tradução de Ernesto Sampaio, Fenda Luminosa #5, 1998
Quarto número 247, por favor

Gostava que houvesse um hotel com os quartos debaixo de água. Quantos sussurros lá dentro! Barbatanas de madrepérola a espadanar no meio de algas sonhadoras.
Henri Michaux, "Equador", tradução de Ernesto Sampaio, Fenda Luminosa #5, 1998
Cavalos que praticassem magia...
Já não posso ouvir falar do frio polar, os exageros dos telejornais, as apoquentações da minha mãe, os conselhos dos vizinhos, não, acabou-se, decidi transferir o blogue para a nossa delegação no Equador. Levo o fato de banho, vou nadar com o Michaux.
Terça-feira, Janeiro 25
O meu plano? Apanhar os peixes.

[É preciso que os ruídos se tornem música.] Passou-me pela cabeça um plano estravagante. [Cinematógrafo: nova maneira de escrever, logo, de sentir.] Um plano clandestino, sem patrocínios. [Provocar o inesperado. Esperá-lo.] O primeiro passo seria empregar-me numa livraria e, sem ninguém dar conta, encomendar cem exemplares, ou duzentos, ou mais ainda, de Notas sobre o Cinematógrafo. [Nenhuma psicologia (dessa que não descobre senão o que ela pode explicar).] Depois espalhava-os pelas estantes. Na prateleira da gestão, nos livros infantis, na literatura séria (existe esta etiqueta?), na poesia (é aí que ele pertence), história, best-sellers, religião, manuais práticos, estudos sociais, na montra e até junto da máquina registadora, junto ao dinheiro, por todo o lado. Por todo o lado. [Comover não com imagens comoventes mas com relações entre imagens que as tornam ao mesmo tempo vivas e comoventes.] Recomendava o livro aos clientes fixos, aconselhava-o aos estudantes mais tímidos [De quem?: «um só olhar desencadeia uma paixão, um assassínio, uma guerra.»], aos pintores (Bresson era pintor), aos poetas sem inspiração (Bresson era poeta) [Não corras atrás da poesia. Ela introduz-se por si mesma através das articulações (elipses).], aos viciados em cinema (Bresson é o cinema) deixava que o roubassem descaradamente. [Não uma bela fotografia, não belas imagens, mas imagens e fotografias necessárias.] Depois despedia-me ou era despedida, ainda não decidi o desfecho, e dedicava-me a outro assunto. [«Quando não sabes o que fazes» e que o que fazes é o melhor, é isso a inspiração.] Por exemplo (segunda fase da contaminação), arranjava um emprego numa gráfica e, sem ninguém dar conta, imprimia grandes outdoors com as pequenas e maravilhosas fases de Bresson [Traduzir o vento invisível pela água que ele esculpe ao passar.] À noite colava-os por cima dos cartazes políticos, em certos muros, em becos sem saída. [Esvaziar o tanque para apanhar os peixes.] Apanhar os peixes.
Notas sobre o Cinematógrafo, de Robert Bresson
tradução e prefácio de Pedro Mexia, com uma Nota Breve sobre Bresson por Carlos M. Couto S. C.
Elementos Sudoeste, Porto Editora
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os itálicos são de Robert Bresson, as mãos são de Mouchette
Segunda-feira, Janeiro 24
série b
Já começou, os aviões entraram nos meus sonhos. Em vez das ondas enormes, os aviões. Aconteceu hoje, pouco antes de me levantar. Estou em casa do João, conheço o João mas não conheço a casa dele, esta é inventada. Devia estar lá mais gente mas não, ainda não chegaram, só a pequena Inês que é mesmo filha do João e está a fazer torradas no quintal das traseiras. Ela deixa queimar o pão. Carcaças cortadas a meio, esturricadas em cima de uma fogueira. São repugnantes. Explico-lhe (já não me lembro das palavras, aliás, parece-me que expliquei sem palavras, não sei como) que não é assim que se fazem torradas, levo-a pela mão para a cozinha. Entretanto, pela janela das traseiras, uma janela enorme, vejo, a uma certa distância, uma linha de arranha-céus iluminados, no sonho sei que é Matosinhos, na realidade não poderia ser. Os prédios estão iluminados porque lá é noite apesar de aqui, onde eu estou, na cozinha, desconfio que é apenas manhã. De repente um avião atravessa um dos prédios e eu vejo, vejo o avião a passar e nem grito nem corro nem choro, nada, não sei se aquilo se passa ali, a uma distância segura (como se fosse um écran) ou à minha beira. Não penso mais nada, não me mexo por isso devo estar já morta e acordo, porque nos sonhos o herói é o realizador e nunca morre.
Os enredos dos sonhos não me entusiasmam (Hitchcook já em tempos descobriu as suas fraquezas) mas gosto das montagens inesperadas, é uma espécie de cinema particular, sem toque de génio mas atraente, bastante sinistro e de baixo orçamento.
Os enredos dos sonhos não me entusiasmam (Hitchcook já em tempos descobriu as suas fraquezas) mas gosto das montagens inesperadas, é uma espécie de cinema particular, sem toque de génio mas atraente, bastante sinistro e de baixo orçamento.
Asa nisi masa

Ontem, ao fim da tarde, a pequena sala do Campo Alegre, na Rua das Estrelas, estava cheia.
à beira de um fogo
No sábado acordei cedo, levantei-me e fui a Serralves despedir-me da Paula Rego. Às dez horas as salas ainda não estavam cheias nem barulhentas. Comecei pelos esboços, depois as histórias e as telas. Voltei a gostar mais do que já tinha gostado mais. Para além disso, reparei em alguns pormenores: o modo como Paula Rego pinta os tecidos é assombroso, parecem metalizados, emitem uma luz que me agrada muito; também a sua capacidade narrativa e a construção de alguns quadros em diversas camadas, a surpresa de descobrir o que se passa lá trás (como naquela grande tela de O Mar dos Sargaços).
Numa das séries, a do Capuchino Vermelho, gosto de um dos quadros que, se não me engano, se chama "O lobo engata a capuchinho vermelho". O modo como presa e predador se encaram, o modo como arrumam os braços e as mãos, as pernas e os pés, o lobo tão dócil, puro engano, e a Capuchinho tão intrigante.
Outra das minhas telas favoritas é a Capoeira, gosto daquelas mulheres volumosas vestidas com folhos, uma espécie de anjos terrenos, rudes.
Mas de toda a exposição, é o quarto painel da sequência Possessão, o do meio, que mais me fascina. As cores e a luz de novo, como se estivessemos à beira de um fogo.
Numa das séries, a do Capuchino Vermelho, gosto de um dos quadros que, se não me engano, se chama "O lobo engata a capuchinho vermelho". O modo como presa e predador se encaram, o modo como arrumam os braços e as mãos, as pernas e os pés, o lobo tão dócil, puro engano, e a Capuchinho tão intrigante.
Outra das minhas telas favoritas é a Capoeira, gosto daquelas mulheres volumosas vestidas com folhos, uma espécie de anjos terrenos, rudes.
Mas de toda a exposição, é o quarto painel da sequência Possessão, o do meio, que mais me fascina. As cores e a luz de novo, como se estivessemos à beira de um fogo.
Domingo, Janeiro 23
Fugi com John Cassavetes
O céu é de um rosa-pálido muito belo e o ar está frio no momento em que te escrevo estas linhas para te dizer que fugi esta tarde com John Cassavetes, fui com ele para Los Angeles. Adeus, querido, adeus. Que tudo te corra pelo melhor.
Recado de Rosa para Montano, n' O Mal de Montano de Enrique Vila-Matas
Recado de Rosa para Montano, n' O Mal de Montano de Enrique Vila-Matas
Sábado, Janeiro 22
um triplo mortal (e já é sábado)
afinal não é difícil, basta encontrar o desenhador certo: Lorenzo Mattotti
Sexta-feira, Janeiro 21
T. S. Eliot
Depois de Eugenio Montale, o meu outro livro de poesia de 2004 * foi "Quatro Quartetos" de T. S. Eliot, com tradução e introdução de Gualter Cunha e editado pela Relógio d'Água. Pensando melhor deveria ter escolhido mais. Esqueci-me de Philip Larkin, de Manuel António Pina, mas ficamos assim: Montale e Eliot. Há uma certa coerência nesta dupla no entanto, se nada disse sobre Eugenio Montale, que poderei dizer sobre Eliot? A seco, o autor, o grande T. S. Eliot, de Burnt Norton:
I
O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que poderia ter sido é uma abstracção
Que fica uma possibilidade perpétua
Somente num mundo de especulação.
O que poderia ter sido e o que foi
Apontam para um só fim, sempre presente.
Sons de passos ecoam na memória,
Descem o caminho que nós não seguimos
Em direcção à porta por nós nunca aberta
Para o jardim de rosas. As minhas palavras ecoam
Assim, no teu espírito.
Mas com que propósito
Perturbam o pó numa taça de folhas de rosa
Não sei.
Outros ecos
Habitam o jardim. Vamos seguir?
Depressa, disse o pássaro, procurai-os, procurai-os,
Ao voltar da esquina. Pelo primeiro portão,
Para dentro do nosso primeiro mundo, vamos seguir
O ludíbrio do tordo? Para dentro do nosso primeiro mundo.
Ali estavam, graves, invisíveis,
Moviam-se sem pressa, sobre as folhas mortas,
No calor do Outono, pelo ar vibrante,
E o pássaro chamou, em resposta
À inaudível música oculta nos arbustos,
E o invisível relance perpassou, pois as rosas
Tinham o ar de flores que são olhadas.
Ali estavam como convidadas nossas, acolhidas e acolhedoras.
Assim nós e elas avançámos, num padrão formal,
Pela alameda vazia, até ao círculo de buxo,
Para olhar para dentro do lago esvaziado.
O lago seco, o cimento seco, de bordos castanhos,
E o lago encheu-se com água feita da luz do Sol,
E o lótus subiu, devagar, devagar,
A superfície cintilou do coração da luz,
E ficaram por detrás de nós, reflexos no lago.
Passou então uma nuvem, e o lago ficou vazio.
Ide, disse o pássaro, pois as folhas estavam cheias de crianças,
Em excitação escondidas, a refrear o riso.
Ide, ide, ide, disse o pássaro: a espécie humana
Não pode suportar muita realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que poderia ter sido e o que foi
Apontam para um fim, sempre presente.
[...]
I
O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que poderia ter sido é uma abstracção
Que fica uma possibilidade perpétua
Somente num mundo de especulação.
O que poderia ter sido e o que foi
Apontam para um só fim, sempre presente.
Sons de passos ecoam na memória,
Descem o caminho que nós não seguimos
Em direcção à porta por nós nunca aberta
Para o jardim de rosas. As minhas palavras ecoam
Assim, no teu espírito.
Mas com que propósito
Perturbam o pó numa taça de folhas de rosa
Não sei.
Outros ecos
Habitam o jardim. Vamos seguir?
Depressa, disse o pássaro, procurai-os, procurai-os,
Ao voltar da esquina. Pelo primeiro portão,
Para dentro do nosso primeiro mundo, vamos seguir
O ludíbrio do tordo? Para dentro do nosso primeiro mundo.
Ali estavam, graves, invisíveis,
Moviam-se sem pressa, sobre as folhas mortas,
No calor do Outono, pelo ar vibrante,
E o pássaro chamou, em resposta
À inaudível música oculta nos arbustos,
E o invisível relance perpassou, pois as rosas
Tinham o ar de flores que são olhadas.
Ali estavam como convidadas nossas, acolhidas e acolhedoras.
Assim nós e elas avançámos, num padrão formal,
Pela alameda vazia, até ao círculo de buxo,
Para olhar para dentro do lago esvaziado.
O lago seco, o cimento seco, de bordos castanhos,
E o lago encheu-se com água feita da luz do Sol,
E o lótus subiu, devagar, devagar,
A superfície cintilou do coração da luz,
E ficaram por detrás de nós, reflexos no lago.
Passou então uma nuvem, e o lago ficou vazio.
Ide, disse o pássaro, pois as folhas estavam cheias de crianças,
Em excitação escondidas, a refrear o riso.
Ide, ide, ide, disse o pássaro: a espécie humana
Não pode suportar muita realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que poderia ter sido e o que foi
Apontam para um fim, sempre presente.
[...]
Programa para um fim-de-semana perfeito
adiar a Saraband de Bergman para o próximo sábado, desligar a televisão, esquecer os dvd's, ir ao cinema: amanhã à noite "Belarmino" de Fernando Lopes, no pequeno auditório do Rivoli; sessões (mais ou menos) regulares de "A Rapariga Santa" de Lucrecia Martel, no Bom Sucesso; e "Oito e meio" de Federico Fellini, ao fim da tarde ou à noite, no Campo Alegre.
Quinta-feira, Janeiro 20
memória descritiva
#1
Este blogue esteve para se chamar Stalker. "Stalker" é o meu filme. E é por isso que este blogue não se chama Stalker, por gostar tanto dele.
#2
Este blogue esteve para se chamar Rua de Sentido Único. Uma homenagem a Walter Benjamim. Tive vergonha e um certo medo de me colar a ele. Afastei-me mas não o esqueço.
#3
A evidência: este blogue acabou por se chamar Last Tapes. Krapp é um velho que remexe nas suas fitas gravadas, remexe no passado. Não procura nada (creio que as personagens de Beckett nunca procuram nada nem ninguém). Não quer dizer que não encontre. Tanto faz.
Anexo:
Este é o caderno de Tarkovski, é assim que se escreve Stalker em russo:
Este blogue esteve para se chamar Stalker. "Stalker" é o meu filme. E é por isso que este blogue não se chama Stalker, por gostar tanto dele.
#2
Este blogue esteve para se chamar Rua de Sentido Único. Uma homenagem a Walter Benjamim. Tive vergonha e um certo medo de me colar a ele. Afastei-me mas não o esqueço.
#3
A evidência: este blogue acabou por se chamar Last Tapes. Krapp é um velho que remexe nas suas fitas gravadas, remexe no passado. Não procura nada (creio que as personagens de Beckett nunca procuram nada nem ninguém). Não quer dizer que não encontre. Tanto faz.
Anexo:
Este é o caderno de Tarkovski, é assim que se escreve Stalker em russo:
O rosto de Karin

Há uns anos atrás fiz um documentário curto sobre o rosto da minha mãe. Para isso usei a minha máquina de oito milímetros, provida de uma objectiva especial. Como eu, por ocasião do falecimento do meu pai, tinha roubado todos os álbuns que havia em casa com fotografias da família, o material à minha disposição era em quantidade suficiente. O filme é portanto sobre o rosto da minha mãe e intitula-se "O Rosto de Karin". Começa com uma fotografia de quando ela tinha três anos, e termina com uma fotografia para o passaporte, tirada uns meses antes de ter sofrido o último enfarte.
[...]
das últimas páginas de "Lanterna Mágica", de Ingmar Bergman
Editora Caravela, 1988
Quarta-feira, Janeiro 19
Lágrimas e suspiros

Todos os meus filmes podiam ser filmados a preto e branco, menos "Lágrimas e suspiros". No roteiro está mencionado que imagino a cor vemelha como sendo o interior da alma. Quando era criança, via a alma como se fosse a sombra de um dragão, de um cinzento-azulado, pairando sobre nós sob a forma de um ser alado, meio ave meio peixe. Mas tudo dentro desse dragão era vermelho.
A primeira cena surgia em minha mente o tempo todo: um quarto com papel de parede vermelho e mulheres vestidas de branco. Acontece que certas imagens voltam teimosamente ao meu cérebro sem que eu perceba a intenção delas. Depois desaparecem, para voltarem mais uma vez idênticas às anteriores.

Repetidas vezes eu rechaçara esta visão, recusando-me a usá-la como ponto de partida para um filme ou para o que quer que fosse. Mas ela foi teimosa e, contra minha vontade, identifiquei-a; trata-se de três mulheres que esperam o falecimento da quarta. E velam por turnos.
Creio que o filme – ou o que quer que isso seja – se compõe deste poema: Um ser humano deixa esta vida, mas, como num pesadelo, detém-se a meio caminho, pedindo aos que ficam ternura, reconciliação, libertação. Pedindo tudo, tudo. Estão mais duas pessoas presentes, e tanto as acções como os pensamentos delas estão em relação com a morte, a moribunda. A terceira pessoa presente vai redimir a doente, incutindo-lhe paz, acompanhando-a na fase final.

Ingmar Bergman, "Imagens"
Terça-feira, Janeiro 18
exercício número um
em vez do hino --> Esta entrevista
[...]
Paulo Moura: O que há de errado com a auto-estima?
José Gil: Essa ideia reflexiva, de nos amarmos a nós próprios... Em vez de estarmos virados para fora, para os outros, para o mundo. Só nos podemos afirmar agindo, exprimindo-nos - não voltando-nos para a autocomplacência. Tudo o que é válido vem "de fora". Nós ainda temos essa ideia de que é preciso começar por uma transformação interior... Mas, em Portugal, não existe um "fora".
[...]
[...]
Paulo Moura: O que há de errado com a auto-estima?
José Gil: Essa ideia reflexiva, de nos amarmos a nós próprios... Em vez de estarmos virados para fora, para os outros, para o mundo. Só nos podemos afirmar agindo, exprimindo-nos - não voltando-nos para a autocomplacência. Tudo o que é válido vem "de fora". Nós ainda temos essa ideia de que é preciso começar por uma transformação interior... Mas, em Portugal, não existe um "fora".
[...]
Isto é um bocadinho estúpido
Miguel Gonçalves Mendes: A pergunta era: porquê a necessidade do outro?
Mário Cesariny: Eu sei lá, pergunta ao Jeová.
Não fui eu que criei essa necessidade.
Eu acho que em muitos casos, o outro é o nosso espelho, sem esse espelho, nós não nos vemos. Não existimos. É claro que podes dizer que isto é um bocado abusivo, que eu no espelho não me vejo senão a mim, mas não é isso. Eu no espelho ou vejo os dois ou vejo o outro, através de mim. E os seres habituais têm necessidade desse encontro, que não é um espelho mudo, etc.
Não é o Narciso, que esse quer ver-se a si próprio, não! É o que olha para a água e olha para o espelho e vê o outro, ou a outra, com quem pode conversar, viver.
Isto é um bocadinho estúpido também, mas é da sabedoria antiga. (ri)
verso de autografia / Mário Cesariny (à conversa com Miguel Gonçalves Mendes, para além do filme) / Assírio & Alvim
Mário Cesariny: Eu sei lá, pergunta ao Jeová.
Não fui eu que criei essa necessidade.
Eu acho que em muitos casos, o outro é o nosso espelho, sem esse espelho, nós não nos vemos. Não existimos. É claro que podes dizer que isto é um bocado abusivo, que eu no espelho não me vejo senão a mim, mas não é isso. Eu no espelho ou vejo os dois ou vejo o outro, através de mim. E os seres habituais têm necessidade desse encontro, que não é um espelho mudo, etc.
Não é o Narciso, que esse quer ver-se a si próprio, não! É o que olha para a água e olha para o espelho e vê o outro, ou a outra, com quem pode conversar, viver.
Isto é um bocadinho estúpido também, mas é da sabedoria antiga. (ri)
verso de autografia / Mário Cesariny (à conversa com Miguel Gonçalves Mendes, para além do filme) / Assírio & Alvim
Segunda-feira, Janeiro 17
strangers talk only about the weather #10
O frio regressou. O céu está de novo azul, quase sem nuvens.
Este inverno o Porto tornou-se uma cidade luminosa:
Este inverno o Porto tornou-se uma cidade luminosa:
Mestre? Sim, ele é um Mestre


Ontem à noite apanhei, inesperadamente, na rtp memória, a célebre entrevista feita a Almada Negreiros no programa Zip Zip em 1969. As respostas dele são todas antológicas: curtas e muito inteligentes.
Por exemplo, quando Carlos Cruz lhe pergunta:
– Qual é a importância do fenómeno comunicação na sua carreira? Em que é que a comunicação, o fenómeno da comunicação, terá influenciado a carreira de Almada Negreiros?
Responde Almada Negreiros:
– Tenho setenta e seis anos de idade e desde que me conheço nunca pisei o risco fora daquilo que não fosse comunicação.
_________
as imagens foram retiradas do arquivo da rtp, assim como este excerto da entrevista
Ver mais, ouvir mais e sentir mais*
Ao fim de cinco anos irrepreensíveis, o meu magnífico imac pifou. Qualquer coisa no sistema eléctrico falhou, deixando-o completamente morto. Mais do que o carro, o telemóvel ou a televisão, é este pequeno computador que funciona como a extensão do meu corpo. Os meus olhos, os meus ouvidos, a minha boca, o meu cérebro, a minha pele. De repente fiquei mais pequena e tudo à minha volta mais silencioso.
A partir de agora e durante algum tempo os posts serão publicados, muitas vezes, em diferido.
_________
* disse (não sei quando nem onde) Karl-Heinz Stockhausen
A partir de agora e durante algum tempo os posts serão publicados, muitas vezes, em diferido.
_________
* disse (não sei quando nem onde) Karl-Heinz Stockhausen
Domingo, Janeiro 16
ainda Montale
Talvez certa manhã andando por um ar de vidro,
árido, voltando-me, veja acontecer assombrado:
o nada por cima dos meus ombros, e atrás de mim
o vazio, com um terror de embriagado.
Depois, como sobre um écran postar-se-ão lado a lado
árvores casas colinas para o costumado credo.
Mas será tarde demais; e eu escapar-me-ei calado
por entre os homens que não olham para trás, com o meu segredo
Eugenio Montale, "Poesia", selecção, tradução, prefácio e notas de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim
árido, voltando-me, veja acontecer assombrado:
o nada por cima dos meus ombros, e atrás de mim
o vazio, com um terror de embriagado.
Depois, como sobre um écran postar-se-ão lado a lado
árvores casas colinas para o costumado credo.
Mas será tarde demais; e eu escapar-me-ei calado
por entre os homens que não olham para trás, com o meu segredo
Eugenio Montale, "Poesia", selecção, tradução, prefácio e notas de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim
O que é que eu posso dizer sobre a “Poesia” de Montale?
È vero che non può darsi grande poesia senza grandi anime.
Foi um dos meus livros de 2004. Uma antologia soberba. Um feito editorial. O que é que eu posso dizer sobre Eugenio Montale? Que me faz estremecer? Que os seus poemas quase nos permitem descobrir o ponto morto do mundo, o fio do novelo? Ou mais ainda? Não, não posso dizer nada que valha a pena. Os poemas sim, dizem. Escuta,
OS LIMÕES
Escuta, os poetas laureados
movem-se apenas entre plantas
com nomes pouco comuns: buxos, ligustros ou acantos.
Por mim, prefiro os caminhos que vão dar às fossas
cobertas de ervas onde em lameiros
meio secos os miúdos apanham
alguma enguia definhada:
as veredas que bordejam as ravinas,
descem por entre os tufos dos canaviais
e entram pelas hortas, por entre os limoeiros.
É melhor ainda quando a algazarra dos pássaros
se cala engolida pelo azul do céu:
mais claro se ouve o sussurro
dos ramos amigos no ar que quase não se move,
e as impressões deste cheiro
que não consegue separar-se da terra
e faz chover no peito uma doçura inquieta.
Aqui das divertidas paixões
por milagre cala-se a guerra,
aqui também nós os pobres temos a nossa parte de riqueza
que é o cheiro dos limões.
Olha, neste silêncios em que as coisas
se abandonam e parecem perto
de trair o seu último segredo,
esperamos por vezes
descobrir um erro da Natureza,
o ponto morto do mundo, o elo que não liga,
o fio do novelo que finalmente nos leva
ao centro de uma verdade.
O olhar procura derredor,
a mente indaga harmoniza separa
no perfume que se espalha
quando o dia mais enfraquece.
São os silêncios nos quais se vê
em cada sombra humana que se afasta
alguma perturbada Divindade.
Mas a ilusão perde-se e o tempo transporta-nos
até ruidosas cidades onde o azul se mostra
apenas em pedaços, no alto, entre os telhados.
Então a chuva cansa a terra: concentra-se
o tédio do inverno sobre as casas,
a luz torna-se avara – a alma amara.
Quando um dia, de um portão entreaberto
por entre as árvores de um pátio
se nos depara o amarelo dos limões;
e o gelo do coração se desfaz,
e ao peito afluem
as suas canções
as trombetas de ouro da solaridade.
Eugenio Montale, "Poesia", selecção, tradução, prefácio e notas de José Manuel de Vasconcelos,
edição memorável da Assírio & Alvim, Junho de 2004
Foi um dos meus livros de 2004. Uma antologia soberba. Um feito editorial. O que é que eu posso dizer sobre Eugenio Montale? Que me faz estremecer? Que os seus poemas quase nos permitem descobrir o ponto morto do mundo, o fio do novelo? Ou mais ainda? Não, não posso dizer nada que valha a pena. Os poemas sim, dizem. Escuta,
OS LIMÕES
Escuta, os poetas laureados
movem-se apenas entre plantas
com nomes pouco comuns: buxos, ligustros ou acantos.
Por mim, prefiro os caminhos que vão dar às fossas
cobertas de ervas onde em lameiros
meio secos os miúdos apanham
alguma enguia definhada:
as veredas que bordejam as ravinas,
descem por entre os tufos dos canaviais
e entram pelas hortas, por entre os limoeiros.
É melhor ainda quando a algazarra dos pássaros
se cala engolida pelo azul do céu:
mais claro se ouve o sussurro
dos ramos amigos no ar que quase não se move,
e as impressões deste cheiro
que não consegue separar-se da terra
e faz chover no peito uma doçura inquieta.
Aqui das divertidas paixões
por milagre cala-se a guerra,
aqui também nós os pobres temos a nossa parte de riqueza
que é o cheiro dos limões.
Olha, neste silêncios em que as coisas
se abandonam e parecem perto
de trair o seu último segredo,
esperamos por vezes
descobrir um erro da Natureza,
o ponto morto do mundo, o elo que não liga,
o fio do novelo que finalmente nos leva
ao centro de uma verdade.
O olhar procura derredor,
a mente indaga harmoniza separa
no perfume que se espalha
quando o dia mais enfraquece.
São os silêncios nos quais se vê
em cada sombra humana que se afasta
alguma perturbada Divindade.
Mas a ilusão perde-se e o tempo transporta-nos
até ruidosas cidades onde o azul se mostra
apenas em pedaços, no alto, entre os telhados.
Então a chuva cansa a terra: concentra-se
o tédio do inverno sobre as casas,
a luz torna-se avara – a alma amara.
Quando um dia, de um portão entreaberto
por entre as árvores de um pátio
se nos depara o amarelo dos limões;
e o gelo do coração se desfaz,
e ao peito afluem
as suas canções
as trombetas de ouro da solaridade.
Eugenio Montale, "Poesia", selecção, tradução, prefácio e notas de José Manuel de Vasconcelos,
edição memorável da Assírio & Alvim, Junho de 2004
Sábado, Janeiro 15
Meet me at Café Lehmitz

[...]
Café Lehmitz was located near the Reeperbahn in Hamburg, Germany. Open for most of 24 hours, it was frequented by sailors and stokers from all corners of the world. By merchants, dockers and cabdrivers. By prostitutes, striptease dancers and pimps. By poets, small time criminals and other night-revellers. One thing they had in common: they were given the cold shoulder by 'respectable society'.
Swedish photographer Anders Petersen came across the place at the end of the Sixties and for nearly three years would spend most of his days and nights near the tables, benches and dance floor where life was lived to the full.
His debut book Café Lehmitz - as dark, wild and rugged as the place itself - was published in 1978. It instantly made his name as a passionated chronicler of unruly daily life. The cover-image of the book would in 1985 be used by Tom Waits for his LP Rain Dogs.
Anders Petersen @ Noorderlicht Photogallery
Sexta-feira, Janeiro 14
por vezes nota-se Robert Walser no mundo
Na hospedaria à beira da cidade apareceram três jovens raparigas: uma anã, uma muito gorda, grande e uma bonita, muito frágil. As três fumavam. A anã e a gorda falavam muito alto, cumprimentavam em volta e riam. A bonita era tímida (por vezes nota-se Robert Walser no mundo e é de ir buscá-lo novamente).
Peter Handke, "De manhã à janela do rochedo" (e outras horas locais 1982-1987)", página 78,
in Novíssimas Histórias com Tempo e Lugar (Prosa de Autores Austríacos 1970-2000)
Peter Handke, "De manhã à janela do rochedo" (e outras horas locais 1982-1987)", página 78,
in Novíssimas Histórias com Tempo e Lugar (Prosa de Autores Austríacos 1970-2000)
Quinta-feira, Janeiro 13
Pocket Theatre
Fingers in an overcoat pocket. Fingers sticking out of a black leather glove. The nails chewed raw. One play is called "Thieves' Market," another "Night in a Dime Museum." The fingers when they strip are like bewitching nude bathers or the fake wooden limbs in a cripple factory. No one ever sees the play: you put your hand in somebody else's pocket on the street and feel the action.
Charles Simic
Charles Simic
Actividades lúdicas
Depois da prestidigitação e antes de ensaiar um triplo mortal, vou tentar um golpe diferente. Desta vez, para fazer o jeito ao Alexandre, sem palavras. Um golpe de mãos. Apenas de mãos. E alguma moral, vá lá. Um, dois, três:
Quarta-feira, Janeiro 12
it’s a song about the weather
O Pedro definiu-o deste modo: não será bem uma rádio mas um sítio onde emitimos o que nos é oferecido pelas editoras e sites oficiais de artistas.
A mim parece-me uma jukebox, uma jukebox muito gira. Fui convidada para me juntar ao grupo, lembrei-me logo do velho Tom Waits (jukebox, Tom Waits, bastante café, alguns cigarros, Jarmusch , e por aí fora).
Strange weather, all kinds of weather, aqui ao lado
A mim parece-me uma jukebox, uma jukebox muito gira. Fui convidada para me juntar ao grupo, lembrei-me logo do velho Tom Waits (jukebox, Tom Waits, bastante café, alguns cigarros, Jarmusch , e por aí fora).
Strange weather, all kinds of weather, aqui ao lado
Prestidigitação para um regresso
Podia pegar no livro por tantos lados diferentes. Escolhi uma perspectiva muito pessoal e limitada, uma espécie de truque de magia mas, antes de mais, importa ressalvar que "Contra a Interpretação" demorou trinta anos anos a ser publicado no nosso país (parabéns à Gótica).
Ainda um pormenor e uma motivação: [1] gosto da tradução de José Lima (e não é só desta) e [2] volto muitas vezes a alguns dos textos de Susan Sontag, por exemplo às paginas dedicadas a Robert Bresson ou a Jean-Luc Godard.
[E agora é que é:] avanço em direcção a "Vivre sa Vie" com um propósito: se o Alexandre desapareceu e deixou a pobre Nana, presa num fotograma com uma pergunta tão difícil, então eu tomo de empréstimo a pele do velho filósofo Brice Parain e, com a ajuda de um café, um cigarro e da própria Susan Sontag, vou ensaiar a resposta que liberte a rapariga.
Nana: Como é que podemos ter a certeza de ter encontrado a palavra certa?
Susan Sontag: [ponto 13 do artigo sobre Vivre sa Vie em "Contra a Interpretação", pp. 236-237] O texto mais elaborado, intelectualmente, de todo o filme é a conversa no Quadro XI entre Nana e um filósofo (desempenhado pelo filósofo Brice Parain) num café. Discutem a natureza da linguagem. Nana pergunta por que não se pode viver sem palavras; Parain explica que é porque falar equivale a pensar, e pensar a falar, e sem pensamento não há vida. Não se trata de uma questão de falar ou de não falar, mas de falar bem. Falar bem exige uma disciplina ascética (uma ascese), um distanciamento. Tem de se compreender, desde logo, que não se pode chegar directamente à verdade. É necessário errar.
No início da conversa, Parain conta a história de Porthos de Dumas, o homem de acção, cujo primeiro pensamento o matou. (Correndo para se afastar de uma carga de dinamite que tinha colocado, Porthos subitamente perguntou-se como era possível caminhar, como é que se punha sempre um pé a seguir ao outro. Parou. A dinamite explodiu. E ele morreu.) Em certo sentido, também esta história, tal como a história da galinha, é sobre Nana. E através desta história e do conto de Poe* que é contada no quadro seguinte (e último), somos preparados – formalmente, não substancialmente – para a morte de Nana.
________
* O Retrato Oval
Ainda um pormenor e uma motivação: [1] gosto da tradução de José Lima (e não é só desta) e [2] volto muitas vezes a alguns dos textos de Susan Sontag, por exemplo às paginas dedicadas a Robert Bresson ou a Jean-Luc Godard.
[E agora é que é:] avanço em direcção a "Vivre sa Vie" com um propósito: se o Alexandre desapareceu e deixou a pobre Nana, presa num fotograma com uma pergunta tão difícil, então eu tomo de empréstimo a pele do velho filósofo Brice Parain e, com a ajuda de um café, um cigarro e da própria Susan Sontag, vou ensaiar a resposta que liberte a rapariga.
Nana: Como é que podemos ter a certeza de ter encontrado a palavra certa?
Susan Sontag: [ponto 13 do artigo sobre Vivre sa Vie em "Contra a Interpretação", pp. 236-237] O texto mais elaborado, intelectualmente, de todo o filme é a conversa no Quadro XI entre Nana e um filósofo (desempenhado pelo filósofo Brice Parain) num café. Discutem a natureza da linguagem. Nana pergunta por que não se pode viver sem palavras; Parain explica que é porque falar equivale a pensar, e pensar a falar, e sem pensamento não há vida. Não se trata de uma questão de falar ou de não falar, mas de falar bem. Falar bem exige uma disciplina ascética (uma ascese), um distanciamento. Tem de se compreender, desde logo, que não se pode chegar directamente à verdade. É necessário errar.
No início da conversa, Parain conta a história de Porthos de Dumas, o homem de acção, cujo primeiro pensamento o matou. (Correndo para se afastar de uma carga de dinamite que tinha colocado, Porthos subitamente perguntou-se como era possível caminhar, como é que se punha sempre um pé a seguir ao outro. Parou. A dinamite explodiu. E ele morreu.) Em certo sentido, também esta história, tal como a história da galinha, é sobre Nana. E através desta história e do conto de Poe* que é contada no quadro seguinte (e último), somos preparados – formalmente, não substancialmente – para a morte de Nana.
________
* O Retrato Oval
Terça-feira, Janeiro 11
it tango
Percebe-se porque é que os jovens críticos da nouvelle vague francesa, Truffaut e Godard, se entusiasmaram tanto com "Mónica e o desejo". O filme conta uma história simples, de amor, fuga e transgressão. Dois jovens apaixonam-se, resolvem fugir da cidade e das suas famílias e passar um verão despreocupado, com muito sol, sexo e algum álcool. Entretanto a rapariga engravida e quando o dinheiro e a comida acabam e começa a ficar frio eles regressam, não só a Estocolmo mas também a uma vida enfadonha. Adivinham-se as dificuldades, os esforços, um rame rame sem brilho. Mónica não foi feita para aquilo. E é então que surge esse célebre plano, esse plano maravilhoso em que Harriett Andersson nos encara e os seus olhos dizem tudo o que as palavras não conseguem dizer. Assim:
Your eyes. It's a day's work just to look in to them.
Your eyes. It's a day's work just to look in to them.
um contacto directo e impudico com o público
Nunca fiz um filme tão simples como "Mónica e o desejo". A bem dizer foi assim: partimos para o arquipélago e gravamos o filme. Aquela liberdade nos encantou. E o sucesso de bilheteira foi considerável.
Foi uma experiência rica em ensinamentos a de apresentar um talento tão original como é o de Harriett Andersson. Observar como esta actriz se comporta diante da câmara.
[...]
Harriett Andersson é um dos raros génios cinematográficos. Nas tortuosas sendas da selva que é a nossa profissão, só se encontram muito poucos do mesmo quilate.
Um exemplo: o Verão chegara ao termo. Harry não está em casa e Mónica sai com Lelle. No café, Lelle põe em marcha a juke-box. Durante a barulheira do swing, a câmara é dirigida para Harriett, e ela faz então o seguinte: deixa de olhar o actor com quem contracena e olha fixamente para a objectiva. Pela primeira vez na história do cinema um actor estabeleceu um contacto directo e impudico com o público.
Ingmar Bergman, "Imagens", edição da Martins Fontes
Foi uma experiência rica em ensinamentos a de apresentar um talento tão original como é o de Harriett Andersson. Observar como esta actriz se comporta diante da câmara.
[...]
Harriett Andersson é um dos raros génios cinematográficos. Nas tortuosas sendas da selva que é a nossa profissão, só se encontram muito poucos do mesmo quilate.
Um exemplo: o Verão chegara ao termo. Harry não está em casa e Mónica sai com Lelle. No café, Lelle põe em marcha a juke-box. Durante a barulheira do swing, a câmara é dirigida para Harriett, e ela faz então o seguinte: deixa de olhar o actor com quem contracena e olha fixamente para a objectiva. Pela primeira vez na história do cinema um actor estabeleceu um contacto directo e impudico com o público.
Ingmar Bergman, "Imagens", edição da Martins Fontes
Segunda-feira, Janeiro 10
C'est le plan le plus triste de l'histoire du cinéma
Un film d'Ingmar Bergman, c'est, si l'on veut, un vingt-quatrième de seconde qui se métamorphose et s'étire pendant une heure et demie. C'est le monde entre deux battements de paupières, la tristesse entre deux battements de coeur, la joie de vivre entre deux battements de mains.
Il faut avoir vu "Monika" rien que pour ces extraordinaires minutes où Harriett Andersson, avant de recoucher avec un type qu'elle avait plaqué, regarde fixement la caméra, ses yeux rieurs embués de désarroi, prenant le spectateur à témoin du mépris qu'elle a d'elle-même d'opter involontairement pour l'enfer contre le ciel. C'est le plan le plus triste de l'histoire du cinéma.
Jean-Luc Godard [O artigo que Jean-Luc Godard escreveu sobre Bergman (Bergmanorama) para a revista Cahiers du Cinéma, (#85, de Julho de 1958) pode ser lido aqui]
Il faut avoir vu "Monika" rien que pour ces extraordinaires minutes où Harriett Andersson, avant de recoucher avec un type qu'elle avait plaqué, regarde fixement la caméra, ses yeux rieurs embués de désarroi, prenant le spectateur à témoin du mépris qu'elle a d'elle-même d'opter involontairement pour l'enfer contre le ciel. C'est le plan le plus triste de l'histoire du cinéma.
Jean-Luc Godard [O artigo que Jean-Luc Godard escreveu sobre Bergman (Bergmanorama) para a revista Cahiers du Cinéma, (#85, de Julho de 1958) pode ser lido aqui]
modas & bordados
não desfazendo no senhor Galliano (vale a pena visitar o site), também gosto muito destes modelos da Mariana Sá Nogueira:
da esquerda para a direita:
1. Carlos Alves e André Teodósio com fatos de "Furiosa Tempestade" e Paula Sá Nogueira com o vestido de "Aguantar"
2. Vitor Gonçalves com um casaco de "Nocturno Delirante", Marcello Urgeghe com o pijama de "Problemas" e Paula Sá Nogueira com um vestido de "Pano de Muro"
3. Marcello Urgeghe e Vitor Gonçalves com fatos de "Histórias Misóginas"
fotografias de Miguel Madeira para a revista Pública#428, 5 Setembro 2004
da esquerda para a direita:
1. Carlos Alves e André Teodósio com fatos de "Furiosa Tempestade" e Paula Sá Nogueira com o vestido de "Aguantar"
2. Vitor Gonçalves com um casaco de "Nocturno Delirante", Marcello Urgeghe com o pijama de "Problemas" e Paula Sá Nogueira com um vestido de "Pano de Muro"
3. Marcello Urgeghe e Vitor Gonçalves com fatos de "Histórias Misóginas"
fotografias de Miguel Madeira para a revista Pública#428, 5 Setembro 2004
Um livro único
Para mim, o melhor livro de 1970, o livro do ano, foi Ambas as Mãos sobre o Corpo, de Maria Teresa Horta (colecções Europa-América, Colecção Nova Literatura).
Dou razões, concisamente:
lê-se a primeira página e não se percebe nada, logo recomeça-se, nisto podem levar-se semanas;
a primeira página empinada, e nós à beira duma astenia mental ou melancolia depressiva, vira-se e acontece sucessivamente sem cessar o mesmo, até final. E passam meses.
chegado ao fim, o Leitor (que não percebeu nada) esquece tudo e está na altura de recomeçar, sucessivamente, sem cessar. E chega a noite do 31 de Dezembro. Então, ou se fazem votos de vida nova, trepando à cadeira, emborcando champanhe e o livro voa janela for a com as panelas os tachos os cacos o lixo da barulheira ritual. Ou não. Nesta alternativa, pode ser ainda o livro único de 1971, até – bem entendido – à saída do meu Vamos Jogar Xadrez?
Viram a vantagem? enquanto os compradores assíduos dos livros RTP têm que ler e entender um livro em 7 dias, porque já lá vem outro, com a Teresinha faz-se uma grande economia… Lê-se e relê-se, fi/traumatica/ca-se na mesma, um tanto oirado, tá tudo certo; até se pode (traumatizado gravemente) deixar de ler. Para sempre.
(Notícia, Luanda, 13 Fevereiro 1971)
in Figuras, Figurantes e Figurões, de Luiz Pacheco, edição de Independente
Dou razões, concisamente:
lê-se a primeira página e não se percebe nada, logo recomeça-se, nisto podem levar-se semanas;
a primeira página empinada, e nós à beira duma astenia mental ou melancolia depressiva, vira-se e acontece sucessivamente sem cessar o mesmo, até final. E passam meses.
chegado ao fim, o Leitor (que não percebeu nada) esquece tudo e está na altura de recomeçar, sucessivamente, sem cessar. E chega a noite do 31 de Dezembro. Então, ou se fazem votos de vida nova, trepando à cadeira, emborcando champanhe e o livro voa janela for a com as panelas os tachos os cacos o lixo da barulheira ritual. Ou não. Nesta alternativa, pode ser ainda o livro único de 1971, até – bem entendido – à saída do meu Vamos Jogar Xadrez?
Viram a vantagem? enquanto os compradores assíduos dos livros RTP têm que ler e entender um livro em 7 dias, porque já lá vem outro, com a Teresinha faz-se uma grande economia… Lê-se e relê-se, fi/traumatica/ca-se na mesma, um tanto oirado, tá tudo certo; até se pode (traumatizado gravemente) deixar de ler. Para sempre.
(Notícia, Luanda, 13 Fevereiro 1971)
in Figuras, Figurantes e Figurões, de Luiz Pacheco, edição de Independente
Domingo, Janeiro 9
Isto são rosas, senhores, são rosas
Desviei-me do caminho/sumário traçado no domingo passado mas não me esqueci das alíneas. Para continuar com a boa disposição nada melhor do que passar ao prémio que atribuí ao melhor livro comprado num quiosque: Figuras, Figurantes e Figurões, de Luiz Pacheco.
Saiu com "O Independente" no final do ano; foi uma pechincha e já é uma relíquia.
O livro foi organizado pelo jornalista João Pedro George (que, entre outras coisas, também escreve na esplanada). Da sua apresentação (muito sucinta e certeira) e em jeito de resumo, retiro este excerto:
«O grosso das crónicas deste livro, nunca antes reunidas provêm da revista angolana Notícia (em 1965-71), de Manoel Vinhas, e do jornal Diário Económico (em 1995-96), então dirigido por Nicolau Santos. A estes textos, ordenados por afinidade temática, juntei seis, entretanto incluídos em livro, por três razões: uns, porque clarificam particularmente bem o tipo de crítica que defendeu e praticou; outros, porque dão sequência a textos desta antologia; outros ainda – como as primeiríssimas referências críticas a O Que Diz Molero, de Dinis Machado, e a Levantado do Chão, de José Saramago, reunidas em Textos de Guerrilha –, porque nos recordam o seu instinto para descobrir novos talentos literários, como aliás fizera antes, nos anos 50, com Herberto Helder ou Natália Correia na Contraponto. Finalmente, incluí um texto cómico, hilariante mesmo, sobre Vergílio Ferreira.»
Não conheço bem o Luiz Pacheco mas gostava de acrescentar, mesmo correndo o perigo de não adiantar nada de novo, que ele é um escritor formidável. Conhece bem as palavras, não aquelas viciadas, por exemplo da crítica literária que se vai praticando por aí, tipo: território, emergentes, rugoso. Não, conhece as outras, as que as páginas dos jornais perderam, que os livros esquecem, e tão bonitas e luminosas que elas são. Para além disso Luiz Pacheco tem genica, tem mau feitio e tem humor. Com certeza que um homem assim (num tempo de gente balofa) merece todo o nosso respeito e admiração. Pena ele não ler blogues, senão mandava-lhe uns beijos.
Mal possa (e já que ando em maré de balanços e prémios), deixo aqui “Um livro único”, sobre o melhor livro de 1970. Quanto ao Vergílio Ferreira, podem não acreditar mas Luiz Pacheco descobriu que ele tem swing!
Saiu com "O Independente" no final do ano; foi uma pechincha e já é uma relíquia.
O livro foi organizado pelo jornalista João Pedro George (que, entre outras coisas, também escreve na esplanada). Da sua apresentação (muito sucinta e certeira) e em jeito de resumo, retiro este excerto:
«O grosso das crónicas deste livro, nunca antes reunidas provêm da revista angolana Notícia (em 1965-71), de Manoel Vinhas, e do jornal Diário Económico (em 1995-96), então dirigido por Nicolau Santos. A estes textos, ordenados por afinidade temática, juntei seis, entretanto incluídos em livro, por três razões: uns, porque clarificam particularmente bem o tipo de crítica que defendeu e praticou; outros, porque dão sequência a textos desta antologia; outros ainda – como as primeiríssimas referências críticas a O Que Diz Molero, de Dinis Machado, e a Levantado do Chão, de José Saramago, reunidas em Textos de Guerrilha –, porque nos recordam o seu instinto para descobrir novos talentos literários, como aliás fizera antes, nos anos 50, com Herberto Helder ou Natália Correia na Contraponto. Finalmente, incluí um texto cómico, hilariante mesmo, sobre Vergílio Ferreira.»
Não conheço bem o Luiz Pacheco mas gostava de acrescentar, mesmo correndo o perigo de não adiantar nada de novo, que ele é um escritor formidável. Conhece bem as palavras, não aquelas viciadas, por exemplo da crítica literária que se vai praticando por aí, tipo: território, emergentes, rugoso. Não, conhece as outras, as que as páginas dos jornais perderam, que os livros esquecem, e tão bonitas e luminosas que elas são. Para além disso Luiz Pacheco tem genica, tem mau feitio e tem humor. Com certeza que um homem assim (num tempo de gente balofa) merece todo o nosso respeito e admiração. Pena ele não ler blogues, senão mandava-lhe uns beijos.
Mal possa (e já que ando em maré de balanços e prémios), deixo aqui “Um livro único”, sobre o melhor livro de 1970. Quanto ao Vergílio Ferreira, podem não acreditar mas Luiz Pacheco descobriu que ele tem swing!
Sábado, Janeiro 8
diz-me o que ouves

Com o dinheiro que me sobrou do natal comprei um casaco novo e um ipod em segunda mão. Passei a tarde a escolher cds. Junto com as músicas, é inevitável, vou gravar no pequeno aparelho parte da minha memória: as pessoas de quem gostei, as pessoas de quem gosto, os filmes que vi, as viagens que fiz, os programas de rádio que guardo todos os domingos, composições belíssimas, canções quase pirosas, algumas ninharias e mais de vinte por cento da minha personalidade.
Por uma questão de pudor, espero nunca perder o meu ipod. Nem o casaco.
O que disse Bill
Bill disse: «Houve um tempo em que precisei
de palavras, das minhas e das dos outros.
Porque eu era cego, surdo e mudo,
e as palavras eram o meu bordão, os meus ouvidos e a minha voz.
Hoje sou ainda cego, surdo e mudo,
mas não preciso de palavras
porque todos os caminhos por onde vou
partem de mim e por eles regresso,
e porque aquilo que ouço e me ouve
habita em mim (eu, o número mais pequeno),
e porque as palavras são um longo caminho para chegar onde estou.»
O Mestre não respondeu (Rinzai Ma-tsou ter-lhe-ia dado com um pau) pois,
ao contrário de Bill, não tinha nada para dizer
que pudesse ser dito com palavras ou sem palavras.
"Os Livros" de Manuel António Pina
de palavras, das minhas e das dos outros.
Porque eu era cego, surdo e mudo,
e as palavras eram o meu bordão, os meus ouvidos e a minha voz.
Hoje sou ainda cego, surdo e mudo,
mas não preciso de palavras
porque todos os caminhos por onde vou
partem de mim e por eles regresso,
e porque aquilo que ouço e me ouve
habita em mim (eu, o número mais pequeno),
e porque as palavras são um longo caminho para chegar onde estou.»
O Mestre não respondeu (Rinzai Ma-tsou ter-lhe-ia dado com um pau) pois,
ao contrário de Bill, não tinha nada para dizer
que pudesse ser dito com palavras ou sem palavras.
"Os Livros" de Manuel António Pina
Sexta-feira, Janeiro 7
strangers talk only about the weather #9

Depois de ler a notícia do post anterior a temperatura deste blogue subiu para níveis surpreendentes.
The End of the Moon
Ms [Laurie] Anderson will be traveling with audio equipment that will include audio processing devices, wireless microphone and instrument systems, and multi channel playback that will be controlled by her onstage. She will play an electronic violin and may also carry custom electronic instruments. She will send a stereo signal from her on-stage mixer to FOH.
Mais pormenores técnicos, aqui
Mais pormenores técnicos, aqui
Quinta-feira, Janeiro 6
Dorme bem
Marianne: Às vezes entristece-me nunca ter amado ninguém. E também não creio que alguém me tenha amado. Isso desgosta-me muito.
Johann: Estás a exagerar tudo.
Marianne: Estou?
Johann: Só posso falar por mim. Acho que te amo à minha maneira imperfeita e egoísta. E tu à tua maneira complicada e tumultuosa. Acho simplesmente que nos amamos. De uma forma terrena e imperfeita. Tu tens tantas pretensões.
Marianne: Pois tenho...
Johann: Mas assim na maior simplicidade, a meio de noite, numa casa às escuras algures no mundo, eu estou de facto aqui a abraçar-te, e tu estás de facto aqui nos meus braços. Não posso afirmar que sinto alguma especial compreensão ou solidariedade, provavelmente não tenho imaginação para isso.
Marianne: Sim, tens tão pouca imaginação.
Johann: Não sei como é o meu amor, não consigo descrevê-lo e quase nunca o sinto no dia-a-dia.
Marianne: E achas então que eu também te amo?
Johann: Sim, acho realmente. Mas não vamos falar nisso, ou o amor evapora-se.
Marianne: Vamos ficar aqui toda a noite.
Johann: Isso é que não vamos, de certeza.
Marianne: Não vamos?
Johann: Tenho uma perna dormente e o meu braço esquerdo já quase saltou da articulação. Estou a morrer de sono e tenho frio nas costas.
Marianne: Então é melhor deitamo-nos outra vez.
Johann: Sim, também acho.
Marianne: Boa noite, meu amor. E obrigada pela conversa.
Johann: Boa noite.
Marianne: Dorme bem.
Johann: Obrigado, tu também.
Marianne: Boa noite
Johann: Estás a exagerar tudo.
Marianne: Estou?
Johann: Só posso falar por mim. Acho que te amo à minha maneira imperfeita e egoísta. E tu à tua maneira complicada e tumultuosa. Acho simplesmente que nos amamos. De uma forma terrena e imperfeita. Tu tens tantas pretensões.
Marianne: Pois tenho...
Johann: Mas assim na maior simplicidade, a meio de noite, numa casa às escuras algures no mundo, eu estou de facto aqui a abraçar-te, e tu estás de facto aqui nos meus braços. Não posso afirmar que sinto alguma especial compreensão ou solidariedade, provavelmente não tenho imaginação para isso.
Marianne: Sim, tens tão pouca imaginação.
Johann: Não sei como é o meu amor, não consigo descrevê-lo e quase nunca o sinto no dia-a-dia.
Marianne: E achas então que eu também te amo?
Johann: Sim, acho realmente. Mas não vamos falar nisso, ou o amor evapora-se.
Marianne: Vamos ficar aqui toda a noite.
Johann: Isso é que não vamos, de certeza.
Marianne: Não vamos?
Johann: Tenho uma perna dormente e o meu braço esquerdo já quase saltou da articulação. Estou a morrer de sono e tenho frio nas costas.
Marianne: Então é melhor deitamo-nos outra vez.
Johann: Sim, também acho.
Marianne: Boa noite, meu amor. E obrigada pela conversa.
Johann: Boa noite.
Marianne: Dorme bem.
Johann: Obrigado, tu também.
Marianne: Boa noite
Cenas da Vida Conjugal
À falta de "Sarabanda"* (e antes de "Na pele do Lobo" e dos outros que entraram pela minha casa dentro no natal), resolvi rever as "Cenas da Vida Conjugal" na sua versão mais longa. São seis episódios (de cinquenta minutos cada) realizados por Ingmar Bergman para a televisão em 1972: Inocência e pânico; A arte de fazer como a avestruz; Paula; O Vale de lágrimas; Os analfabetos; e No meio da noite numa casa às escuras algures no mundo.
Filmes sem música, com planos longos e angustiantes.
[Recomenda-se, principalmente aos casados, o visionamento com algum álcool à mistura. Pelo sim pelo não]
A história começa assim: Johann e Marianne estão casados há dez anos, parece tudo bem. Uma jornalista entrevista-os para uma revista feminina, eles transbordam de felicidade. Sentados no sofá verde, são a imagem perfeita de harmonia familiar. Claro que sofá, sorrisos e amabilidades implicam já muita representação e enganos, mas eles ainda não se dão conta.
A pouco e pouco a crise instala-se e o que parecia estável e eterno, estilhaça-se. Afinal a vida deles estava colada com mentiras e conveniências sociais. O casamento acaba definitivamente quando Johann anuncia que vai embora, que vai viver com uma outra mulher. As coisas que eles calaram, dizem-nas agora e são agressivas; a fronteira entre o amor e o ódio é demasiado pequena.
Segue-se o divórcio, um processo complicado que envolve negociações de dinheiros, confissões, acusações e insultos.
Passam mais dez anos, Johann e Marianne casam de novo, resignados, com outras pessoas. Uma noite encontraram-se por acaso num teatro, estão ambos sozinhos e reatam a relação, agora em modo extra-conjugal.
No último episódio escapam à família e refugiam-se durante um fim-de-semana numa casa às escuras algures no mundo. É Agosto mas no norte faz frio. Acendem a lareira, trocam confissões, vão para a cama. Marianne acorda com um pesadelo em que se vê, sem mãos, enterrando-se, mais e mais, num chão movediço sem conseguir alcançar nem Johann nem as fillhas. Ele reconforta-a.
Segue-se o último diálogo entre os dois, antes de "Sarabanda".
__________
* felizardos os lisboetas pois podem ver o filme na próxima quinta-feira, dia 13, no Cinema Millenium Alvaláxia
Quarta-feira, Janeiro 5
C. despede-se
(...) Tinha dez ou onze anos e estava a tentar adormecer a minha irmã embalando-a. Como havia muitas crianças na nossa família e sendo eu o segundo irmão mais velho, tinha frequentemente de adormecer os mais novos... Já tinha esgotado o meu repertório de canções. Tinha de cantar alto, pois para adormecermos tem de estar enevoado. Mas por que estava ela a demorar tanto tempo a adormecer? Fechei os meus olhos e tentei perceber qual era o problema. Por fim adivinhei a razão... Talvez fosse por causa de um zhuk? Então fui buscar uma toalha e coloquei-a sobre os seus olhos... e ela adormeceu.
(Registo de Setembro de 1934)
Um zhuk é uma parte amolgada do penico... É um bocado de pão de centeio... E quando à noite ligamos a luz, isso também é um zhuk, pois nem todo o quarto fica iluminado, apenas uma zona pequena, o resto permanece na obscuridade: um zhuk. As verrugas também são um zhuk.
Agora, vejo-os a sentarem-me frente ao espelho. Ouve-se barulho e pessoas a rirem-se. Os meus olhos escuros fitam-me a partir da minha imagem refletida, elas também são um zhuk... Estou deitado no berço... oiço um grito, barulho, ameaças. Depois, alguém está a ferver alguma coisa na chaleira de estanho. É a minha avó, a fazer café. Primeiro, deixa cair na chaleira uma coisa vermelha, depois retira-a: um zhuk. Um pedaço de carvão também é um zhuk... Vejo-os a acenderem as velas no Sabat. Uma está a arder no castiçal, mas uma parte da cera ainda não derreteu. O pavio estremece e a chama apaga-se. Fica tudo escuro. Tenho medo, começo a chorar; isto também é um zhuk... E quando as pessoas são desastradas a servir o chá e em vez de acertarem nas chávenas derramam-no para cima dos pratos, isso também é um zhuk.
(Registo de Setembro de 1934)
in O Caso do Homem que Memorizava Tudo, de A. R. Luria
(Registo de Setembro de 1934)
Um zhuk é uma parte amolgada do penico... É um bocado de pão de centeio... E quando à noite ligamos a luz, isso também é um zhuk, pois nem todo o quarto fica iluminado, apenas uma zona pequena, o resto permanece na obscuridade: um zhuk. As verrugas também são um zhuk.
Agora, vejo-os a sentarem-me frente ao espelho. Ouve-se barulho e pessoas a rirem-se. Os meus olhos escuros fitam-me a partir da minha imagem refletida, elas também são um zhuk... Estou deitado no berço... oiço um grito, barulho, ameaças. Depois, alguém está a ferver alguma coisa na chaleira de estanho. É a minha avó, a fazer café. Primeiro, deixa cair na chaleira uma coisa vermelha, depois retira-a: um zhuk. Um pedaço de carvão também é um zhuk... Vejo-os a acenderem as velas no Sabat. Uma está a arder no castiçal, mas uma parte da cera ainda não derreteu. O pavio estremece e a chama apaga-se. Fica tudo escuro. Tenho medo, começo a chorar; isto também é um zhuk... E quando as pessoas são desastradas a servir o chá e em vez de acertarem nas chávenas derramam-no para cima dos pratos, isso também é um zhuk.
(Registo de Setembro de 1934)
in O Caso do Homem que Memorizava Tudo, de A. R. Luria
C. apresenta-se
(...) Reconheço uma palavra não só pelas imagens que evoca, mas também por um conjunto complexo de sentimentos que desperta. É difícil de explicar... não se trata apenas de uma impressão visual ou auditiva, mas de uma sensação mais geral. Normalmente, sinto o sabor e o peso de uma palavra e não tenho de me esforçar para recordá-la — surge espontaneamente. Mas é difícil descrever este processo, é como se sentisse uma coisa gordurenta a escapar-me das mãos... ou apercebo-me de uma leve comichão na minha mão esquerda, causada por um grande número de pontos leves e pequenos. Quando isso acontece, simplesmente recordo-me, sem ter de fazer nenhum esforço...
(Registo de 22 de Maio de 1939)
Quando oiço a palavra verde, aparece um vaso verde; se escuto a palavra vermelho vejo um homem com uma camisa vermelha a aproximar-se na minha direcção; quanto à azul, surge uma imagem de alguém a acenar à janela com uma pequena bandeira azul (...). Até os números evocam imagens. O número 1, por exemplo, é um homem orgulhoso, bem constituído; o 2 é uma mulher cheia de vida; o 3, uma pessoa triste (porquê, não sei); o 6, um homem com um pé inchado; o 7 um homem de bigode; o 8 é uma mulher muito gorda; um saco dentro de outro saco. Quanto ao número 87, vejo uma mulher gorda e um homem a enrolar as pontas do bigode.
(Registo de Setembro de 1936)
Tinha nesse momento iniciado o meu percurso a partir da Praça Maiakovski quando me deram a palavra Kremlin, então tive de me pôr a caminho do Kremlin. Não há problema, posso atirar uma corda através da cidade para lá chegar... mas logo a seguir deram-me a palavra poesia e fui mais uma vez à Praça Púchkin. Se me tivessem dito índio, teria ido à América. Podia, é claro, atirar uma corda através do oceano, mas é tão cansativo viajar assim...
(Registo de Maio de 1935)
in O Caso do Homem que Memorizava Tudo, de A. R. Luria
(Registo de 22 de Maio de 1939)
Quando oiço a palavra verde, aparece um vaso verde; se escuto a palavra vermelho vejo um homem com uma camisa vermelha a aproximar-se na minha direcção; quanto à azul, surge uma imagem de alguém a acenar à janela com uma pequena bandeira azul (...). Até os números evocam imagens. O número 1, por exemplo, é um homem orgulhoso, bem constituído; o 2 é uma mulher cheia de vida; o 3, uma pessoa triste (porquê, não sei); o 6, um homem com um pé inchado; o 7 um homem de bigode; o 8 é uma mulher muito gorda; um saco dentro de outro saco. Quanto ao número 87, vejo uma mulher gorda e um homem a enrolar as pontas do bigode.
(Registo de Setembro de 1936)
Tinha nesse momento iniciado o meu percurso a partir da Praça Maiakovski quando me deram a palavra Kremlin, então tive de me pôr a caminho do Kremlin. Não há problema, posso atirar uma corda através da cidade para lá chegar... mas logo a seguir deram-me a palavra poesia e fui mais uma vez à Praça Púchkin. Se me tivessem dito índio, teria ido à América. Podia, é claro, atirar uma corda através do oceano, mas é tão cansativo viajar assim...
(Registo de Maio de 1935)
in O Caso do Homem que Memorizava Tudo, de A. R. Luria
Terça-feira, Janeiro 4
O outro C.
Fotografias de Daniel Blaufuks [mixed short stories]
Encontrei-o por acaso, numa visita, alguns dias antes das férias de Verão, à livraria da Assírio na Rua Miguel Bombarda. Levei-o comigo. Li-o no avião, li-o na praia, li-o em voz alta, sublinhei-o. Tornei-me amiga íntima de C.
“O Caso do Homem que Memorizava Tudo” foi editado em 1967 e transformou-se rapidamente num clássico da literatura na área das patologias da memória. Mas as qualidades do livro ultrapassam esse campo restrito. Como Jerome S. Bruner explica na Introdução à edição americana de 1987: [Luria] segue o espírito das obras de Kafka ou de Beckett, onde as personagens são simbolicamente privadas da capacidade de encontrar o sentido das coisas no mundo. À sua maneira, o paciente de Luria [apresentado pelo cientista como C.], analisado neste livro, ocupa o seu lugar ao lado de Joseph K., a personagem de “O Processo”, ou na galeria de almas perdidas criadas por Beckett nas suas histórias e peças de teatro.
Mais do que um caso patológico, C. é um caso poético*.
___________
* apresentação das provas em breve.
breve relato sobre um indivíduo invulgar
«Passei este Verão no campo, longe da cidade. Através das janelas abertas, ouvia o som das folhas a agitarem-se nas árvores e sentia o cheiro aromático da erva. Na minha secretária estavam pousados alguns apontamentos antigos, já amarelecidos, a partir dos quais elaborei este breve relato sobre um indivíduo invulgar: um rapaz judeu que, não sendo bem sucedido como músico ou jornalista, acabou por ganhar a vida a dar espectáculos onde memorizava, a pedido do público, listas de palavras, sequências de nomes e passagens e livros. Conheceu muitas pessoas proeminentes, mas sempre viveu à deriva, na esperança de encontrar algo de especial.»
A. R. Luria, Verão de 1965, no prefácio do seu livro “O Caso do Homem que Memorizava Tudo”,
edição da Relógio d'Água, Setembro de 2003
A. R. Luria, Verão de 1965, no prefácio do seu livro “O Caso do Homem que Memorizava Tudo”,
edição da Relógio d'Água, Setembro de 2003
Segunda-feira, Janeiro 3
A Rosa, de Robert Walser

com fotografia de Nobuyoshi Araki
Continuando com Robert Walser e andando para trás, chegou a altura d’ A Rosa. O livro foi editado em 1925 (entre nós, apenas setenta e nove anos mais tarde, graças ao empenho de uma das minhas editoras preferidas, a Relógio d’Água) e agrupa pequenas histórias que nenhuma tentativa racional conseguiria resumir. Digamos que são passeios estranhos, digamos que os olhos de Walser vêm outras coisas, diferentes, belas, que nos escapam. É talvez neste registo, fragmentado e inconsequente, que Walser se revela mais espantoso, mas isso não o posso afirmar, é só uma suspeita, há ainda tantas páginas por traduzir. Na contracapa, Susan Sontag escreve que «[Robert Walser] é um escritor verdadeiramente magnífico que nos parte o coração.» A frase é de tal forma sucinta e justa que nem vale a pena acrescentar mais nada. Tudo, mas tudo mesmo, se concentra na sua magnificiência e na disponibilidade do nosso coração.
No natal, publiquei o delicioso “Torrãozinho de açúcar” (página 101) agora estava a pensar em “Parsifal escreve à sua amiga” (página 88) que surge citado no “Elogio do Amor” de Jean-Luc Godard e que nos mostra que o amor nunca é bem aquilo que nós julgamos que é… no entanto, o que me está a apetecer são umas batatinhas salteadas, por isso, assim seja, ei-las, servidas por Ibsen:
NORA, de IBSEN ou AS BATATAS SALTEADAS
Uma vez, um actor estreou-se no papel de Helmer. No quinto acto, depois de ler a famosa carta, sorriu, interpretou, pelos vistos, a situação como não tendo nada de trágico e exclamou num tom meloso: «Minha querida Nora, sabes uma coisa? Bem podias fazer-me, num instantinho, umas batatinhas salteadas.»
Que deixa tão estranha, que até fez suspender a respiração do público. Nora ficou apavorada. Como podia o seu marido despir assim, de repente, o seu pequeno manto de irresolução? Entre os espectadores notou-se alguma agitação. Aquele desejo tão prosaico, expresso num momento tão profundamente significativo, afigurou-se a toda a gente como muito singular, mas ninguém assobiou a cena. Falar de batatinhas salteadas numa altura em que se tratava de valores morais era assaz grave. Já não tinham qualquer cabimento todas as frases generosas a pronunciar por Nora. Com um ar negligente, como de um experimentado homem mundano, Helmer sentou-se na borda da mesa. Nora perguntou-lhe com voz hesitante se o que ele queria nesse momento era, realmente, comer umas batatas salteadas, e estava encantadora nessa sua perplexidade. «O que eu disse é a mais pura das verdades», retorquiu o seu interlocutor. O público do promenoir abanava a cabeça. Subitamente, o milagre operou-se em Nora; o público estava varado. Ela ficou contente por Helmer ter dito uma coisa tão inesperada. Os espectadores não o aplaudiram, realmente, mas deixaram-no fazer o que lhe apetecia.
Robert Walser, in A Rosa, tradução de Leopoldina Almeida, edição da Relógio d'Água, Janeiro de 2004
Que deixa tão estranha, que até fez suspender a respiração do público. Nora ficou apavorada. Como podia o seu marido despir assim, de repente, o seu pequeno manto de irresolução? Entre os espectadores notou-se alguma agitação. Aquele desejo tão prosaico, expresso num momento tão profundamente significativo, afigurou-se a toda a gente como muito singular, mas ninguém assobiou a cena. Falar de batatinhas salteadas numa altura em que se tratava de valores morais era assaz grave. Já não tinham qualquer cabimento todas as frases generosas a pronunciar por Nora. Com um ar negligente, como de um experimentado homem mundano, Helmer sentou-se na borda da mesa. Nora perguntou-lhe com voz hesitante se o que ele queria nesse momento era, realmente, comer umas batatas salteadas, e estava encantadora nessa sua perplexidade. «O que eu disse é a mais pura das verdades», retorquiu o seu interlocutor. O público do promenoir abanava a cabeça. Subitamente, o milagre operou-se em Nora; o público estava varado. Ela ficou contente por Helmer ter dito uma coisa tão inesperada. Os espectadores não o aplaudiram, realmente, mas deixaram-no fazer o que lhe apetecia.
Robert Walser, in A Rosa, tradução de Leopoldina Almeida, edição da Relógio d'Água, Janeiro de 2004
Domingo, Janeiro 2
Os rapazes do Instituto Benjamenta

Começo por falar de Jakob von Gunten, o romance de Robert Walser que a Relógio d'Água nos prometeu em 2004 e que, quero acreditar, já está em provas, ou, melhor ainda, já está em impressão na gráfica e um dia destes aparece aí, nas livrarias. Imagino até que há listas de espera, gente desesperada (eu, reconheço, estou um bocado). Não sei o que dizer de um livro que ainda não li, talvez... começar pelo princípio? É o mais indicado e é fácil, roubo-o ao Vila-Matas:
«Aqui aprende-se muito pouco, falta pessoal docente e nós, os rapazes do Instituto Benjamenta, jamais chegaremos a nada, quer dizer, que no dia de amanhã seremos todos gente muito modesta e subordinada.»
É um belo início e ao mesmo tempo, também, o contrário perfeito de auspicioso. Está na página cento e catorze de "O Mal de Montano" (Teorema). Agora só falta o resto. Meses? Semanas? Quantos dias?
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As fotografias são da primeira longa metragem dos irmãos Quay, Stephen e Timothy (mais pormenores nesta entrevista em uma e duas partes). Já agora, se não for pedir de mais, quem é que pode exibir o filme?


