Sexta-feira, Setembro 16

O movimento dos corpos celestes

Mathieu Carrière em Der junge Törless, de Volker Schlöndorff, 1966

O que mais me comoveu no livro de Robert Musil foram os movimentos de Törless. Longe de casa e da família, ele ensaia pela primeira vez os verdadeiros movimentos do corpo e da alma. É um percurso nebuloso e instável que o leva até aquilo que existe sem prova, aquilo que não se consegue descrever, uma espécie de números imaginários só que ainda mais inacessíveis e assombrosos. A partir daí o mundo de Törless será deslumbrante como nunca antes:
«E nisto reparou — como se fosse a primeira vez — como o céu era alto.
Foi como um sobressalto. Mesmo por cima dele brilhava no azul uma pequena abertura incrivelmente funda entre as nuvens.
Sentiu que tinha de ser possível subir até lá com uma escada comprida, muito comprida. Mas quanto mais ele aí penetrava, subindo com o olhar, tanto mais o fundo azul brilhante se retirava. E no entanto parecia que era possível alcançá-lo e fazê-lo parar com o olhar. Este desejo tornou-se torturantemente intenso.
Era como se a visão, extremamente tensa, disparasse olhares como flechas por entre as nuvens, e como se ela, por mais longe que apontasse, falhasse sempre por pouco o alvo.»

mas também obscuro e movediço:
«Há qualquer coisa de obscuro em mim, sob os pensamentos, e que eu não posso avaliar com o pensamento, uma vida que não se deixa traduzir em palavras e que, apesar disso, é a minha vida...»