Sábado, Janeiro 1
O que chamamos o começo é muitas vezes o fim
[...]
Não desistiremos de explorar
E o fim de toda a nossa exploração
Será chegarmos ao lugar de onde partimos
E conhecer o lugar pela primeira vez.
Através do portão desconhecido e lembrado
Quando o último confim da terra por descobrir
For o lugar que foi o começo;
Na nascente do rio mais longo
A voz oculta queda d'água
E as crianças na macieira
Desconhecidas, porque não procuradas
Mas ouvidas, meio-ouvidas, na quietação
Entre duas ondas do mar.
Depressa agora, aqui, agora, sempre —
Uma condição de completa simplicidade
(Que não custa menos do que tudo)
E tudo há-de ficar bem e
Toda a espécie de coisa há-de ficar bem
Quando as línguas de fogo refluírem
Para o coroado nó de fogo
E o fogo e a rosa forem um.
T. S. Eliot, Little Gidding, in Quatro Quartetos, tradução de Gualter Cunha, edição da Relógio d’Água
Não desistiremos de explorar
E o fim de toda a nossa exploração
Será chegarmos ao lugar de onde partimos
E conhecer o lugar pela primeira vez.
Através do portão desconhecido e lembrado
Quando o último confim da terra por descobrir
For o lugar que foi o começo;
Na nascente do rio mais longo
A voz oculta queda d'água
E as crianças na macieira
Desconhecidas, porque não procuradas
Mas ouvidas, meio-ouvidas, na quietação
Entre duas ondas do mar.
Depressa agora, aqui, agora, sempre —
Uma condição de completa simplicidade
(Que não custa menos do que tudo)
E tudo há-de ficar bem e
Toda a espécie de coisa há-de ficar bem
Quando as línguas de fogo refluírem
Para o coroado nó de fogo
E o fogo e a rosa forem um.
T. S. Eliot, Little Gidding, in Quatro Quartetos, tradução de Gualter Cunha, edição da Relógio d’Água
Sexta-feira, Dezembro 31
See You in 2005
Well I learned the trade from Piggy Knowles / And Sing Sing Tommy Shay Boys / God used me as a hammer boys / To beat his weary drum today
Hoist that rag / Hoist that rag / Hoist that rag
The sun is up the world is flat / Damn good address for a rat / The smell of blood, the drone of flies / You know what to do if the baby cries?
Hoist that rag / Hoist that rag / Hoist that rag, hoist that rag / Hoist that rag, hoist that rag / Hoist that rag
Well we stick our fingers in the ground / Heave and turn the world around / Smoke is blacking out the sun / At night I pray and clean my gun / The cracked bell rings as the ghost bird sings / The gods go begging here / So just open fire when you hit the shore / All is fair in love and war
Hoist that rag / Hoist that rag / Hoist that rag / Hoist that rag, hoist that rag / Hoist that rag, hoist that rag / Hoist that rag, hoist that rag
Jim Vecchi @ photo-eye
Hoist that rag / Hoist that rag / Hoist that rag
The sun is up the world is flat / Damn good address for a rat / The smell of blood, the drone of flies / You know what to do if the baby cries?
Hoist that rag / Hoist that rag / Hoist that rag, hoist that rag / Hoist that rag, hoist that rag / Hoist that rag
Well we stick our fingers in the ground / Heave and turn the world around / Smoke is blacking out the sun / At night I pray and clean my gun / The cracked bell rings as the ghost bird sings / The gods go begging here / So just open fire when you hit the shore / All is fair in love and war
Hoist that rag / Hoist that rag / Hoist that rag / Hoist that rag, hoist that rag / Hoist that rag, hoist that rag / Hoist that rag, hoist that rag
Jim Vecchi @ photo-eye
Quinta-feira, Dezembro 30
Não,
eu não consigo compreender o Holocausto. Nem com palavras, nem com raciocínios nem com o corpo, apesar de ser o corpo o que mais se aproxima, quer dizer, o único que podia. Às vezes sinto medo, ou estremeço, mas isso não é nada, estou longe, muito longe. Nada sei dessas mortes, nada sei do frio, da perplexidade e do horror. E nunca vou saber, creio. Sim, mesmo que estivesse lá agora, nunca saberia.
Em casa, à noite, tenho lutado com "O Leitor" de Bernhard Schlink. Na minha cabeça misturam-se mil imagens, clichés, claro, que mais podiam ser? Leio, sublinho, relembro os outros livros (e, raios, não consigo esquecer o Austerlitz), os outros filmes. Não há redenção ou descanso.
O que mais me perturba nestas imagens do Paulo Nozolino são os casacos pendurados. E as paredes esfaceladas. Como se...
Nozolino move-se na sombra, é o fotógrafo da tristeza e da dor. Ele está perto.
Mas, não é disto que devemos falar nas passagens de ano, pois não?
Em casa, à noite, tenho lutado com "O Leitor" de Bernhard Schlink. Na minha cabeça misturam-se mil imagens, clichés, claro, que mais podiam ser? Leio, sublinho, relembro os outros livros (e, raios, não consigo esquecer o Austerlitz), os outros filmes. Não há redenção ou descanso.
O que mais me perturba nestas imagens do Paulo Nozolino são os casacos pendurados. E as paredes esfaceladas. Como se...
Nozolino move-se na sombra, é o fotógrafo da tristeza e da dor. Ele está perto.
Mas, não é disto que devemos falar nas passagens de ano, pois não?
Fotografias de Paulo Nozolino


Malditos / Bucarest 2003 | Espoliados / Madrid 2003 | Assassinados / Auschwitz 1994
na Galeria Quadrado Azul
Em vez de uma hermenêutica
9
[...]
O que é importante hoje é recuperar os nossos sentidos. Temos de aprender a ver mais, a ouvir mais, a sentir mais.
A nossa tarefa não é descobrir numa obra de arte o máximo de conteúdo, e ainda menos espremer mais conteúdo de uma obra do que aquele que já lá está. A nossa tarefa é reduzir o conteúdo de modo a podermos ver realmente o que lá está.
O objectivo de qualquer comentário sobre a arte deveria ser nos nossos dias tornar as obras de arte – e, por analogia, a nossa própria experiência – mais, e não menos, reais para nós. A função da crítica devia ser mostrar como é o que é, ou mesmo que é o que é, em vez de mostrar o que significa.
10
Em vez de uma hermenêutica precisamos de uma erótica da arte.
Susan Sontag, em Contra a Interpretação, 1964
[...]
O que é importante hoje é recuperar os nossos sentidos. Temos de aprender a ver mais, a ouvir mais, a sentir mais.
A nossa tarefa não é descobrir numa obra de arte o máximo de conteúdo, e ainda menos espremer mais conteúdo de uma obra do que aquele que já lá está. A nossa tarefa é reduzir o conteúdo de modo a podermos ver realmente o que lá está.
O objectivo de qualquer comentário sobre a arte deveria ser nos nossos dias tornar as obras de arte – e, por analogia, a nossa própria experiência – mais, e não menos, reais para nós. A função da crítica devia ser mostrar como é o que é, ou mesmo que é o que é, em vez de mostrar o que significa.
10
Em vez de uma hermenêutica precisamos de uma erótica da arte.
Susan Sontag, em Contra a Interpretação, 1964
Quarta-feira, Dezembro 29
Quando o Senhor K. gostava de alguém
«O que é que faz», perguntaram uma vez ao Senhor K., «quando gosta de uma pessoa?» «Desenho-a», respondeu «e procuro fazer com que fique parecida.» «O quê? O retrato?» «Não», disse o Senhor K., «a pessoa.»
Bertold Brecht, “Histórias do Senhor Keuner”, Hiena, Memória do Abismo #43
Bertold Brecht, “Histórias do Senhor Keuner”, Hiena, Memória do Abismo #43
Terça-feira, Dezembro 28
diz-me o que lês
Não tenho jeito para balanços. Nunca sei bem quando é que li os livros e a maior parte deles já têm alguns ou até muitos anos de edição. No entanto, resolvi deitar contas ao ano e atribuir alguns prémios. Pode haver um ou outro esquecimento mas não há enganos, estes foram, são, os meus livros:
Mesa de cabeceira (quem é que ainda não tem? e porquê?):
Notas sobre o Cinematógrafo, de Robert Bresson (a data de edição é de Novembro de 2003 mas só o encontrei à venda este ano por isso entra na lista) [Porto Editora]
Melhor livro comprado no quiosque:
Figuras, Figurantes e Figurões, de Luiz Pacheco [com O Independente]
Mais esperados [a] reedição (com pormenor verde):
Michael Kohlhaas, o Rebelde, de Heinrich von Kleist [Antígona]
Mais esperados [b] pela primeira vez no nosso país:
Poesia, de Eugenio Montale [Assírio & Alvim]
Melhor livro de férias:
O Caso do Homem que Memorizava Tudo, de A. R. Luria (é de Setembro de 2003 mas está perdido por aí e é uma pena porque é um belíssimo livro) [Relógio d' Água]
Porque sim:
Quatro Quartetos, de T. S. Eliot [Relógio d' Água]
De coração aberto:
Instants Light, Tarkovky Polaroids, de Andrey Tarkovsky [Thames & Hudson]
Melhor presente recebido:
Würzburg Bolton Landing, de Rui Chafes (também não é de 2004 mas isso que importa?) [Assírio & Alvim]
Revelação:
Austerlitz, de W. G. Sebald (pese embora a fraca qualidade da edição portuguesa) [Teorema]
De olhos fechados (porque ainda não o li mas que bom que é dar prémios ao Bernhard):
Extinção, de Thomas Bernhard (o prémio vai também para as excelentes traduções de José A. Palma Caetano) [Assírio & Alvim]
Melhor recomendação (do Nuno):
Contra a Interpretação, de Susan Sontag [Gótica]
Azul, vento, o sabor das cerejas e o cinema. O que é?:
Abbas Kiarostami, Catálogo da Cinemateca
Porque é do Walser:
A Rosa, de Robert Walser [Relógio d'Água]
Melhor promessa (então fica para o ano, não é?)
Jakob von Gunten, de Robert Walser [Relógio d' Água]
Mesa de cabeceira (quem é que ainda não tem? e porquê?):
Notas sobre o Cinematógrafo, de Robert Bresson (a data de edição é de Novembro de 2003 mas só o encontrei à venda este ano por isso entra na lista) [Porto Editora]
Melhor livro comprado no quiosque:
Figuras, Figurantes e Figurões, de Luiz Pacheco [com O Independente]
Mais esperados [a] reedição (com pormenor verde):
Michael Kohlhaas, o Rebelde, de Heinrich von Kleist [Antígona]
Mais esperados [b] pela primeira vez no nosso país:
Poesia, de Eugenio Montale [Assírio & Alvim]
Melhor livro de férias:
O Caso do Homem que Memorizava Tudo, de A. R. Luria (é de Setembro de 2003 mas está perdido por aí e é uma pena porque é um belíssimo livro) [Relógio d' Água]
Porque sim:
Quatro Quartetos, de T. S. Eliot [Relógio d' Água]
De coração aberto:
Instants Light, Tarkovky Polaroids, de Andrey Tarkovsky [Thames & Hudson]
Melhor presente recebido:
Würzburg Bolton Landing, de Rui Chafes (também não é de 2004 mas isso que importa?) [Assírio & Alvim]
Revelação:
Austerlitz, de W. G. Sebald (pese embora a fraca qualidade da edição portuguesa) [Teorema]
De olhos fechados (porque ainda não o li mas que bom que é dar prémios ao Bernhard):
Extinção, de Thomas Bernhard (o prémio vai também para as excelentes traduções de José A. Palma Caetano) [Assírio & Alvim]
Melhor recomendação (do Nuno):
Contra a Interpretação, de Susan Sontag [Gótica]
Azul, vento, o sabor das cerejas e o cinema. O que é?:
Abbas Kiarostami, Catálogo da Cinemateca
Porque é do Walser:
A Rosa, de Robert Walser [Relógio d'Água]
Melhor promessa (então fica para o ano, não é?)
Jakob von Gunten, de Robert Walser [Relógio d' Água]
Segunda-feira, Dezembro 27
CREMASTER CYCLE II
Chão de ladrilho turquesa exasperante. Estava caído. O
rosto de lado. Esfacelada, a face. Fui chamado para o reconhecimento de
um corpo onde estivera um rosto que
fôra capaz de permanecer belo — como consegue ser o vento
durante um dia inteiro. «Irreconhecível. Mas estou certo da identidade.»
Debrucei-me sobre o seu pescoço e falei-lhe, muito baixo, ao ouvido
que restara em sangue. Parecia um grande olho sombrio,
testemunha de melancólica loucura.
«Tiro de caçadeira», disse o polícia.
Braços ao lado do tronco. Camisa branca. O cabelo, pasta
sanguinolenta — cobria parte do mosaico, mínimos
quadrados de cor sorteada, negro e o azul em desespero de verde. Vermelho
coagulado, em parte.
Calças de fazenda escura, um cinto negro, sapatos pretos. Um ralo
de ferro levou parte da vida. «Os músculos dos colhões têm ainda a
necessária força para acender gasómetros aos pescadores no alto mar.» Disse o
polícia, numa voz fria e frágil, vidro por detrás das palavras
que batia na pedra dolorida do meu peito
e escrevia,
à luz de uma lâmpada de néon, com um coto de lápis,
palavras que todos usam.
João Miguel Fernandes Jorge, Invisíveis Correntes, Relógio d'Água, Junho de 2004
rosto de lado. Esfacelada, a face. Fui chamado para o reconhecimento de
um corpo onde estivera um rosto que
fôra capaz de permanecer belo — como consegue ser o vento
durante um dia inteiro. «Irreconhecível. Mas estou certo da identidade.»
Debrucei-me sobre o seu pescoço e falei-lhe, muito baixo, ao ouvido
que restara em sangue. Parecia um grande olho sombrio,
testemunha de melancólica loucura.
«Tiro de caçadeira», disse o polícia.
Braços ao lado do tronco. Camisa branca. O cabelo, pasta
sanguinolenta — cobria parte do mosaico, mínimos
quadrados de cor sorteada, negro e o azul em desespero de verde. Vermelho
coagulado, em parte.
Calças de fazenda escura, um cinto negro, sapatos pretos. Um ralo
de ferro levou parte da vida. «Os músculos dos colhões têm ainda a
necessária força para acender gasómetros aos pescadores no alto mar.» Disse o
polícia, numa voz fria e frágil, vidro por detrás das palavras
que batia na pedra dolorida do meu peito
e escrevia,
à luz de uma lâmpada de néon, com um coto de lápis,
palavras que todos usam.
João Miguel Fernandes Jorge, Invisíveis Correntes, Relógio d'Água, Junho de 2004
Domingo, Dezembro 26
Cremaster Cycle
«Uma forma de ler a série CREMASTER é vê-lo como uma meditação sobre o processo que nos conduz a fazer coisas. E o ingrediente chave lá dentro é o desejo. É por isso que quis sexualizar este sistema, sem, no entanto, torná-lo rígido numa definição de sexualidade humana. Interesso-me no momento em que o desejo se transforma em objecto.»
Matthew Barney (a jade lindgaard, les inrockuptibles, na atalanta filmes)
Para desenjoar do Natal fui ao cinema. Tinha planeado que hoje seria o Cremaster’s Day — sessões seguidas com os cinco filmes, na sala do Campo Alegre — mas já não tenho idade para isso. Passei apenas, de raspão, pelos dois primeiros. Gostei do Norman Mailer/Houdini, da coreografia das meninas good year e de várias outras coisas mas não sei se consigo completar o ciclo.
[A maior parte das vezes o encontro das artes plásticas com o cinema resulta muito fastidioso, parece-me até que existe apenas para justificar teorias ou interpretações herméticas e chatas. Para já (e para mim) o Matthew Barney está salvo; criou filmes __________ (reconheço, falta-me o primeiro adjectivo qualitativo mas posso adiantar estes dois:) hipnóticos e muito sensoriais. Estranhos e, no entanto, contra todas as evidências, muito perto do nosso corpo (leia-se: corpo cronenberguiano).
De referir ainda que a mistura (mistura não é a palavra certa, nem montagem, talvez simbiose, por via da biologia, sim), a simbiose das imagens com a música é excelente e que talvez tudo isto, ou pelo menos uma pequena parte, terá sido influenciado pela leitura de "Crash" nos primeiros anos da universidade.]
A sala estava quase cheia e, para variar duas vezes, não era eu a mais nova mas a mais velha. Raparigas com ganchos e sapatilhas cor-de-rosa, rapazes de escuro, um deles com o “Empirismo Herege” do Pasolini nas mãos e a falar do Georges Sadoul. Todos com mochilas ou sacos grandes. O que é que guardarão lá dentro? E o que é que vão fazer com as imagens desta tarde?
Matthew Barney (a jade lindgaard, les inrockuptibles, na atalanta filmes)
Para desenjoar do Natal fui ao cinema. Tinha planeado que hoje seria o Cremaster’s Day — sessões seguidas com os cinco filmes, na sala do Campo Alegre — mas já não tenho idade para isso. Passei apenas, de raspão, pelos dois primeiros. Gostei do Norman Mailer/Houdini, da coreografia das meninas good year e de várias outras coisas mas não sei se consigo completar o ciclo.
[A maior parte das vezes o encontro das artes plásticas com o cinema resulta muito fastidioso, parece-me até que existe apenas para justificar teorias ou interpretações herméticas e chatas. Para já (e para mim) o Matthew Barney está salvo; criou filmes __________ (reconheço, falta-me o primeiro adjectivo qualitativo mas posso adiantar estes dois:) hipnóticos e muito sensoriais. Estranhos e, no entanto, contra todas as evidências, muito perto do nosso corpo (leia-se: corpo cronenberguiano).
De referir ainda que a mistura (mistura não é a palavra certa, nem montagem, talvez simbiose, por via da biologia, sim), a simbiose das imagens com a música é excelente e que talvez tudo isto, ou pelo menos uma pequena parte, terá sido influenciado pela leitura de "Crash" nos primeiros anos da universidade.]
A sala estava quase cheia e, para variar duas vezes, não era eu a mais nova mas a mais velha. Raparigas com ganchos e sapatilhas cor-de-rosa, rapazes de escuro, um deles com o “Empirismo Herege” do Pasolini nas mãos e a falar do Georges Sadoul. Todos com mochilas ou sacos grandes. O que é que guardarão lá dentro? E o que é que vão fazer com as imagens desta tarde?
Agradeço
a confiança (e cumplicidade) do Rui; o entusiasmo do Alexandre; as palavras do José Mário e do Rogério Santos; e, acima de tudo, as romãs da Alexandra (eram doces) e as cerejeiras da Sandra (são belas).








