Sábado, Dezembro 25

Estou aterrorizado perante a ideia de conseguir alguma coisa na vida

Robert Otto Walser nasceu a 15 de Abril de 1878, em Biel e morreu no dia 25 de Dezembro de 1956 durante um dos seus passeios habituais. Sozinho, na neve.

Portanto, sim, sim, acredito em ti.

[...]

Raínha: P'ró diabo com o perdão e com a paciência, a vergonha e a bondade! Eh, lacaio!

Entra o Caçador

Caçador: Chamastes, nobre senhora?

Raínha: Meu homem único, primeiro um beijo. Oh, pudesse eu desaparecer! Mas ainda tenho de falar um breve instante para esclarecer este jogo, senão ela, a implicada, diz que é brutal. Fala em vez de mim. Diz a esta tola e triste rapariga, diz-lhe quanto a odeio amando-a também. Puxa do punhal, Mas não, querido. Deixa-o na bainha. Fala, é tudo, consola-a; diz palavras em que ela possa acreditar e a mim tranquilizar-me, repõe aqui o silêncio, ficando tudo como antes desta leviana peça se ter iniciado. Vai, mas usa de cautela. Não fales demasiado pouco, não vão tuas parcas palavras dizer demais.

Caçador: Branca de Neve, vem cá.

Branca de Neve: Como já não tenho medo, com todo o gosto.

Caçador: Crês que te queria matar?

Branca de Neve: Sim e também não. Se abafar o sim, o não apressa-se logo a dizer-me sim. Diz que acredito. Di-lo de tal modo que, sim, tenho sempre de crer em ti. Estou cansada do não. O sim tem graça. Acredito em ti, digas o que disseres. Gosto muito de dizer: sim, acredito. Há muito tempo que o não me repugna. Portanto, sim, sim, acredito em ti.

[...]

excerto de "Branca de Neve" de Robert Walser, tradução de Célia Henriques, edição de & etc

Estrela da manhã

Abro a janela,
há uma opaca luz matinal.
A neve já parou,
uma grande estrela está no seu lugar.

A estrela, a estrela
é maravilhosamente bela.
Branco de neve está o horizonte,
brancos de neve todos os cumes.

Sagrada, fresca,
a quietude matinal no mundo.
Cada som cai nitidamente,
os telhados brilham como mesas de crianças.

Tão imóvel e branco:
um grande e belo deserto,
cuja fria quietude perturba
cada expressão. Porém, em mim ele arde.

Robert Walser, traduzido por Sandra Costa
[mais duas traduções – do Rui Manuel Amaral e da Mariana –, nos arquivos do Quartzo]

duas ou três coisas sobre a Branca de Neve*

é talvez a única homenagem possível a Robert Walser

a Branca de Neve é doce; a Raínha, magnífica; o príncipe, laparoto; e nunca um caçador foi tão atraente aos meus olhos como a voz do Luís Miguel Cintra

vejo o filme de olhos de fechados, para o ver melhor. abro-os apenas entre os diálogos, quando a câmara se volta para as nuvens



Branca de Neve: Não, diz, o que vês? Diz logo. Através dos teus lábios deduzirei o bonito desenho desse quadro. Se o pintasses, por certo atenuavas habilmente a intensidade da visão. Então, o que é? Em vez de olhar prefiro escutar.

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*isto não é uma crítica, é a rendição absoluta

Sexta-feira, Dezembro 24

Ouro, incenso, mirra e um TORRÃOZINHO DE AÇÚCAR

Em Berlim, vi uma vez no cinema um filme para crianças de escola que se passava na Califórnia. Fui, há pouco tempo, dar mais uma vez um passeio, como é natural.
Cruzou-se comigo um homem, cuja cabeça tremia, parecendo dizer continuamente: «Pois claro que não.» Isso deixou-me pensantivo durante um certo tempo.
Como me pareciam suaves e grandiosos os Alpes, erguendo-se muito acima das colinas vizinhas. Não é verdade que o Karl Stauffer, no Belvoirpark, pouquíssima atenção dava tanto a si próprio, em primeiro lugar, como também à senhora que o patrocinava? Sentia-se demasiado à vontade em casa dela. Não se tem o direito de mostrar uma tal neglicência senão... na aparência.
E, assim, entrei na taberna e logo encontrei com que me ocupar: fui atar as fitas do avental de uma criada de mesa.
Que encantador era aquele banquinho no pequeno bosque despido em plenos alvores da Primavera! Fora ele feito de massapão e logo eu o teria comido, de tão maravilhado que ficara.
Ao passar uma pontezinha pensei numa Mariazinha e à sombra de um pinheirinho com as suas agulhinhas sonhei com uma Aninhas. Um gato deu um salto habilidoso para transpor uma sebe. As galinhas iam debicando o chão em pleno prado amarelecido.
Ai, e eu estava esperançado em morrer de desânimo mas não fui capaz.
É bem possível que eu dê entrada, muito em breve, num internato de meninas: servi-me de uma vergastinha para saltar à corda e, enquanto saltava, pensei que era por completo indiferente o local onde um autor editasse desde que o fizesse.
Fui lido muito escassamente tanto aqui no país como no estrangeiro e, no entanto, há pessoas que me apreciam por isso mesmo. Fregoli encantava o público com as suas artes de ilusionista.
Há lindas paisagens aqui, em redor de Berna. Um camponês, rapaz novo, ofereceu-me um copo de vinho. Andando por ali, avistei outros camponeses nos caminhos vizinhos caminhando como fazem as cegonhas; quem anda a pé permanece durante segundos apoiado numa só perna.
Comi uma almôndega de batata com mostarda que me soube divinalmente, o que não me impede de notar que num livro escrito na primeira pessoa o «eu» é, sempre que possível, uma figura modesta e não deve apresentar-se como autor. Pode, alguma vez, considerar-se alguém demasiado velho para ser capaz de gozar a beleza de uma poesia?
Aliás vai em breve aparecer aqui um torrãozinho de açúcar. Os editores fazem bem em conservar ligados a si os autores que têm também outras ocupações na vida.
A arte de ser alegre reside no poder de achar divertida a alegria dos outros. Antes de me sentar à secretária tenho sempre o cuidado de me arranjar escrupulosamente. Uma sessão prévia de ginástica também não faz mal nenhum.
Ao jantar, fiz uma corte descarada a uma dama; o marido veio logo ao ataque. Fiz todos os possíveis por não perceber o que ele dizia.
No cabaré, uma dançarina toda envolta em véus fazia uma dança e os véus ondulavam à sua volta. Deu-me a ilusão de estar na Birmânia.
Disse a uma rapariga: «Tu és uma criancinha e eu sou uma criança grande, não é assim?» Ela disse que sim com a cabeça. E conheço também uma marca de cigarros que me dão o ar de grande senhor e lançam um aroma delicioso. Aliás, aguentei ontem toda a tarde sem fumar. Chama-se a isto praticar a privação. Quem não for capaz de se privar, não poderá jamais conhecer um prazer profundo. Ouvi certa vez um jogador de cartas dizer: «Faz lá sair depressa a tua dama», e nesse mesmo momento havia algumas damas a sério que se passeavam lá fora.
Ouvi falar de uma mulher rica que andava sempre maldisposta; pelos vistos, ela oferecia de bom grado a sua má disposição a toda a gente, mas não a sua riqueza.
Atirei ao ar, para bem longe, o torrãozinho de açúcar. É espantoso como o teimoso não reapareceu, e quão vaidoso me senti eu.
Esvoaçavam na brisa azul uns belos cabelos soltos numa janela deslumbrante; por baixo dela passava alguém que parecia saído de um romance do século XVII.
Ele então fez-lhe a ela festinhas na nuca com um «pauzinho» de aperitivo, daqueles que se comem por vezes a acompanhar um copo de cerveja; ouviram-se sinos a acompanhar a cena e ele ficou ali sentado sem pensar em nada, excepto na possibilidade de isso acontecer um dia. Que o Sagrado nunca nos abandone!


Robert Walser, in "A Rosa", tradução de Leopoldina Almeida, edição da Relógio d'Água, Janeiro de 2004

os meus heróis:





Quinta-feira, Dezembro 23

I'm dreaming of a white Christmas

O Frank Sinatra é só para distrair, o calor é uma ilusão, a verdade é que há aqui um outro propósito, uma linha de pensamento, uma espiral. Começa em maçã: Maçã, Branca de Neve; Branca de Neve, Robert Walser; Robert Walser, Robert Walser; Robert Walser, Robert Walser; Robert Walser, Robert Walser,…

strangers talk only about the weather #8

a maçã, de Samira Makhmalbaf

Apples, A Silk Road Story

The ancient Greeks and Romans were the first people to domesticate the apple. Pliny the Elder, (a Roman nobleman and historian who died in the eruption of Mt. Vesuvius in 79 A.D.) wrote that the Romans cultivated twenty-three different varieties of apple. They brought some of these varieties with them when they invaded England, including the tiny Lady apple, which is still available in supermarkets at Christmastime.

Apples strongly exhibit the biological characteristic of heterozygosity. Each wild apple (Malus sierversii) contains approximately 5 seeds, each of which contains the genetic instructions for a distinctly different apple tree. Each tree will bear fruits that look and taste very different from those on the other trees, ranging in size from ping-pong balls to softballs and ranging in color from yellow to purple. The same is true of the domestic apple, Malus domestica. Apples planted from seeds will express a wide variety of traits and bear little resemblance to the parent apple.

[...]

Quarta-feira, Dezembro 22

Evolução da espécie? Qual?

[depois do almoço] o gato ficou deitado em cima da minha cama, a dormir ao sol ou, como diria o Agostinho da Silva, a "cumprir-se como gato". Eu voltei para o emprego para cumprir uma tarefa qualquer. Não percebo porque é que paramos a evolução, porque é que o gato nos passou à frente?

ícones

Não gosto do Pai Natal. Quando era miúda ele entrava nos meus pesadelos e raptava os meus pais. Nunca lhe perdoei a vilania.
Prefiro a doçura das personagens do presépio, principalmente as da periferia: os Reis Magos, que não pertencem à família mas trazem presentes (gostava de acrescentar um rei com uma cesta cheia de romãs, vermelhas, sumarentas e doces); e o burro. É uma das criaturas mais meigas que conheço, chama-se Balthazar:

Terça-feira, Dezembro 21

Os beijos de Ramón Gómez de la Serna, em sete lições

El primer beso es un robo.

Como daba besos lentos duraban más sus amores.

A veces un beso no es más que chewing gum compartido.

El beso es un paréntesis sin nada adentro.

Como con los sellos de correo sucede con los besos que los hay los que pegan y los que no pegan.

Daba besos de segunda boca.

El beso es hambre de inmortalidad.

[1. agradecimento e 2. aviso local]



[1.] Ah, hoje, se tivesse encontrado o carteiro, dava-lhe um beijo... dois. Entre outras preciosidades, agradeço o lobo, despachado de Anjos.


[2.] – Se queres fazer um blogue às escondidas, não faças um blogue.
Tens razão, desde o início. Senhoras e senhores, este blogue é, a partir de agora, do domínio publico.

Segunda-feira, Dezembro 20

strangers talk only about the weather #7

Aproveitei uma distração no trabalho e fui ao terraço. É bom trabalhar numa casa com terraço. Este abre-se para oriente: Valongo, Gondomar, Gaia, uma nesga do rio. Por cima da minha cabeça o céu está coberto de cirrus brancos e diáfanos, pinceladas largas e indolentes. Ao longe alguns cumulus escuros. Sobre a Igreja do Bonfim as nuvens são cor-de-rosa ou amarelas. E a lua é um "D" gordo.

Uma Rosa

Abrem-se ainda tardes como lagos
pálidos sobre os tectos d'ouro,
leve tremendo na quieta luz
a ânsia derramada nas árvores.
E não há mais memória ou pranto: só
um mover d' olhos no coração que acorda
do seu sonho de pedra e te revê,
claro fulgor de vida, maravilha
revelada e secreta da vida
que vive. E o céu é céu.
Uma rosa se abriu em qualquer ponto
do mundo e inebria todo o ar
do ocaso que se expande sobre o mundo.

Diego Valeri, traduzido por Pedro Silveira em "Mesa de Amigos"
da Assírio & Alvim, para a R.G.

Про чай

Baile na livraria*

Foi com um baile que Mário Cesariny apresentou o seu último livro «19 Projectos de Prémio ALdonso Ortigão». Provocou esse baile grandes indignações em certos meios intelectuais desta nossa «pequena» Lisboa...

– Mário Cesariny, como lhe ocorreu a ideia de dar um baile no lançamento do seu livro?
– Desculpe, não fui eu que dei o baile mas sim a Maria Alice e o Eduardo Ferreira, editores, que de concerto comigo, com o Mello e Castro e com a Cidália de Brito aderiram encantados à ideia. Parece que me limitei a ir ao encontro de um desejo comum, pois todos, e sobretudo a Maria Alice, foram magníficos na efectivação dessa tarde dançante.

– Mas houve um desejo, um motivo pessoal?
– Sou contra a leitura de livros nas livrarias. Dá mau aspecto. E desde que vi Allen Ginsberg lançando poemas a uma multidão frenética de muitos milhares de jovens fiquei céptico quanto às alegrias proporcionadas pelo lançamento de um livro entre nós. O cerimonial usado, com leitura de versos feita pelo poeta levado à presença solene de uma pseudocrítica de olho de goraz e passo de mula, faz mal a qualquer estado de saúde. Pelo contrário, um baile pode sempre ser um êxito, mesmo à escala caseira, pois organização e requisitos técnicos são de rigor mínimo, basta haver uns discos e trazer o corpo.

– Muita gente a dançar?
– Cheio de gente a dançar. E também de gente a não dançar. Desta última, cito-lhe dois casos. Um sacerdote lamentava, junto do amigo que nos apresentou, que as ordens recebidas o impedissem de bailar. Poderá ter falado assim por graça, por finura de espírito, mas a isso chamo eu um êxito e faço sinceros votos de que um tal lamento chegue a reinvindicação. Realmente, porque não hão-de os sacerdotes dançar nas livrarias? Depois de mortos não vão poder fazê-lo. Noutro sector, um pequeno representante da chamada Poesia 61 ficou todo o tempo à porta da rua (lado de dentro). Observando tão estranho procedimento fui ter com ele admoestando-o, dizendo-lhe que gozasse um pouco a vida, homenagem que o homem não entendeu, não aceitou, perseverando num mutismo de fazer recta paralela à imobilidade assumida. Aí, achei-o demais e chamei-lhe Poesia 16, que é o que realmente penso, sobretudo no caso do Gastão Cruz, daquilo a que o G. C. chama Poesia 61. A criatura, imagine a Teresa Horta, saiu pela porta fora! Teria mais que fazer, não duvido, mas o certo é que frustou sabiamente o meu desejo de dizer-lhe mais tarde que no Museu Municipal de Amarante, ou do Marco, ou em ambos ao mesmo tempo, está um quadro meu que lhe é dedicado.

– Desculpe. Porque diz em ambos ao mesmo tempo?
– O quadro é do engenheiro Pedro Aivellos que de quando em quando o muda de Museu.

– É um retrato?
– Bastante. Chama-se «Para o Túmulo de Gestão Cruz». Voltando à Quadrante, é claro que estas pequenas manchas de humidade não empanaram em nada a graça e a frescura da reunião. Estiveram nela o Cruzeiro Seixas, a viscondessa de Atougia, o Francisco Coutinho, o António Areal, o Armindo Rodrigues, o João Gaspar Simões, o Maurício de Macedo, a Isabel Meyrelles, o Francisco de Sousa Neves, a Dorita Castel-Branco, o Otelo Azinhais, o Fernando Luso Soares, o Mendes de Carvalho, o Germano Pereira da Silva, o Ruy Malho, o Francisco Esteves, a Jeanne e o João Pinto de Figueiredo, a Maria José Lencastre e o António Tabucchi, a Maria Cristina e o Alberto Pinheiro Torres, a Natália Correia, a Paula Almada Negreiros, o Dórdio Guimarães, o Rui Mário Gonçalves, a Regina Palla, o Fernando Ribeiro de Mello, a Wanda Ramos, o Mello e Castro, a Cidália de Brito, as minhas irmãs Luísa e Henriette. Mas quem a todos levou a palma foi o Fernando Grade, que valsou do primeiro ao último disco. Excepcional, merecia bem o Aldonso Ortigão!

– Quer dizer-nos alguma coisa sobre o seu livro?
– Não.

– E das palavras, parece que bastante ofensivas, de Nelson de Matos, a propósito do baile na livraria?
– Remeto ao passo de mula caracterizado supra. E a uma correcção: será verdade que tive um «reino» — quem é que o não teve neste País de monarcas? — mas não o é dizer-se que o tenha vendido: dei-o, sem nada em troca, repudiando até a gratidão (de mula) dos que em tal «reino» obtiveram postos. Foi isso no dia em que percebi que os meus amados súbditos não valiam um caracol. Queriam-me, a mim, para rei dos caracóis? Vão para as estacas do Castelo de S. Jorge! Para a Imprensa dos pequeninos! Para o Wisconsin, no Illinois!

– Tem qualquer outro lançamento em projecto?
– Um disco que gravei para a Philips com versos de 1942-49. E um livro que entreguei ao Ribeiro de Mello com cartas e desenhos colectivos de mais ou menos todos os surrealistas em português e de alguns outros que existem em Paris, Chicago e Amsterdam. Haverá baile, é evidente, mas como se trata de um livro não só meu, irei para o estilo quadrilha, com música de Satie e do primeiro livro do Schmol.


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* No lançamento do livro «19 Projectos de prémio Aldonso Ortigão seguidos de Poemas de Londres», edição Livraria Quadrante, Lisboa, 1971. Entrevista concedida a Maria Teresa Horta para o jornal A Capital, 4-8-1971
in as mãos na água a cabeça no mar, Assírio & Alvim, páginas 231 a 233

Domingo, Dezembro 19

Em casa dos meus pais

havia alguns livros. Não muitos, alguns: clássicos, de “aeroporto”, triviais, sem critério de escolha. Os meus pais liam pouco, o meu pai lia revistas e jornais, isso sim, a minha mãe não tinha tempo, andava sempre a correr, a arrumar, a tratar de todos nós. Mas inexplicavelmente havia esses livros espalhados, abandonados pelas estantes. Chegou uma altura em que me atirei a eles, a eito. Lembro-me da excitação que me provocou o “Crime e Castigo”. Devia ter quinze anos (alguns anos antes de ver o “Pickpocket”) e foi aí, nessa Rússia febril, que descobri o que a literatura podia ser. Seguiram-se outros clássicos, naquele tempo não sabia do que é que gostava, digamos que fui passando de um escritor a outro, pelas afinidades e pelo acaso. Entretanto comecei a comprar livros, quer dizer, a pedir. Os meus pais não punham reservas académicas e eu escolhia os contos de Edgar Allan Poe, o “Poeta Assassinado” de Appolinaire ou as aventuras de Blaise Cendrars. Um dia calhou a “pena capital” de Mário Cesariny, já não me recordo mas creio que nunca tinha lido antes nenhum poema dele. O que me terá levado a este livro? Uma entrevista ou uma fotografia num jornal? Não faço ideia, nem sequer pode ter sido a capa porque o escolhi às escuras, num catálogo que a minha mãe recebia da Livraria Portugal, de Lisboa, disso lembro-me. E um dia o livro chegou com o carteiro e não foi, não pode ter sido, o primeiro livro de poesia que li, claro que não. Mas foi. Se a data da edição está correcta, tinha dezasseis anos quando conheci o Mário Cesariny. A idade certa.
Esta é a história, segue-se o baile no andar de cima. (já é segunda-feira?)

Linhas cruzadas: on a day like this