Sábado, Dezembro 18

as mãos na água a cabeça no mar

É um dos títulos mais bonitos que conheço. É do Mário Cesariny. O livro reune algumas diatribes a meias com o Mário Henrique Leiria; artigos sobre escritores, poetas, pintores; explicação (e não só) do surrealismo; uma ou outra entrevista (não resisto a publicar, em breve, o fantástico "Baile na Livraria"); traduções de Sade, Octavio Paz, Henri Michaux; um diálogo de "Perseguição e Assassinato de Marat Pelos Doidos do Hospital de Charenton Sob a Direcção do Marquês de Sade" de Peter Weiss.
Nem sempre concordo com o Cesariny mas gosto sempre dele o que quer dizer que o que sinto é incondicional, está para além de qualquer coisa.
Como é que explico isto? Há, de facto, uma história.

Marianne: Boa noite



Tiram-nos tudo. Tenho saudades do canal arte, dos documentários, dos concertos e dos filmes, sobretudo dos filmes. Agora quase nem vejo televisão. Mas também me cansa andar sempre com o sobrolho franzido, a barafustar. Vou fingir que não vivo cá. Vou fingir que mais logo posso ver o Sarabande.

Nuvem de pó

No Vale das Crateras, uma ou duas vezes em cada cem anos, um vento, uma espécie de nuvem de pó, sopra do fundo da terra, e pelos funis enxutos das crateras sobe, lambendo como a língua dos gatos, por três dias, as casas e as faces dos habitantes daquele lugar. Então, todos perdem a memória: os filhos deixam de reconhecer os pais, as mulheres os maridos, as raparigas os namorados, as crianças os pais e tudo se torna um caos de sentimentos novos.
Depois cessa o redemoinho dentro das crateras e, lentamente, cada coisa volta ao seu lugar, não recordando ninguém o que, dentro da nuvem de pó, aconteceu nesses três dias.

Tonino Guerra, "Histórias para uma noite da calmaria", tradução de Mário Rui de Oliveira

Sexta-feira, Dezembro 17

Про Ветер

Jukebox

Quinta-feira, Dezembro 16

Aceitar o paradoxo

Numa entrevista já antiga (Folha de São Paulo, 19 de Abril de 1999), quase no fim, José Tolentino Mendonça disse esta frase formidável: A contradição é o que liberta mais energia. Se a gente não aceita o paradoxo, não inventa pensamento, nem poesia.

A infância de Herberto Helder

No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas

Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos

Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva

Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito

Eu era quase um anjo
escrevi relatórios
precisos
acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios

Isso foi antes
de aprender a álgebra


José Tolentino Mendonça, "Os Dias Contados", 1990

os meus heróis:



Tonino Guerra fotografado por José Tolentino Mendonça

Quarta-feira, Dezembro 15

Freefall

You're out on the ocean and you get pulled down
Freefall to the bottom
Like when you're drowning or falling asleep
You get turned around
And when you think you're swimming to the surface
You're swimming straight down.
Down to the bottom. All the way to the bottom.
...

Laurie Anderson

The Sky Over Manhattan



O céu é sempre igual, em todo o lado", disse o Miguel quando me ofereceu as três fotografias com nuvens sobre Nova Iorque, tiradas no princípio de Dezembro.

E agora? Como é que lhe explico que, pelo contrário, o céu é sempre diferente.

Terça-feira, Dezembro 14

Charles Simic & James Tate at The Carnegie Hall

Depois de anos e anos de investigação, mais de três mil folhas rabiscadas, duzentas e vinte e sete entrevistas, diversas comparações literário-estratégicas e outros raciocínios que, por não ser capaz de os compreender, nem menciono, pois bem, como dizia, depois disso tudo, um reputado especialista em poesia norte-americana contemporânea pôde por fim revelar ao mundo que o que aproxima Charles Simic de James Tate é... o jazz.

voltando ao James Tate, duas respostas de confiança:

«With all his reliance on chance, Tate has a serious purpose. He's searching for a new way to write a lyric poem... To write a poem out of nothing at all is Tate's genius. For him, the poem is something one did not know was there until it was written down... Just about anything can happen next in this kind of poetry and that is its attraction... Tate is not worried about leaving us a little dazed... He succeeds in ways for which there are few precedents. He makes me think that anti-poetry is the best friend poetry ever had.»

Charles Simic, in The New York Review of Books


«Tate refutes the idea of surrealism as remote from daily experience, a hermetic art for a privileged few. For him, surrealism is something very like the air we breathe, the unconscious mind erupting in one-on-one engagements with the life we live, every day.»

John Ashbery

e um exemplo prático:

Goodtime Jesus

Jesus got up one day a little later than usual. He had been dreaming so deep there was nothing left in his head. What was it? A nightmare, dead bodies walking all around him, eyes rolled back, skin falling off. But he wasn't afraid of that. It was a beautiful day. How 'bout some coffee? Don't mind if I do. Take a little ride on my donkey, I love that donkey. Hell, I love everybody.

James Tate, Riven Doggeries, 1979

Segunda-feira, Dezembro 13

Infância

Sonhos
enormes como cedros
que é preciso
trazer de longe
aos ombros
para achar
no inverno da memória
este rumor
de lume:
o teu perfume,
lenha
da melancolia

Carlos de Oliveira, Cantata
Trabalho Poético, Assírio & Alvim

sessão da noite | estreia *



«... No belíssimo "Silvestre" (...), João César Monteiro (...) recriou a história da donzela que foi à guerra e que para se fazer soldado se fez passar por mancebo. Sílvia volveu-se Silvestre, numa referência clara a "Sylvia Scarlett" de Cukor.

Recorrendo ao estúdio para recriar a Idade Média, tempo do seu filme, César Monteiro assinou a sua obra plasticamente mais bela, com admiráveis referências à pintura do século XV, flamenga e italiana. »

João Bénard da Costa, in Histórias do Cinema, col. Sínteses da Cultura Portuguesa

___________
* com os devidos agradecimentos ao querido patrocinador que me livra assim da vergonha de nunca ter visto este filme

Quem é James Tate?

O cinema liberta


Chuva em Serralves, fotografada pelo António Rebelo

Enquanto são aos milhares as pessoas que (a)correm à Paula Rego, só uns poucos aparecem a certos domingos, às quatro da tarde, para ver os filmes escolhidos pelos Filhos de Lumière. Quinze, ou vinte, acho que não chegámos aos trinta, para “O Trabalho Liberta?” de Edgar Pêra e, mudança de última hora, “The Navigator” de Buster Keaton.

A sessão foi óptima. O documentário do Pêra é muito estimulante e não é por acaso que não me saiem da cabeça as últimas palavras do Paulo Varela Gomes, que foram, mais ou menos estas: “o nosso grande objectivo na vida é estar deitado com um cigarro e uma cerveja ao lado mesmo que não haja nem cigarro nem cerveja.” Ou então o professor Agostinho da Silva dizendo que a vida devia ser gratuita.
Sobre Keaton não é preciso acrescentar nada, ele é um herói, sempre.
O Sabor do Cinema regressa no próximo ano. É um trabalho de resistência, diz Saguenail. Pois é.

Domingo, Dezembro 12

a cada dia que passa

as árvores confundem-se mais e mais com a sua própria sombra



Petr Zakharov, The “Trees” series, 2001