Sábado, Dezembro 11

Isto também me interessa



«Charlot é operário numa fábrica. O eterno insubmisso tornou-se um dos elos da engrenagem que é preciso seguir com docilidade de escravo. Mas Charlot está a mais num universo tão bem organizado. Abandona o lugar, obcecado pelos gestos automáticos que executa de manhã à noite. (...)
O que ele defende com tanta valentia em TEMPOS MODERNOS é a dignidade do homem.»

De 13 a 15 no Passos Manuel (já disse que esta é a sala de cinema mais bonita, mais sensual e mais cinematográfica do Porto?)

Isto interessa-me



«...o diletantismo cruel de Pierre Ravel, a fraqueza feminina de Marie Saint-Clair, a paixão um tanto cobarde de Jean Millet, o amor egoísta e profundo da mãe, tudo, até mesmo a falsa amizade das amiguinhas de Marie, até a gentileza interesseira do maître-d'hotel, são de uma crua verdade. »

Opinião Pública, no Passos Manuel

Sexta-feira, Dezembro 10

CLASSIFICADO

NOSTALGIA INCURÁVEL

«Troco urgentemente, mesmo com sobretaxas, a minha casa num quinto andar, T1, com alcova, cozinha equipada, vista para as colinas de Sas , situada na Praça de Joliot Curie, por uma casa num quinto andar, T1, com alcova, cozinha equipada, vista para as colinas de Sas , situada na Praça de Joliot Curie.»

István Örkény, "Histórias de 1 minuto"

strangers talk only about the weather #6

Pub. (à borla)

«A Obra completa de João César Monteiro em dvd é a primeira sugestão, na secção de dvd’s, da revista Les Inrockuptibles, numa edição totalmente dedicada às ofertas natalícias.»
in Atalanta Filmes

Quinta-feira, Dezembro 9

Não sei onde é que isto me leva

Um dos escritores que mais me fascina nos últimos tempos é o Thomas Bernhard. A cada livro a minha admiração cresce. Como é possível criar ainda algo assim tão poderoso, tão profundo? Comecei há uns dias a ler “Perturbação” (um dos seus primeiros romances, publicado em 1967 e editado cá pela Relógio d’Água em 1990). E porque é que ainda não tinha lido isto?

O narrador principal (há múltiplos narradores na história) é um rapaz de vinte e um anos, que estuda na Escola Superior de Minas em Leoben. A mãe já morreu, a irmã sofre de perturbações suícidas, o pai é um médico de aldeia, um bocado estranho, às vezes soturno, outras, clarividente. Num fim-de-semana, de regresso a casa, e apesar de ter prometido passar o dia com a irmã, ele é levado pelo pai no seu périplo pelos doentes. São quase todos casos desesperados. Há, por exemplo, aquele industrial que se isolou com a irmã num pavilhão de caça para escrever a grande obra, «provavelmente o resultado seria um único pensamento» dissera ele uma vez ao médico. Uma obra que ele constrói e destrói e é precisamente na destruição que percebe o seu progresso. O industrial é já uma espécie de náufrago, submergido pelos pensamentos puros, pelas palavras, querendo salvar apenas uma, a verdadeira, a única possível.

Mas, mais do que todos os outros, a grande personagem do livro é o Princípe. O seu longo e difícil monólogo ocupa mais de metade do romance. A decomposição da sua cabeça é narrada com um ritmo avassalador, tão caro a Bernhard. É como se rufassem tambores. O desespero, a agonia, o caos, uma descida às trevas ou, como explica o Princípe: "Há um emaranhado de fios dentro da minha cabeça". Como é que o Thomas Bernhard sabe?

“Perturbação” contém páginas “tão torturantes, que não posso jurar ter lido todas e também não sou capaz de ler todas”, foi o que Ingeborg Bachmann conseguiu escrever sobre o livro.

os meus heróis:

É belo porque é verdadeiro

No moinho dos Fochler havia uma fonte de água boa, disse o meu pai, e acrescentou: «O velho Fochler tem um quadro a óleo na parede do quarto». O meu pai achava que devia ter trezentos e cinquenta a quatrocentos anos. Não era uma gravura religiosa, antes pelo contrário, representava dois homens nus, de pé, de costas um para o outro e com as cabeças totalmente viradas, «cara contra cara». Admirava há muito esse quadro, que despertava nele os mais diversos pensamentos, «particularmente sinistros. Um dia, se o tirarem da parede, onde já está decerto há centenas de anos, se o levarem para fora daquele quarto horrível e o pendurarem numa parede nua e branca, então é que se revelará toda a sua beleza». E explicou-me que o quadro era extremamente repugnante e extremamente belo ao mesmo tempo. «É belo porque é verdadeiro», disse o meu pai.

“Perturbação” de Thomas Bernhard (página 83)
tradução de Leopoldina Almeida, edição da Relógio d’Água

Quarta-feira, Dezembro 8

E na minha alma vazia escuto



O disparo de Raymond Depardon em San Clemente.

O Circo

Dois atletas saltam de um lado para o outro da minha alma
aos gritos, a troçar da vida:
e não sei os seus nomes. E na minha alma vazia escuto
continuamente os trapézios a balançar. Dois
atletas saltam de um lado para o outro da minha alma
contentes por ela estar tão vazia.
E ouço
ouço no espaço sem sons
uma vez e outra vez os trapézios que rangem
uma vez e outra vez.
Uma mulher sem rosto canta de pé sobre a minha alma,
uma mulher sem rosto sobre a minha alma no chão,
a minha alma, a minha alma: e repito essa palavra
não sei se como uma criança chamando a sua mãe à luz,
em confusos sons e com prantos, ou muito simplesmente
para fazer ver que não tem sentido.
A minha alma. A minha alma
é como terra dura que calcam sem a ver
cavalos e carroças e pés, e seres
que não existem e de cujos olhos
brota o meu sangue hoje, ontem, amanhã. Seres
sem cabeça cantarão sobre o meu túmulo
uma canção incompreensível. E
dividirão entre si os ossos da minha alma.
A minha alma. O meu
irmão morto fuma um cigarro junto de mim.

Leopoldo María Panero, tradução de Joaquim Manuel Magalhães
in “Poesia Espanhola de Agora, volume I”, Relógio d’Água, Janeiro de 1997

Terça-feira, Dezembro 7

o facto positivo

Mas Ega, justamente, achava uma desgraça incomparável para o país esse imoral desacordo entre a inteligência e o carácter. Assim, ali estava o amigo Gonçalo, como homem de inteligência, considerando o Gouvarinho um imbecil.
– Uma cavalgadura – corrigiu o outro.
– Perfeitamente! E todavia, como político, você quer essa cavalgadura para ministro, e vai apoiá-la com votos e com discursos sempre que ela relinche ou escoucinhe.
Gonçalo correu lentamente a mão pela gaforinha, com a face franzida:
– É necessário, homem! Razões de disciplina e de solidariedade partidária. Há uns compromissos. O Paço quer, gosta dele.
Espreitou em roda, murmurou, colado ao Ega:
– Há aí umas questões de sindicatos, de banqueiros, de concessões em Moçambique. Dinheiro, menino, o omnipotente dinheiro!
E como Ega se curvava, vencido, cheio só de respeito – o outro, faiscando todo de finura e cinismo, atirou-lhe uma palmada ao ombro:
– Meu caro, a política hoje é uma coisa muito diferente! Nós fizemos como vocês,os literatos. Antigamente a literatura era a imaginação, a fantasia, o ideal. Hoje é a realidade, a experiência, o facto positivo, o documento. Pois cá a política em Portugal também se lançou na corrente realista. No tempo da Regeneração e dos Históricos, a política era o progresso, a viação, a liberdade, o palavrório. Nós mudámos tudo isso. Hoje é o facto positivo – o dinheiro, o dinheiro! o bago! a massa! A rica massinha da nossa alma, menino! O divino dinheiro!

in Os Maias [quase no fim do capítulo XV]

Segunda-feira, Dezembro 6

Reconstituição do crime*



[no filme Autografia] Miguel pergunta a Cesariny se ele não sente, ainda, de vez em quando, vontade de escrever.
"Nenhuma", responde Cesariny. "Para quê?... para quem?... escrevo, às vezes, algumas cartas".

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* no dia seguinte e de memória

As perguntas que não me saiem da cabeça:

Será que Corto encontra o tesouro de Alexandre, será que se cruza com Chevket. Será que salva o irascível Raspoutine?


Domingo, Dezembro 5

Perigo na Miguel Bombarda

No balcão da Assírio o Walter Benjamim faiscava. Fechei os olhos e saí. O contabilista já me avisou: não tenho tempo nem dinheiro para os livros que cobiço. Isto deve ter cura.

Os problemas da idade



Ou sou eu que já não tenho paciência para estas fitas ou então o 2046 é mesmo um pastelão xaporoso.
As imagens são bonitas, as raparigas e o herói também, mas o filme pareceu-me desconchavado. A música demasiado piegas, as câmaras lentas sem justificação, o romantismo falso, e por aí fora. Se fosse mais curto podia ser um video musical exótico e muito giro ou então, se elas usassem vestidos de um certo costureiro, uma reportagem de moda. Assim, não é nada.