Sábado, Dezembro 4
Porquê? Perdi alguma novidade?
Depois perguntou pelo Taveira. Esse lindo moço, contou o Ega, tinha agora por cima mais dez anos de Secretaria e de Chiado. Mas sempre apurado, já um bocado grisalho, metido continuamente com alguma espanhola, dando bastante a lei em S. Carlos, e murmurando todas as tardes na Havanesa, com um ar doce e contente: «Isto é um país perdido!!» Enfim, um bom tipozinho de lisboeta fino.
– E a besta do Steinbroken?
– Ministro em Atenas – exclamou Carlos – entre as ruínas clássicas!
in Os Mais [capítulo XVIII ]
– E a besta do Steinbroken?
– Ministro em Atenas – exclamou Carlos – entre as ruínas clássicas!
in Os Mais [capítulo XVIII ]
Sexta-feira, Dezembro 3
Jornais? Não, ando a seguir o país pelo Eça
– E diga-me outra coisa – prosseguiu o sr. Sousa Neto, com interesse, cheio de curiosidade inteligente. – Encontra-se por lá, em Inglaterra, desta literatura amena, como entre nós, folhetinistas, poetas de pulso?...
Carlos deitou a ponta do charuto para o cinzeiro, e respondeu, com descaro:
– Não, não há disso.
– Logo vi – murmurou Sousa Neto. – Tudo gente de negócio.
[...]
– Ó Ega, quem é aquele homem, aquele Sousa Neto, que quis saber se em Inglaterra havia também literatura? Ega olhou-o com espanto:
– Pois não adivinhaste? Não deduziste logo? Não viste imediatamente quem neste país é capaz de fazer essa pergunta?
– Não sei... Há tanta gente capaz... E o Ega radiante:
– Oficial superior de uma grande repartição do Estado!
– De qual?
– Ora de qual! De qual há-de ser?... Da Instrução Pública!
in Os Maias [no capítulo XII, na festa dos Gouvarinhos]
Carlos deitou a ponta do charuto para o cinzeiro, e respondeu, com descaro:
– Não, não há disso.
– Logo vi – murmurou Sousa Neto. – Tudo gente de negócio.
[...]
– Ó Ega, quem é aquele homem, aquele Sousa Neto, que quis saber se em Inglaterra havia também literatura? Ega olhou-o com espanto:
– Pois não adivinhaste? Não deduziste logo? Não viste imediatamente quem neste país é capaz de fazer essa pergunta?
– Não sei... Há tanta gente capaz... E o Ega radiante:
– Oficial superior de uma grande repartição do Estado!
– De qual?
– Ora de qual! De qual há-de ser?... Da Instrução Pública!
in Os Maias [no capítulo XII, na festa dos Gouvarinhos]
Quinta-feira, Dezembro 2
23
una mirada desde la alcantarilla
puede ser una visión del mundo
la rebelión consiste en mirar una rosa
hasta pulverizarse los ojos
Alejandra Pizarnik, Árbol de Diana, 1962
in Poesía completa, Editorial Lumen
puede ser una visión del mundo
la rebelión consiste en mirar una rosa
hasta pulverizarse los ojos
Alejandra Pizarnik, Árbol de Diana, 1962
in Poesía completa, Editorial Lumen
strangers talk only about the weather #4
As condições metereológicas foram derrotadas. Aqui dentro o dia está assim, bonito:
Sweet Field #10 , de Frank Grisdale
Sweet Field #10 , de Frank Grisdale
Quarta-feira, Dezembro 1
fora de cena #2
À espera de Godot, tragicomédia em dois actos, de Samuel Beckett:
Fim do primeiro acto:
Estragon: Well, shall we go?
Vladimir: Yes, let's go.
They do not move.
Curtain.
Fim do segundo acto:
Vladimir: Well? Shall we go?
Estragon: Yes, let's go.
They do not move.
Curtain.
[links: primeiro acto | (audio) | segundo acto ]
Fim do primeiro acto:
Estragon: Well, shall we go?
Vladimir: Yes, let's go.
They do not move.
Curtain.
Fim do segundo acto:
Vladimir: Well? Shall we go?
Estragon: Yes, let's go.
They do not move.
Curtain.
[links: primeiro acto | (audio) | segundo acto ]
Terça-feira, Novembro 30
Homenagem a Tchekov
O pôr-do-sol, abandonando a varanda, agarra-se ao samovar.
Mas o chá está frio, ou já acabou; no prato da compota há uma mosca.
E o pesado 'chignon' torna mais imponente o rosto de Varvara
Andreevna, especialmente de perfil. A blusa engomada que veste está
abotoada até ao queixo. Deitado no canapé, de cachimbo apagado,
Vialtsev faz ranger o jornal com o discurso de Nedobrovo.
Varvara Andreevna, por baixo do frufru das saias não-traz-
-na-da.
O piano de cauda da sala de estar tende a orelha para a seca ovação
das folhas do pilriteiro. Os parcos acordes ao acaso
do estudante Maximov acordam as cigarras do jardim.
No céu diáfano, exemplificando o que será a aviação,
patos voam em direcção à Alemanha. No escritório,
sem acender a luz, Dunia lê às escondidas a carta de Nikki.
De bonita não tem nada, mas que curvas, rapaz! É muito diferente
dos livros.
É por esta razão que Erlich estremece, quando Kartachov o chama
para uma partida de cartas com ele, Prigogine e o doutor.
Ah, mas sacudir uma mosca é mais simples do que espantar
a imagem da sobrinha nua que se refugiou no divã
de couro para fugir aos mosquitos e ao calor que invadem tudo.
Prigogine dá cartas como come, com a barriga em cima da mesa.
Pode-se perguntar ao senhor doutor o que é este sinalzinho?
Claro, mas tenha a fineza.
Opressivo fim de tarde de Verão; horas míopes
em que as formas e os objectos perdem a nitidez.
"Com o seu fato de linho, Piotr Ilitch, até se confunde
com uma estátua do fundo da alameda." "Eu?"
Erlich finge embaraço, limpando com o lenço o 'pince-nez'.
Mas é verdade, no crepúsculo, o perto confunde-se com o longe.
E Erlich tenta lembrar-se de quantas vezes teve Natalia
Fiodorovna em sonhos.
Mas ela ama mesmo o doutor Vialtsev? As árvores agarram-se
às janelas da dacha abertas de par em par, como moçoilas da aldeia.
A elas é que se deve perguntar, aos seus ramos pejados de corvos;
especialmente ao olmo que entra no quarto de dormir de Varvara:
é o único que vê a anfitriã só de meias.
Lá fora, Dunia propõe um mergulho nocturno no lago.
Erguer-se, largar a mesa! Custa, quando se tem na mão
os trunfos todos.
E como são cada vez mais as estrelas no céu, o coro
das cigarras no jardim parece ser a voz delas.
Talvez seja isso mesmo. Mas onde raio vim parar?
pensa Erlich, desapertando o cinto junto à porta da casinha.
Até à estação são trinta verstas; algures um galo tenta o seu 'lied'.
O estudante, de casaca desbotoada, censura a indolência dos ministros.
Também na província ninguém vai para a cama com ninguém,
como em todo o cosmos.
Iosif Brodskii, 1993
"Paisagem com Inundação", Cotovia, 2001
Mas o chá está frio, ou já acabou; no prato da compota há uma mosca.
E o pesado 'chignon' torna mais imponente o rosto de Varvara
Andreevna, especialmente de perfil. A blusa engomada que veste está
abotoada até ao queixo. Deitado no canapé, de cachimbo apagado,
Vialtsev faz ranger o jornal com o discurso de Nedobrovo.
Varvara Andreevna, por baixo do frufru das saias não-traz-
-na-da.
O piano de cauda da sala de estar tende a orelha para a seca ovação
das folhas do pilriteiro. Os parcos acordes ao acaso
do estudante Maximov acordam as cigarras do jardim.
No céu diáfano, exemplificando o que será a aviação,
patos voam em direcção à Alemanha. No escritório,
sem acender a luz, Dunia lê às escondidas a carta de Nikki.
De bonita não tem nada, mas que curvas, rapaz! É muito diferente
dos livros.
É por esta razão que Erlich estremece, quando Kartachov o chama
para uma partida de cartas com ele, Prigogine e o doutor.
Ah, mas sacudir uma mosca é mais simples do que espantar
a imagem da sobrinha nua que se refugiou no divã
de couro para fugir aos mosquitos e ao calor que invadem tudo.
Prigogine dá cartas como come, com a barriga em cima da mesa.
Pode-se perguntar ao senhor doutor o que é este sinalzinho?
Claro, mas tenha a fineza.
Opressivo fim de tarde de Verão; horas míopes
em que as formas e os objectos perdem a nitidez.
"Com o seu fato de linho, Piotr Ilitch, até se confunde
com uma estátua do fundo da alameda." "Eu?"
Erlich finge embaraço, limpando com o lenço o 'pince-nez'.
Mas é verdade, no crepúsculo, o perto confunde-se com o longe.
E Erlich tenta lembrar-se de quantas vezes teve Natalia
Fiodorovna em sonhos.
Mas ela ama mesmo o doutor Vialtsev? As árvores agarram-se
às janelas da dacha abertas de par em par, como moçoilas da aldeia.
A elas é que se deve perguntar, aos seus ramos pejados de corvos;
especialmente ao olmo que entra no quarto de dormir de Varvara:
é o único que vê a anfitriã só de meias.
Lá fora, Dunia propõe um mergulho nocturno no lago.
Erguer-se, largar a mesa! Custa, quando se tem na mão
os trunfos todos.
E como são cada vez mais as estrelas no céu, o coro
das cigarras no jardim parece ser a voz delas.
Talvez seja isso mesmo. Mas onde raio vim parar?
pensa Erlich, desapertando o cinto junto à porta da casinha.
Até à estação são trinta verstas; algures um galo tenta o seu 'lied'.
O estudante, de casaca desbotoada, censura a indolência dos ministros.
Também na província ninguém vai para a cama com ninguém,
como em todo o cosmos.
Iosif Brodskii, 1993
"Paisagem com Inundação", Cotovia, 2001
Influências da literatura russa
Preciso de substituir a cama, comprar um móvel para o quarto de banho, um tapete novo para a sala e muitas outras tralhas mas o que me apetece mesmo é encontrar o samovar perfeito.
Segunda-feira, Novembro 29
Domingo, Novembro 28
Um certo tipo de paixão
Apaixonei-me por Austerlitz. Ele não é uma personagem que provoque sentimentos arrebatadores. Quanto muito, inspira compaixão, piedade, ou nem isso. Não é bonito nem feio, é calado. Inacessível, é como o descreve Marie de Verneuil quando desiste dele, em Marienbad. Nebuloso, parece-me, quase não se vê, quase nada e no entanto perturba-me. Conforme avançava no livro sentia cá por dentro "isto" a crescer mas foi só há bocado, quando ele entrou no alfarrabista junto ao British Museum, na página cento e trinta e dois, quando ouviu aquelas vozes que saíam do pequeno rádio, quando o passado tomou conta do seu corpo, quando ficou branco como a cal, imóvel como uma estátua, como uma das colunas que ele fotografa, foi aí que comecei a chorar e percebi que gosto dele, de uma forma incalculável.
strangers talk only about the weather #3
...
Come closer don’t be shy
Stand beneath a rainy sky
The moon is over the rise
Think of me as a train goes by
Clear the thistles and brambles
Whistle didn’t he ramble
Now there’s a bubble of me
And its floating in thee
Stand in the shade of me
Things are now made of me
The weather vane will say
It smells like rain today
God took the stars and he
Tossed ‘em can’t tell
The birds from the blossoms
You’ll never be free of me
He’ll make a tree from me
Don’t say good bye to me
Describe the sky to me
And if the sky falls mark
My words – we’ll catch mocking birds
Lay your head where
My heart used to be
Hold the earth above me
Lay down in the green grass
Remember when you loved me
ascolta: 11. Green Grass
Come closer don’t be shy
Stand beneath a rainy sky
The moon is over the rise
Think of me as a train goes by
Clear the thistles and brambles
Whistle didn’t he ramble
Now there’s a bubble of me
And its floating in thee
Stand in the shade of me
Things are now made of me
The weather vane will say
It smells like rain today
God took the stars and he
Tossed ‘em can’t tell
The birds from the blossoms
You’ll never be free of me
He’ll make a tree from me
Don’t say good bye to me
Describe the sky to me
And if the sky falls mark
My words – we’ll catch mocking birds
Lay your head where
My heart used to be
Hold the earth above me
Lay down in the green grass
Remember when you loved me
ascolta: 11. Green Grass
O meu tipo
Já passei os 34, vivo no Porto mas não conheço as salas do Arrábida ou do Norte Shopping, ainda não percebi a que classe pertenço e se sou algum quadro, devo ser aquele do Duchamp, descendo as escadas. Sou um zero vírgula qualquer coisa nas estatísticas. Continuo, contudo, à revelia e com persistência, a visitar as salas mais sombrias e abandonadas. Il est des salles de cinéma de banlieue vides comme des hangars, et belles comme un embarcadère du rêve...


