fim-de-semana com MONTAIGNE



Empresta-te aos outros; dá-te a ti próprio
ABUSO
1. Só podemos abusar das coisas que são boas.
2. Todos os abusos do mundo resultam do facto de nos ensinarem a ter medo de manifestarmos a nossa ignorância.
§
ALMA
1. As almas dos imperadores e dos sapateiros são fundidas no mesmo molde.
2. A alma que alberga a filosofia deve, a bem da sua saúde, tornar são também o corpo.
§
CORAGEM
Seguirei o bom partido até à fogueira, mas apenas se puder.
§
COUVE
Quero (...) que a morte me encontre a plantar as minhas couves, despreocupado com ela, e ainda mais com a minha horta imperfeita.
§
CU
No trono mais alto do mundo, continuamos a estar sentados no nosso cu.
§
FELICIDADE
Os homens, por muito que lhes sorria a sorte, não se podem considerar felizes antes de ter passado o seu último dia de vida, dada a incerteza e a variedade das coisas humanas, que, com um ligeiro movimento, se transformam de um estado noutro, bem diferente.
§
FILOSOFIA
O espanto é o fundamento de toda a filosofia; a inquirição, o seu progresso; a ignorância, a sua essência.
§
LÓGICA
Varrão e Aistóteles (...) terão tirado da Lógica algum alívio para a gota?
§
MELANCÓLICO
Facilmente imagino que há um propósito, um consentimento e um comprazimento em nos impregnarmos de melancolia, sem falar do desejo de suscitar compaixão, que se pode ainda acrescentar. Há uma sombra de gulodice e de elegância que nos sorri e nos lisonjeia no próprio seio da melancolia.
§
VERDADE
Que verdade encerram estas montanhas, que é mentira para o mundo que existe para lá delas?
§
VOLUPTUOSIDADE
Digam o que disserem (os filósofos), na própria virtude, o fim último do nosso desígnio é a voluptuosidade. Comprazo-me em matraquear-lhes os ouvidos com esta palavra que lhes desagrada tanto.
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[excertos de Pequeno Vade-Mécum, editado pela Antígona]







