Sábado, Novembro 27

fim-de-semana com MONTAIGNE


Empresta-te aos outros; dá-te a ti próprio

ABUSO

1. Só podemos abusar das coisas que são boas.

2. Todos os abusos do mundo resultam do facto de nos ensinarem a ter medo de manifestarmos a nossa ignorância.

§


ALMA

1. As almas dos imperadores e dos sapateiros são fundidas no mesmo molde.

2. A alma que alberga a filosofia deve, a bem da sua saúde, tornar são também o corpo.

§


CORAGEM

Seguirei o bom partido até à fogueira, mas apenas se puder.

§


COUVE

Quero (...) que a morte me encontre a plantar as minhas couves, despreocupado com ela, e ainda mais com a minha horta imperfeita.

§


CU

No trono mais alto do mundo, continuamos a estar sentados no nosso cu.

§


FELICIDADE

Os homens, por muito que lhes sorria a sorte, não se podem considerar felizes antes de ter passado o seu último dia de vida, dada a incerteza e a variedade das coisas humanas, que, com um ligeiro movimento, se transformam de um estado noutro, bem diferente.

§


FILOSOFIA

O espanto é o fundamento de toda a filosofia; a inquirição, o seu progresso; a ignorância, a sua essência.

§


LÓGICA

Varrão e Aistóteles (...) terão tirado da Lógica algum alívio para a gota?

§


MELANCÓLICO

Facilmente imagino que há um propósito, um consentimento e um comprazimento em nos impregnarmos de melancolia, sem falar do desejo de suscitar compaixão, que se pode ainda acrescentar. Há uma sombra de gulodice e de elegância que nos sorri e nos lisonjeia no próprio seio da melancolia.

§


VERDADE

Que verdade encerram estas montanhas, que é mentira para o mundo que existe para lá delas?

§


VOLUPTUOSIDADE

Digam o que disserem (os filósofos), na própria virtude, o fim último do nosso desígnio é a voluptuosidade. Comprazo-me em matraquear-lhes os ouvidos com esta palavra que lhes desagrada tanto.


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[excertos de Pequeno Vade-Mécum, editado pela Antígona]

Sexta-feira, Novembro 26

The Best Time Of The Day

Cool summer nights.
Windows open.
Lamps burning.
Fruit in the bowl.
And your head on my shoulder.
These the happiest moments in the day.

Next to the early morning hours,
of course. And the time
just before lunch.
And the afternoon, and
early evening hours.
But I do love

these summer nights.
Even more, I think,
than those other times.
The work finished for the day.
And no one who can reach us now.
Or ever.

Raymond Carver

The Blue Hour



© Joel Meyerowitz (Setembro 1982)

Quinta-feira, Novembro 25

969 667 823

Ao ver os noticiários da hora do almoço constatei, com um misto de incredulidade e satisfação, que a questão que interessa a todos os portugueses neste preciso momento é descobrir: qual o sítio mais indicado para comprar "As Não-Metamorfoses" do Alexandre Andrade, sem levantar suspeitas e antes que seja tarde?

- Na padaria da rue Lebouteux em Paris? Misturado com os sablés?
- No Chile? E se a terra treme?
- Na esplanada do Palácio? Devo arrastar a asa aos pavões?

Vai, e dá-lhes trabalho!



Saio de casa pouco antes das nove. No quiosque do café da Praça das Flores, em vez de "Casablanca" escolho "As Recordações da Casa Amarela". Os olhares do Bogart são muito maçadores, prefiro o ar nobre/louco em ruínas de João de Deus. Além disso o filme abre com um dos travellings mais bonitos que já vi sobre Lisboa e depois, se não me engano, segue-se aquela conversa sobre os percevejos com uma dona Violeta sovina e austera (Manuela de Freitas, exemplar) e ainda, lá mais para diante, os diálogos inesquecíveis com o polícia graduado (Henrique Viana) ou com Lívio (Luís Miguel Sintra). É um dos meus filmes preferidos de João César Monteiro (custou apenas seis euros, é o décimo de uma colecção sobre cinema português que acompanha uma revista ou um jornal, não faço ideia qual) e é imprescindível.

Levanto o nariz para leste, as nuvens aproximam-se. Nove horas, chego ao escritório que, por coincidência, é também uma casa antiga, amarela, com buganvílias, glicínias, jasmim trepando pelas paredes e peixes num pequeno tanque. Decido baptizar o vermelho. Chamar-se-à a partir de agora Lívio. Vai, e dá-lhes trabalho!, é o que ele me dirá quando eu precisar de conselhos. Vou buscar um café às traseiras, espreito a vizinhança, passo os olhos pelo jornal. Já perto das nove e meia ouço a "ostra" escolhida pelo Pedro Coelho na Antena 2: "O jantar" de Robert Walser. Há dias que começam bem, mesmo quando o céu se cobre de nuvens. Que nuvens?

Ao sair, depus na mão do criado uma nota de cem. Ele devolveu-ma dizendo que estava habituado a valores mais elevados. Pedi-lhe que se contentasse com menos, só desta vez. Lá fora, esperava-me um carro que me levou dali, e assim fui e ainda hoje vou.

São todas bonitas

«Um narciso branco do Inverno, uma folha de castanheiro-da-Índia, uma rosa, e uma leguminosa da Serra de Sintra, chamada "Ononis cintrana", classificada pela primeira vez por Brotero

Quarta-feira, Novembro 24

os meus heróis:

This is the real link:

Krapp's Last Tape, Part I | Krapp's Last Tape, Part II

fora de cena #1

Hamm - Conheci um louco que julgava que tinha chegado o fim do mundo. Pintava. Eu apreciava-o muito. Costumava ir visitá-lo ao manicómio. Pegava-lhe na mão e levava-o até à janela. Olha! Ali! Como cresce o trigo! E ali! Olha! As velas dos pescadores! Toda essa beleza! (Pausa) Ele libertava-se da minha mão e voltava para o seu canto. Assustado. Só tinha visto cinzas. (Pausa) Só ele se tinha salvo. (Pausa) Esquecido. (Pausa) Parece que o caso não é... não é assim tão... tão raro.

Clov - Um louco? Quando foi isso?

Hamm - Oh, há muito tempo, muito tempo. Tu ainda não tinhas nascido.

Clov - Que belos tempos esses!

Pausa. Hamm tira o solidéu.

Hamm - Eu gostava muito dele. (Pausa. Volta a pôr o solidéu. Pausa.) Pintava

Clov - Há tantas coisas terríveis.

Hamm - Não, não, já não há tantas. (Pausa) Clov.

Clov - Diz.

Hamm - Não achas que isto já durou demais?

Clov - Sim. (Pausa) O quê?

Hamm - Es... este... assunto.

Clov - Sempre achei. (Melancólico) Tu não?

Hamm (Pausa) - Então é um dia como outro qualquer.

Clov - Enquanto durar. (Pausa) Toda a vida as mesmas inépcias.


Samuel Beckett, "Fim de Partida"

Terça-feira, Novembro 23

USA, New York, Times Square, 1999



© Stuart Franklin / Magnum Photos

Escribir, delirar y soñar es la única defensa

- En su último libro, la poesía es a la vez la pura vida y la enemiga de la vida. ¿Es la salvación o es la condena?

Leopoldo María Panero: Aquí dentro [hospital psiquiátrico de Las Palmas] es la única esperanza. Escribir es todo lo que se puede hacer en un manicomio. Aquí te das cuenta de que Kafka es un escritor realista. Como Beckett, del que un loco me ha robado los poemas. La suya es una escritura inhumana. De todos modos, después de Pound en poesía y de Joyce en novela -y eso que los poemas que intercala en el Ulises son muy cursis- se ha terminado la literatura y sólo queda un libro por interpretar: el Apocalipsis. Todo lenguaje es un sistema de citas. Toda escritura es palimpsesto. Pero la única esperanza.


retirado dos arquivos de babelia

Un loco tocado de la maldición del cielo

Un loco tocado de la maldición del cielo
canta humillado en una esquina
sus canciones hablan de ángeles y cosas
que cuestan la vida al ojo humano
la vida se pudre a sus pies como una rosa
y ya cerca de la tumba, pasa junto a él
una princesa.

Leopoldo María Panero, in "Poesía" 1970 - 1985

Segunda-feira, Novembro 22

strangers talk only about the weather #2



São as nuvens de fim da tarde sobre Santa Cruz da Graciosa, no Verão passado. Hoje está frio e tenho ainda mais saudades da "minha" casa do sotão, encostada ao Monte da Ajuda. Às vezes penso que lá a vida seria mais fácil.

Domingo, Novembro 21

O Tempo Aprazado

Vêm aí dias difíceis.
O tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Em breve terás de atar os sapatos
e recolher os cães nos casais da lezíria,
pois as vísceras dos peixes
arrefeceram ao vento.
Mortiça arde a luz dos tremoceiros.
O teu olhar abre caminho no nevoeiro:
o tempo até ver aprazado
assoma no hoizonte.

Do outro lado enterra-se a amante,
a areia sobe-lhe pelo cabelo a esvoaçar,
corta-lhe a palavra,
impõe-lhe silêncio,
acha-a mortal
e pronta para a despedida
depois de cada abraço.

Não olhes em volta.
Ata os sapatos.
Recolhe os cães.
Lança os peixes ao mar.
Extingue os tremoceiros!

Vêm aí dias difíceis.

Ingeborg Bachmann, "O Tempo Aprazado"
Gato Maltês #28, Assírio & Alvim

Há um mal(-estar) austríaco?

Não sei se há um mal-estar austríaco. Apetece-me dizer que sim, que de Thomas Bernhard, a Elfriede Jelinek ou a Michael Haneke, ou ainda mais para trás, podemos traçar uma linha realista, depressiva e angustiante. Mas tenho dúvidas, não seremos nós que escolhemos as pistas que nos levam às conclusões que queremos? Não se trata acima de tudo de um mal(-estar) do mundo? Haverá mesmo características geográficas e culturais que nos permitam dizer que é precisamente dali que sai este grito em baixo contínuo?
Não sei responder, a questão fica em aberto.

um sonho de Dürer


Dürer, A Visão, Kunsthistorisches Museum, Viena, Áustria

...
Ficou-nos, no entanto, de um homem do século XVI o relato extraordinário de um sonho que é só um sonho, acompanhado ainda por cima de um esboço. Encontramo-lo do Diário de Dürer. Eis o relato que o artista ao acordar nos deixou do seu sonho:

«Na noite de quarta para quinta-feira depois de Pentecostes (7-8 de Junho de 1525), vi em sonhos o que representei neste esboço: uma multitude de trombas de água caindo do céu. A primeira atingiu a terra a uma distância de quatro léguas: o abalo e o ruído foram aterradores e toda a região ficou inundada. Fiquei tão impressionado que acordei. Depois as outras trombas de água, assustadoras em violência e em número, atingiram a terra, umas mais longe, outras mais perto. Caíam de tão alto que pareciam descer lentamente, mas, quando a primeira tromba se aproximou da terra, a sua queda tornou-se tão rápida e acompanhada de um tal barulho e vendaval que acordei todo a tremer e levei muito tempo a recompor-me. Assim que me levantei pintei o que aqui se vê. Deus encaminha tudo pelo melhor.»

Este sonho impressiona pela ausência total de símbolos.


Marguerite Yourcenar, “O TEMPO esse grande escultor”
tradução de Helena Vaz da Silva, edição da Difel

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"A Visão" de Dürer aparece duas (ou três?) vezes n' O Tempo do Lobo. É uma reprodução que está colada num painel, no meio de outras imagens, no escritório da estação de comboio onde eles aguardam. Não é por acaso, claro.

O Tempo do Lobo

é um filme difícil de aguentar. É um filme feito de silêncios e elipses e, acima de tudo, arrisco, de verdade. Tudo que vemos é tão credível, sem lugares comuns, sem efeitos, sem melodrama. É um filme seco. Felizmente o realizador cria a distanciação necessária para evitar uma enchurrada de lágrimas. O filme começa com um golpe duro e inesperado que nos encosta à parede e a impressão que tenho é mesmo essa, parece que vi todo o filme, duas horas, encostada a um muro, a engolir em seco, estupefacta como o pequeno Benny. Será que um dia os mortos ressuscitarão? Resta-nos tão pouco (mesmo de nós próprios) quando tudo está perdido: uma cassete com música, um cigarro, um papel e um lápis, um sacríficio, a leve esperança que um comboio chegue.

Numa entrevista, Michael Haneke explica que foi buscar o título ao "Codex Regius", o mais antigo poema alemão e mais precisamente ao "Song of the Sightseer", que descreve um tempo antes do "Ragnarök", o fim do mundo.

Os três posts que se seguem (para cima) são ainda sobre o filme. Imprescindível? Será esse o adjectivo para "O Tempo do Lobo"? Extraordinário? Como eu gostava de encontrar a palavra certa.