Sábado, Novembro 20

Sábado à tarde

No café, enquanto a televisão debita o Nelson Ned (... Mas tudo passa tudo passará / E nada fica / Nada ficará / Só se encontra a felicidade / Quando se entrega o coração...) revivo o meu momento à Duras: se em vez do café houvesse um campari e se fizesse calor...
- O quê? Escrevias um tratado sobre canções pirosas e corações despedaçados? Deixa-te disso.
Agradeço o conselho, abandono o meu ambicioso projecto literário e acendo um cigarro.

- Vamos à Praça Velasques?
Passo os olhos pelas bancas de velharias à cata de um livro qualquer. Encontro o Cesariny demasiado caro. Não compro mas roubo-lhe algumas palavras sobre Pessanha, também ele adora o "Branco e Vermelho", sorrio da cumplicidade e anoto na cabeça que tenho que rever o filme do Miguel Gonçalves, gostei tanto dele. Não descubro nenhum Pavese, nenhuma raridade. Por cinco euros cedo à "Visita de Velha Senhora" (Portugália, 1964, em bom estado), uma peça de Friedrich Dürrenmatt. Cada vez me apetece mais ler teatro.

Os críticos dizem mal mas eu quero ver "O Tempo do Lobo", de Michael Haneke. Dos recortes dos jornais guardei duas frases:
Há um mal(-estar) austríaco?
E é Inverno e faz cada vez mais frio...
Em todo o lado.

filmes que eu gostava de voltar a ver

Anthony é uma personagem* de Subway Riders, de Amos Poe. Num texto que descobri, por acaso, em "Um Quarto cheio de Espelhos", João Miguel Fernandes Jorge escreve sobre o filme.

É um filme nocturno, lembro-me apenas do saxofone, dos azuis e vermelhos. Mas agora descubro esta frase de Anthony, citada por Fernandes Jorge: "A casa é onde temos o coração".

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*Anthony é também um assassino, para além do bem e do mal, uma espécie de personagem de Dostoievsky deambulando em Nova Iorque

Sexta-feira, Novembro 19

1ª Proposta para a inauguração oficial da Casa da Música*



«The Tiger Lillies, a UK-based “freak-cabaret trio”, sometimes perform in full clown make-up or with members dressed as pigs. Lead singer and accordionist Martyn Jacques, sings odes to the dispossessed and deranged in an eerie falsetto while the other two members accompany with upright bass and percussion. Their songs channel the spirit of punk with a dash of ska and mix in the passion of chansons, while reviving forgotten gypsy music and the songs of troubadours.»

New Sounds (emissão de 03.11.2004) © WNYC

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* prevista para 14 de abril de 2005

Quinta-feira, Novembro 18

O meu encantador de serpentes


Camilo Pessanha (à esquerda, afagando o cão) com João Pereira Vasco © Instituto Camões 2004

Nos poemas de Camilo Pessanha há música mas há também, mais profundo ainda, uma repetição hipnótica, encantadora (por via do ópio, talvez), que nos transporta para um outro lado. Por exemplo, no poema "Branco e vermelho" que começa assim:

A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e de imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaimento.

Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Fez-se em redor de mim.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso...
Que delícia sem fim!

...

[o poema pode (e deve) ser lido na íntegra aqui.]

é de mim

ou a tradução de "Austerlitz" de W. G. Sebald é desleixada (assim como a revisão e a impressão)? Que pena, Sebald merecia muito mais.

Ainda estou no princípio das duzentas e setenta e quatro páginas mas já percebi o modo como ele se aproxima de Thomas Bernhard e ainda o modo como se afasta. Fascinante, uma, duas, muitas vezes.

Quarta-feira, Novembro 17

Temperatura das cores

[explicação não científica]

Tenho duas camisolas idênticas. O mesmo modelo, a mesma matéria-prima, diferem apenas na cor: uma é castanha e a outra vermelha escura. A vermelha é sempre a mais quente.

Regras da casa

#1: neste blogue é permitido fumar!

«I’m a heavy smoker. I’ve smoked ever since I’ve painted. I discovered one day, in a science magazine, that smoking had a beneficial effect on concentration. And it’s true that helps me concentrate on my work. I don’t understand how the Renaissance painters managed to paint without smoking…»

Balthus, In his own words, © Assouline

Terça-feira, Novembro 16

Será que a grandeza literária é ainda possível?

Hoje, se passar por uma livraria (e vou fazer tudo por isso), sei que não resistirei a Austerlitz de W.G. Sebald.

da beleza



Além de recusarem o visual, os últimos filmes de Bresson renunciam também ao «bonito». Nenhum dos seus actores não-profissionais são bonitos num sentido exterior. A primeira reacção, ao ver Claude Laydu (o padre de Journal d’un curé de campagne), François Leterrier (Fontaine de Un condamné à mort s’est échappé), Martin Lassalle (Michel, em Pickpocket), e Florence Carrez (Jeanne, em Le procès de Jeanne d’Arc), é achá-los feios. Depois, a partir de um certo ponto qualquer, começamos a ver os rostos como extraordinariamente belos.

Susan Sontag, "O estilo espiritual nos filmes de Robert Bresson" in Contra a Interpretação (e outros ensaios), Gótica, Março de 2004

Segunda-feira, Novembro 15

de Variações Elegíacas:

I
Wer, wenn ich schriee

Quem, se eu gritar
me concede
a profundeza inversa deste céu
que ao fim da tarde
eu vejo da minha janela
contemplando os anjos
que as nuvens imitam?

Alguém me ouve se eu gritar?

Oiço vozes
mas são vozes inventadas
porque é inútil perscrutar o silêncio
e por isso vos reinvento
a cada pancada do meu coração
a cada pancada surda
que não repercute
no ímpeto claro do vosso desenho fantástico
no alado lado da vossa impossibilidade.

Se eu gritar
alguém me ouve
em todas estas coisas?
Nenhum anjo
escuta o meu grito
que não penetra a noite
e só encontra o eco de nenhum desejo

E lançando de meus braços o desejo
não invejo
admiro
a sufocante beleza deste ocaso
cheio de nuvens velocíssimas
e tudo o que eu sinto
é tão imenso
como este ocaso
dantesco
tiepolesco
wagneriano
que eu contemplo
doente do meu excessivo amor do que é belo
que me afoga
na sua imensidão aérea

E tão fortuitamente criado pelo vento
e pela terra que se inclina
este ocaso laranja sobre azul
explêndido e kitsch
é tão impermanente
como vós
nuvens-anjos que me arrebatais
com vossos incêndios imensos e falsos
ilusão de óptica que me fascina e oprime

Encostada à minha janela
contemplo a vossa beleza
que a todo o instante
se faz e desfaz
até o chumbo da sombra avançar
e aos poucos surgir a noite
antiga e idêntica sempre
lançando-me em vossos braços
vazios
cheios só de vozes
inaudíveis

Ana Hatherly, "Rilkeana"
Assírio & Alvim, Novembro de 1999

strangers talk only about the weather* #1



10 de Setembro de 2004, 13h38. O céu que vejo da minha casa. Hoje o dia está ainda mais azul, quase sem nuvens. Vê-se tudo, até muito longe, com uma grande definição, a linha do horizonte traçada a régua.

* all over the world it's the same

um belo quarto de hotel, com um belo frigorífico


© Artistas Unidos

Distraí-me e à última da hora já não consegui bilhetes para o Schauspielfrankfurt. Hoje, ao ler as palavras ("Não gosto de acabamentos: as coisas que têm um aspecto acabado estão mortas.") de Armin Petras, fiquei ainda com mais pena. Ok, para me redimir, no sábado trago da Biblioteca as peças de Sarah Kane. Hã? Sarah Kane como redenção? Claro:
"Não preciso de um belo quarto de hotel em palco para que a peça pareça verdade. A verdade está na cabeça das pessoas. E não diria que isso é ironia, diria antes que é distância. Acho sinceramente que o teatro tem de ajudar as pessoas a fazerem a sua vida, a divertirem-se. Aquilo que acontece em palco não é a vida."

a nuvem e o rochedo

Num dos seus textos sobre Rui Chafes*, Maria Filomena Molder cita uma frase de Teixeira de Pascoaes: O ideal da nuvem é o rochedo.

A frase ficou na minha cabeça mas quando a quero dizer sai sempre trocada: "o ideal do rochedo é a nuvem". É assim que sai, como na fotografia do Gérard Castello-Lopes.

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*"Perigos e Pressários" do Catálogo Como uma Nuvem Pesada, Galeria Atlântico, Porto, Maio de 1989, incluído no livro "Matérias Sensíveis" editado pela Relógio d'Água

Domingo, Novembro 14

Oh! Eu quero este livro!

Em verdade, é estranho não mais habitar a terra, não praticar mais os costumes recém-aprendidos, não mais conferir às rosas, nem a outras coisas promissoras, a significação de um futuro humano...
Rilke


Abbas Kiarostami, Estradas de Kiarostami 1978-2003

misteries