Sábado, Novembro 13

a blossoming bird's cherry tree

We haven't found Maria's home yet. I'm looking for a wooden unpainted house, a backyard with an abandoned agricultural machine overgrown with nettle in the middle, and towering above it all a blossoming bird's cherry tree. We have to find a house like this near Stockholm.

Andrei Tarkoksvi, 9 September 1984, Stockholm

com os nossos olhos cegos

Uma das sequências mais extraordinárias (mas não o são todas?) de "O Sacríficio" é a do milagre, quando Alexander vai a casa de Maria em busca da salvação para o mundo. Ele não acredita em Otto, não acredita que Maria seja uma bruxa nem tão pouco que ela possa evitar a catástrofe que já aconteceu. Hesita no caminho, cai, quase desiste mas, apesar de continuar a duvidar, prossegue. A beleza de toda esta cena está para além das palavras, é comovente e de uma intensidade que não consigo descrever.

Há um momento em que Alexander recorda o velho jardim da casa da sua mãe, um jardim abandonado e esquecido. A mãe, que estava muito doente, às vezes sentava-se numa cadeira, junto à janela a olhar para esse jardim. Um dia, para agradar à mãe, ele resolveu podar as árvores, arrancar as ervas daninhas. Mas quando se sentou na cadeira junto à janela e olhou para o jardim percebeu que tinha quebrado toda a beleza que aí existia, toda a beleza que existe sempre por si, em tudo, toda a harmonia, toda a doçura. É essa beleza que Andrei Tarkovski nos mostra nos seus filmes, uma beleza primordial e eterna.

"Uma imagem é uma impressão da verdade que Deus nos permite ver, com os nossos olhos cegos", escreve Tarkovski no seu Diário.

Erbame dich*

I listened to Bach's St. Matthew Passion. Truly, music is the best solace for man in distress.

Andrei Tarkoksvi, 15 February 1986, Paris


* Mein Gott, um meiner Zähren willen! / Schaue hier, / Herz und Auge Weint vor dir / Bitterlich.
[Tem piedade / Meu Deus, vê as minhas lágrimas / Vê no meu coração e nos meus olhos / as lágrimas amargas.]
       


The image is not a certain meaning expressed by the director,
but the entire world reflected as in drop of water.

Andrei Tarkovski, Instant Light -Tarkovski Polaroids
«This is what one ought to be: like water. It knows no obstacles: it flows, a dam stops it, it breaks the dam and it flows again, it is rectangular in a rectangular vessel, round in a round one; water is stronger and more necessary than everything else.»
St. Basil the Great

copiado do diário de Andrei Tarkovski, Paris, 25 de Janeiro de 1986

Sexta-feira, Novembro 12

Depois de para sempre

Deixar mentalmente apodrecer o corpo para melhor o reconhecer e estudar, podia ser a divisa da arte de Rui Chafes. Lembrando a história que Ezra Pound conta no início de ABC of Reading sobre Agassiz e o peixe-lua, do qual Agassiz pediu uma descrição ao jovem recém-formado, que procurava junto dele uma instrução mais alta. Após várias tentativas falhadas, embora regulares e académicas, de descrição, Agassiz insistiu para que o jovem licenciado olhasse o peixe: ao fim de algumas semanas, o peixe estava em adiantado estado de decomposição, mas o estudante sabia alguma coisa acerca dele. Esta é também a boa maneira de descrever o processo de pensamento que age nas esculturas de Rui Chafes: colocar-se junto daquilo que sempre se degrada, se decompõe, daquilo que sempre já foi. Por que não pediu Agassiz ao rapaz, que tanto se esforçava por se elevar, que contemplasse um peixe no aquário ou por que não o fez nadar ao seu encontro? Foi um peixe já morto que lhe apresentou, e é aí pungentemente que a natureza desta arte se revela, entre a compaixão, a compreensão das afinidades e o poder do aniquilamento.

Maria Filomena Molder em "Uma Dócil Mortalidade", sobre Rui Chafes
in Matérias Sensíveis, Relógio d'Água, Dezembro de 1999

e tudo será ainda possível…

«Um sonho perturba-me com uma persistência espantosa. Chama-me de volta à aldeia do meu avô. Àquela casa, onde nasci há quarenta anos em cima de uma mesa de jantar. A visão é-me tão cara que até me dói. Mas, quando quero entrar nessa casa, aparece qualquer coisa e impede-mo. Tenho este sonho com frequência. Mas quando vejo as paredes de madeira e a escuridão, sei, mesmo a sonhar, que não passa de um sonho. E a minha imensa alegria perde-se na sombra da espera do despertar. Por vezes, porém, deixo de sonhar com a casa e com os pinheiros em torno da casa da minha infância. E tenho saudades. E espero impaciente o regresso desse sonho, onde voltarei a ver-me criança e a sentir-me feliz, porque tudo está ainda pela frente e tudo será ainda possível…»

Aleksei, no filme “O Espelho” de Andrei Tarkovski.

Quinta-feira, Novembro 11

contradições (ou o mistério da música)

Ouço as Leçons des Ténèbres, de François Couperin. São três peças belíssimas. Falam de fé mas o que eu ouço é apenas a sombra e o vento, como neste poema:

Muito estranho sempre me pareceu
Os homens adorarem um deus.
E a vida a esse deus dedicarem
E diante dele se curvarem.
Que os deuses são feitos por dentro
Da matéria da sombra ou do vento


Yüan Mei (1716-1797), China (excerto?), tradução de Maria Ondina Braga e publicado n'A Rosa do Mundo (Assírio & Alvim)

a notícia do dia:

Anéis de saturno emitem melodias quando atingidos por meteoritos

«Don Gurnett da Universidade de Iowa, afirmou à revista "New Scientist" ter ficado "estupefacto" quando ouviu as notas musicais. Os tons são curtos - duram entre um e três segundos - e, ao contrário de outros tons celestes associados a diversos processos cósmicos, distinguem-se facilmente uns dos outros.
A descoberta foi anunciada no encontro anual da Divisão de Ciências Planetárias da Sociedade Astronómica Americana, e sugere que cada um destes tons é produzido através de impulsos de energia criados por impactes de meteoritos nas camadas de gelo que constituem os anéis.»

[mais pormenores na última página do Público, imagens e sons, disponíneis aqui]

abrir os olhos



21. Dust Road in West Australia, Wim Wenders

Quarta-feira, Novembro 10

Brilho

St. Alexander, Girolamo Romanino

Era preciso que fosses
Jardim, rosa, campo santo
E que trouxesses no bolso
Uma navalha apertada

Raul de Carvalho, "Poesia Instante"
Ulmeiro, 1984

Terça-feira, Novembro 9

o entrançador de tabaco

Nas férias, na esplanada do Apolo 80, contaram-me uma história, nem é sequer uma história, é apenas uma frase: um dia - num café? - o António Gancho - de cigarro na mão, imagino - virou-se para Herberto Helder e disse - sorrindo? - “As Ilhas... é fatal!”
Mas Herberto Helder não respondeu. Calou-se. E desde então tento imaginar a sua voz.

Hoje à tarde ouvi-o pela primeira vez e reconheci-o. É o entrançador de tabaco.

Let's take a walk in Park Drive



Jeff Wall

Segunda-feira, Novembro 8

Porque é que gosto de Harold Pinter?

Um. Porque não utiliza jogos psicológicos, não explica nada.

Dois. Porque a sua escrita é ágil, as palavras saem disparadas e certeiras, como se não pudesse ser de outra forma. E não pode, e é isso que me espanta. Porque me espanta, Três.

Quatro. Por causa da sua concisão exemplar e dolorosa. No prefácio de "Teatro", Jorge Silva Melo descreve Harold Pinter como um mestre do rarefeito, do quase nada: Um universo de incertezas, contradições, mentiras, invenções, não-ditos, uma escrita sucinta rarefeita. E um diabólico domínio da língua que lhe permite, com quase nada, criar tensões. Por isso mesmo.

Cinco. Como é que hei-de explicar? “A Nova Ordem Mundial” é uma peça muito curta, com três personagens apenas: um homem sentado numa cadeira, de olhos vendados e que não abre a boca todo o tempo; e dois torturadores. Dois homens vulgares, tipos com que nos cruzamos no dia-a-dia, tipos cinzentos que se comovem e choram, torcionários. Sente-se uma ameaça constante, um medo que dilacera. A violência exercida, sabe-se lá porquê, mas exercida de uma forma inevitável. É isso o Harold Pinter, isso que não sei explicar.

o quarto pinteriano

Pedro Marques: [...] O quarto pinteriano atravessa toda a sua obra. A primeira peça chama-se The Room. Estabelece-se logo aí esta relação entre o quarto/pessoa-que-domina-um-espaço e a pessoa que vem de fora para ser examinada ou para abalar a ordem estabelecida anteriormente. É interessante ver a evolução dos quartos no teatro de Pinter. Começa por ser o tal quarto em The Room (uma obra que ecoa estranhamente como o Ruínas). Tal como na peça de Sarah Kane, em The Room a acção é interrompida por um súbito acto de violência, espancamento do cego que vem revelar dolorosas memórias de infância.

Em Feliz Aniversário já se consegue identificar uma casa que será depois invadida por duas personagens (podiam ter saído da peça seguinte) que, entrando nas memórias mais íntimas dos moradores, são convidadas para uma festa de aniversário e acabam por levar um dos moradores. Só podemos perceber a perplexidade do examinado Stanley pelo seu balbuciar, pelas perguntas dos examinadores e pela advertência final de Pete (outro morador) quando vê Stanley ser levado pelos homens e grita na soleira da porta para fora de casa "Não deixes que eles te digam o que tens de fazer!"

N'O Serviço, estamos numa subcave com um elevador que envia ordens arbitrárias, em princípio ordens para a morte de uma pessoa, mas, em vez disso, pedidos de pratos de comida, uma espectacular metáfora sobre a arbitrariedade das nossas vidas. Em seguida, o quarto torna-se numa Hothouse, literalmente "estufa", explicitamente uma câmara de tortura, Câmara Ardente, mais um cenário que dá conta de uma sociedade inquisitória. Logo a seguir, The Caretaker (O Encarregado), onde estamos no quarto de um porteiro/encarregado-de-um-prédio, posição naturalmente subalterna mas que mesmo assim joga os seus jogos de poder, dominar ou ser dominado. Onde o dominado, desta vez, nem sequer sabe a sua identidade. Pelo meio, Pinter escreve um guião de cinema, The Servant, que, sendo embora adaptação de um romance de Robin Maugham, podemos ver como uma extensão de The Caretaker: um mordomo ganha progressivamente território, desfazendo as relações anteriormente estabelecidas. Depois, Pinter começa a analisar o casal: aquilo que faz as pessoas ficarem juntas, partilharem o mesmo 'quarto'. Em O Amante, Pinter mostra engenhosamente as mecânicas do sexo e do amor através de uma peça que nos revela claramente dois quartos, que obrigam a dois comportamentos. Uma indicação da vida esquizofrénica que um casal suporta. O comportamento do marido responsável, trabalhador, pontual, Richard, que se desdobra em Max, o amante, conquistador, terno, que nunca se encontrará com Sarah no quarto, nem nunca virá senão à hora do chá.

Em The Homecoming, Pinter sugere-nos uma casa onde se sente as gerações que lá passaram: há duas personagens mais velhas, carregadas de memórias, se calhar não muito exactas, mas que vão sedimentando no espectador uma compreensão dos conflitos gerados. A ordem desta casa é alterada quando o filho de um deles vem inesperadamente com a mulher passar uns dias a casa do pai. Depois, Pinter escreve mais uma peça (originalmente para televisão) chamada The Basement (A Cave) e termina aquilo a que eu gosto de chamar o ciclo dos quartos.

A seguir, foge deliberadamente dos quartos e escreve duas peças com títulos que à partida podem revelar uma nova preocupação: Landscape e Silence. Segue-se Há Tanto Tempo (Old Times), onde o quarto é o mesmo, onde as memórias partilhadas sugerem confusões e equívocos, mas onde acontece uma coisa curiosa: o quarto é sempre o mesmo, mas a disposição da mobília é invertida de um acto para o outro, sugerindo uma inversão na ordem dos valores, nas hierarquias. Pinter irá retomar a temática dos quartos em Traições, mas aqui a ordem está desfeita, a peça anda para trás e o quarto é um apartamento de amantes, sem futuro nem passado, que surge assim como um desencantado quarto em ruínas de uma relação desfeita, também ela sem passado nem futuro.

Até que chega a Um Para o Caminho, em que o quarto onde Nicolas interroga as suas vítimas está num prédio onde se produzem mais atrocidades, mais interrogatórios, violações, e que é o quarto de um pai (e de quem fala em nome do pai de uma das vítimas, Gila). Se calhar uma sala parecida com a sala onde esta conhecera o seu marido Victor. A sala da autoridade. É engraçado perceber como ele parte de um quarto/página-em-branco. Porque, no teatro, aquilo corresponde à página em branco, serão as três paredes, a mesa e umas cadeiras - para pôr pessoas em conflito. Torturadores e torturados.

À conversa sobre os problemas que nos põe o teatro de Harold Pinter

Natureza morta

Um quarto. Uma janela na parede do fundo, a metade inferior tapada com serapilheira. Uma cama de ferro ao longo da parede da direita. Por cima, um armário de cozinha pequeno, baldes de tinta, caixas com porcas, parafusos, etc. Mais caixas, jarras, ao lado da cama. Uma porta na esquerda alta. À esquerda da janela, um amotoado: um lava-louças, um escadote, um balde para carvão, um corta-relva, um carrinho de compras, caixas, gavetas de cómoda. Por baixo deste amontoado uma cama de ferro. Em frente, um fogão a gás. Sobre o fogão a gás, uma estatueta de Buda. Na direita baixa, uma lareira. Em volta algumas malas, um tapete enrolado, um maçarico, uma cadeira de madeira tombada, caixas, uma série de objectos decorativos, um estendal de armar, umas poucas tábuas de madeira curtas, um radiador eléctrico pequeno e uma torradeira eléctrica muito velha. Mais abaixo, uma pilha de jornais velhos. Debaixo da cama de Aston junto à parede da direita está um aspirador, invisível até ser usado. Há um balde pendurado no tecto.

Harold Pinter, indicações para a peça “O encarregado”

Domingo, Novembro 7

expresso taschen

Hoje tomei o pequeno-almoço com o Francis Bacon. O café estava cheio às dez da manhã. Quase todos homens, quase todos já velhos. Empurravam o café com as notícias, em silêncio. Ninguém achou estranho eu estar ali com um morto. Nem a cor de laranja os sobressaltou, nem o Papa de boca escancarada, nem as carcaças que transformaram a minha mesa num talho. "Açougue", como eu prefiro. Ninguém reparou. Ele contou-me alguns segredos (Penso sempre em mim não tanto como um pintor mas como um veículo para o acidente e o acaso... Não me julgo dotado; só penso que sou receptivo) e, quando nos despedimos, reparei que piscou o olho a um rapaz ensonado que entrou com "O Jogo" debaixo do braço.

Francis: I myself and the life I've lived happen to be more profoundly curious than my work. Then sometimes, when I think about it, I'd prefer everything about my life to blow up after I die and disappear.

je disais: un mystère

je disais ni un art, ni une technique
un mystère
et, pour le résoudre
une simple potion magique
pour éclairer notre lanterne
magique
elle aussi, n'est-ce pas
mais
l'histoire du cinéma
est d'abord liée à celle de la médecine
les corps torturés d'Eisenstein
par-delà le Caravage
et le Greco
s'adressent
aux premiers écorchés de Vésale
et le fameux regard
de Joan Fontaine
devant le verre de lait
ne répond pas
à une héroïne de Delacroix
mais au chien de Pasteur
car toute la fortune de Kodak
s'est faite
avec des plaques de radio
pas avec Blanche Neige
car, encore
puisqu'il avait voulu
imiter le mouvement de la vie
el était normal
il était logique
que l'industrie du film
se soit d'abord vendue
à l'industrie de la mort
ô, combien de scénarios
sur un nouveau-né
sur une fleur qui pousse
mais combien sur des rafales de mitraillettes

Fatale Beauté, Histoire(s) du cinéma, JGL (Gallimard)