Terça-feira, Novembro 30

Homenagem a Tchekov

O pôr-do-sol, abandonando a varanda, agarra-se ao samovar.
Mas o chá está frio, ou já acabou; no prato da compota há uma mosca.
E o pesado 'chignon' torna mais imponente o rosto de Varvara
Andreevna, especialmente de perfil. A blusa engomada que veste está
abotoada até ao queixo. Deitado no canapé, de cachimbo apagado,
Vialtsev faz ranger o jornal com o discurso de Nedobrovo.
Varvara Andreevna, por baixo do frufru das saias não-traz-
-na-da.

O piano de cauda da sala de estar tende a orelha para a seca ovação
das folhas do pilriteiro. Os parcos acordes ao acaso
do estudante Maximov acordam as cigarras do jardim.
No céu diáfano, exemplificando o que será a aviação,
patos voam em direcção à Alemanha. No escritório,
sem acender a luz, Dunia lê às escondidas a carta de Nikki.
De bonita não tem nada, mas que curvas, rapaz! É muito diferente
dos livros.

É por esta razão que Erlich estremece, quando Kartachov o chama
para uma partida de cartas com ele, Prigogine e o doutor.
Ah, mas sacudir uma mosca é mais simples do que espantar
a imagem da sobrinha nua que se refugiou no divã
de couro para fugir aos mosquitos e ao calor que invadem tudo.
Prigogine dá cartas como come, com a barriga em cima da mesa.
Pode-se perguntar ao senhor doutor o que é este sinalzinho?
Claro, mas tenha a fineza.

Opressivo fim de tarde de Verão; horas míopes
em que as formas e os objectos perdem a nitidez.
"Com o seu fato de linho, Piotr Ilitch, até se confunde
com uma estátua do fundo da alameda." "Eu?"
Erlich finge embaraço, limpando com o lenço o 'pince-nez'.
Mas é verdade, no crepúsculo, o perto confunde-se com o longe.
E Erlich tenta lembrar-se de quantas vezes teve Natalia
Fiodorovna em sonhos.

Mas ela ama mesmo o doutor Vialtsev? As árvores agarram-se
às janelas da dacha abertas de par em par, como moçoilas da aldeia.
A elas é que se deve perguntar, aos seus ramos pejados de corvos;
especialmente ao olmo que entra no quarto de dormir de Varvara:
é o único que vê a anfitriã só de meias.
Lá fora, Dunia propõe um mergulho nocturno no lago.
Erguer-se, largar a mesa! Custa, quando se tem na mão
os trunfos todos.

E como são cada vez mais as estrelas no céu, o coro
das cigarras no jardim parece ser a voz delas.
Talvez seja isso mesmo. Mas onde raio vim parar?
pensa Erlich, desapertando o cinto junto à porta da casinha.
Até à estação são trinta verstas; algures um galo tenta o seu 'lied'.
O estudante, de casaca desbotoada, censura a indolência dos ministros.
Também na província ninguém vai para a cama com ninguém,
como em todo o cosmos.

Iosif Brodskii, 1993
"Paisagem com Inundação", Cotovia, 2001

os meus heróis:

Influências da literatura russa

Preciso de substituir a cama, comprar um móvel para o quarto de banho, um tapete novo para a sala e muitas outras tralhas mas o que me apetece mesmo é encontrar o samovar perfeito.

Segunda-feira, Novembro 29



Pierre Bonnard, Nu accroupi dans la baignoire

Domingo, Novembro 28

Um certo tipo de paixão

Apaixonei-me por Austerlitz. Ele não é uma personagem que provoque sentimentos arrebatadores. Quanto muito, inspira compaixão, piedade, ou nem isso. Não é bonito nem feio, é calado. Inacessível, é como o descreve Marie de Verneuil quando desiste dele, em Marienbad. Nebuloso, parece-me, quase não se vê, quase nada e no entanto perturba-me. Conforme avançava no livro sentia cá por dentro "isto" a crescer mas foi só há bocado, quando ele entrou no alfarrabista junto ao British Museum, na página cento e trinta e dois, quando ouviu aquelas vozes que saíam do pequeno rádio, quando o passado tomou conta do seu corpo, quando ficou branco como a cal, imóvel como uma estátua, como uma das colunas que ele fotografa, foi aí que comecei a chorar e percebi que gosto dele, de uma forma incalculável.

strangers talk only about the weather #3

...

Come closer don’t be shy
Stand beneath a rainy sky
The moon is over the rise
Think of me as a train goes by
Clear the thistles and brambles
Whistle didn’t he ramble
Now there’s a bubble of me
And its floating in thee
Stand in the shade of me
Things are now made of me
The weather vane will say
It smells like rain today
God took the stars and he
Tossed ‘em can’t tell
The birds from the blossoms
You’ll never be free of me
He’ll make a tree from me
Don’t say good bye to me
Describe the sky to me
And if the sky falls mark
My words – we’ll catch mocking birds

Lay your head where
My heart used to be
Hold the earth above me
Lay down in the green grass
Remember when you loved me

ascolta: 11. Green Grass

O meu tipo

Já passei os 34, vivo no Porto mas não conheço as salas do Arrábida ou do Norte Shopping, ainda não percebi a que classe pertenço e se sou algum quadro, devo ser aquele do Duchamp, descendo as escadas. Sou um zero vírgula qualquer coisa nas estatísticas. Continuo, contudo, à revelia e com persistência, a visitar as salas mais sombrias e abandonadas. Il est des salles de cinéma de banlieue vides comme des hangars, et belles comme un embarcadère du rêve...

Sábado, Novembro 27

fim-de-semana com MONTAIGNE


Empresta-te aos outros; dá-te a ti próprio

ABUSO

1. Só podemos abusar das coisas que são boas.

2. Todos os abusos do mundo resultam do facto de nos ensinarem a ter medo de manifestarmos a nossa ignorância.

§


ALMA

1. As almas dos imperadores e dos sapateiros são fundidas no mesmo molde.

2. A alma que alberga a filosofia deve, a bem da sua saúde, tornar são também o corpo.

§


CORAGEM

Seguirei o bom partido até à fogueira, mas apenas se puder.

§


COUVE

Quero (...) que a morte me encontre a plantar as minhas couves, despreocupado com ela, e ainda mais com a minha horta imperfeita.

§


CU

No trono mais alto do mundo, continuamos a estar sentados no nosso cu.

§


FELICIDADE

Os homens, por muito que lhes sorria a sorte, não se podem considerar felizes antes de ter passado o seu último dia de vida, dada a incerteza e a variedade das coisas humanas, que, com um ligeiro movimento, se transformam de um estado noutro, bem diferente.

§


FILOSOFIA

O espanto é o fundamento de toda a filosofia; a inquirição, o seu progresso; a ignorância, a sua essência.

§


LÓGICA

Varrão e Aistóteles (...) terão tirado da Lógica algum alívio para a gota?

§


MELANCÓLICO

Facilmente imagino que há um propósito, um consentimento e um comprazimento em nos impregnarmos de melancolia, sem falar do desejo de suscitar compaixão, que se pode ainda acrescentar. Há uma sombra de gulodice e de elegância que nos sorri e nos lisonjeia no próprio seio da melancolia.

§


VERDADE

Que verdade encerram estas montanhas, que é mentira para o mundo que existe para lá delas?

§


VOLUPTUOSIDADE

Digam o que disserem (os filósofos), na própria virtude, o fim último do nosso desígnio é a voluptuosidade. Comprazo-me em matraquear-lhes os ouvidos com esta palavra que lhes desagrada tanto.


_________
[excertos de Pequeno Vade-Mécum, editado pela Antígona]

Sexta-feira, Novembro 26

The Best Time Of The Day

Cool summer nights.
Windows open.
Lamps burning.
Fruit in the bowl.
And your head on my shoulder.
These the happiest moments in the day.

Next to the early morning hours,
of course. And the time
just before lunch.
And the afternoon, and
early evening hours.
But I do love

these summer nights.
Even more, I think,
than those other times.
The work finished for the day.
And no one who can reach us now.
Or ever.

Raymond Carver

The Blue Hour



© Joel Meyerowitz (Setembro 1982)

Quinta-feira, Novembro 25

969 667 823

Ao ver os noticiários da hora do almoço constatei, com um misto de incredulidade e satisfação, que a questão que interessa a todos os portugueses neste preciso momento é descobrir: qual o sítio mais indicado para comprar "As Não-Metamorfoses" do Alexandre Andrade, sem levantar suspeitas e antes que seja tarde?

- Na padaria da rue Lebouteux em Paris? Misturado com os sablés?
- No Chile? E se a terra treme?
- Na esplanada do Palácio? Devo arrastar a asa aos pavões?

Vai, e dá-lhes trabalho!



Saio de casa pouco antes das nove. No quiosque do café da Praça das Flores, em vez de "Casablanca" escolho "As Recordações da Casa Amarela". Os olhares do Bogart são muito maçadores, prefiro o ar nobre/louco em ruínas de João de Deus. Além disso o filme abre com um dos travellings mais bonitos que já vi sobre Lisboa e depois, se não me engano, segue-se aquela conversa sobre os percevejos com uma dona Violeta sovina e austera (Manuela de Freitas, exemplar) e ainda, lá mais para diante, os diálogos inesquecíveis com o polícia graduado (Henrique Viana) ou com Lívio (Luís Miguel Sintra). É um dos meus filmes preferidos de João César Monteiro (custou apenas seis euros, é o décimo de uma colecção sobre cinema português que acompanha uma revista ou um jornal, não faço ideia qual) e é imprescindível.

Levanto o nariz para leste, as nuvens aproximam-se. Nove horas, chego ao escritório que, por coincidência, é também uma casa antiga, amarela, com buganvílias, glicínias, jasmim trepando pelas paredes e peixes num pequeno tanque. Decido baptizar o vermelho. Chamar-se-à a partir de agora Lívio. Vai, e dá-lhes trabalho!, é o que ele me dirá quando eu precisar de conselhos. Vou buscar um café às traseiras, espreito a vizinhança, passo os olhos pelo jornal. Já perto das nove e meia ouço a "ostra" escolhida pelo Pedro Coelho na Antena 2: "O jantar" de Robert Walser. Há dias que começam bem, mesmo quando o céu se cobre de nuvens. Que nuvens?

Ao sair, depus na mão do criado uma nota de cem. Ele devolveu-ma dizendo que estava habituado a valores mais elevados. Pedi-lhe que se contentasse com menos, só desta vez. Lá fora, esperava-me um carro que me levou dali, e assim fui e ainda hoje vou.

São todas bonitas

«Um narciso branco do Inverno, uma folha de castanheiro-da-Índia, uma rosa, e uma leguminosa da Serra de Sintra, chamada "Ononis cintrana", classificada pela primeira vez por Brotero

Quarta-feira, Novembro 24

os meus heróis:

This is the real link:

Krapp's Last Tape, Part I | Krapp's Last Tape, Part II

fora de cena #1

Hamm - Conheci um louco que julgava que tinha chegado o fim do mundo. Pintava. Eu apreciava-o muito. Costumava ir visitá-lo ao manicómio. Pegava-lhe na mão e levava-o até à janela. Olha! Ali! Como cresce o trigo! E ali! Olha! As velas dos pescadores! Toda essa beleza! (Pausa) Ele libertava-se da minha mão e voltava para o seu canto. Assustado. Só tinha visto cinzas. (Pausa) Só ele se tinha salvo. (Pausa) Esquecido. (Pausa) Parece que o caso não é... não é assim tão... tão raro.

Clov - Um louco? Quando foi isso?

Hamm - Oh, há muito tempo, muito tempo. Tu ainda não tinhas nascido.

Clov - Que belos tempos esses!

Pausa. Hamm tira o solidéu.

Hamm - Eu gostava muito dele. (Pausa. Volta a pôr o solidéu. Pausa.) Pintava

Clov - Há tantas coisas terríveis.

Hamm - Não, não, já não há tantas. (Pausa) Clov.

Clov - Diz.

Hamm - Não achas que isto já durou demais?

Clov - Sim. (Pausa) O quê?

Hamm - Es... este... assunto.

Clov - Sempre achei. (Melancólico) Tu não?

Hamm (Pausa) - Então é um dia como outro qualquer.

Clov - Enquanto durar. (Pausa) Toda a vida as mesmas inépcias.


Samuel Beckett, "Fim de Partida"

Terça-feira, Novembro 23

Escribir, delirar y soñar es la única defensa

- En su último libro, la poesía es a la vez la pura vida y la enemiga de la vida. ¿Es la salvación o es la condena?

Leopoldo María Panero: Aquí dentro [hospital psiquiátrico de Las Palmas] es la única esperanza. Escribir es todo lo que se puede hacer en un manicomio. Aquí te das cuenta de que Kafka es un escritor realista. Como Beckett, del que un loco me ha robado los poemas. La suya es una escritura inhumana. De todos modos, después de Pound en poesía y de Joyce en novela -y eso que los poemas que intercala en el Ulises son muy cursis- se ha terminado la literatura y sólo queda un libro por interpretar: el Apocalipsis. Todo lenguaje es un sistema de citas. Toda escritura es palimpsesto. Pero la única esperanza.


retirado dos arquivos de babelia

Un loco tocado de la maldición del cielo

Un loco tocado de la maldición del cielo
canta humillado en una esquina
sus canciones hablan de ángeles y cosas
que cuestan la vida al ojo humano
la vida se pudre a sus pies como una rosa
y ya cerca de la tumba, pasa junto a él
una princesa.

Leopoldo María Panero, in "Poesía" 1970 - 1985

Segunda-feira, Novembro 22

strangers talk only about the weather #2



São as nuvens de fim da tarde sobre Santa Cruz da Graciosa, no Verão passado. Hoje está frio e tenho ainda mais saudades da "minha" casa do sotão, encostada ao Monte da Ajuda. Às vezes penso que lá a vida seria mais fácil.

Domingo, Novembro 21

O Tempo Aprazado

Vêm aí dias difíceis.
O tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Em breve terás de atar os sapatos
e recolher os cães nos casais da lezíria,
pois as vísceras dos peixes
arrefeceram ao vento.
Mortiça arde a luz dos tremoceiros.
O teu olhar abre caminho no nevoeiro:
o tempo até ver aprazado
assoma no hoizonte.

Do outro lado enterra-se a amante,
a areia sobe-lhe pelo cabelo a esvoaçar,
corta-lhe a palavra,
impõe-lhe silêncio,
acha-a mortal
e pronta para a despedida
depois de cada abraço.

Não olhes em volta.
Ata os sapatos.
Recolhe os cães.
Lança os peixes ao mar.
Extingue os tremoceiros!

Vêm aí dias difíceis.

Ingeborg Bachmann, "O Tempo Aprazado"
Gato Maltês #28, Assírio & Alvim

Há um mal(-estar) austríaco?

Não sei se há um mal-estar austríaco. Apetece-me dizer que sim, que de Thomas Bernhard, a Elfriede Jelinek ou a Michael Haneke, ou ainda mais para trás, podemos traçar uma linha realista, depressiva e angustiante. Mas tenho dúvidas, não seremos nós que escolhemos as pistas que nos levam às conclusões que queremos? Não se trata acima de tudo de um mal(-estar) do mundo? Haverá mesmo características geográficas e culturais que nos permitam dizer que é precisamente dali que sai este grito em baixo contínuo?
Não sei responder, a questão fica em aberto.

um sonho de Dürer


Dürer, A Visão, Kunsthistorisches Museum, Viena, Áustria

...
Ficou-nos, no entanto, de um homem do século XVI o relato extraordinário de um sonho que é só um sonho, acompanhado ainda por cima de um esboço. Encontramo-lo do Diário de Dürer. Eis o relato que o artista ao acordar nos deixou do seu sonho:

«Na noite de quarta para quinta-feira depois de Pentecostes (7-8 de Junho de 1525), vi em sonhos o que representei neste esboço: uma multitude de trombas de água caindo do céu. A primeira atingiu a terra a uma distância de quatro léguas: o abalo e o ruído foram aterradores e toda a região ficou inundada. Fiquei tão impressionado que acordei. Depois as outras trombas de água, assustadoras em violência e em número, atingiram a terra, umas mais longe, outras mais perto. Caíam de tão alto que pareciam descer lentamente, mas, quando a primeira tromba se aproximou da terra, a sua queda tornou-se tão rápida e acompanhada de um tal barulho e vendaval que acordei todo a tremer e levei muito tempo a recompor-me. Assim que me levantei pintei o que aqui se vê. Deus encaminha tudo pelo melhor.»

Este sonho impressiona pela ausência total de símbolos.


Marguerite Yourcenar, “O TEMPO esse grande escultor”
tradução de Helena Vaz da Silva, edição da Difel

_____________
"A Visão" de Dürer aparece duas (ou três?) vezes n' O Tempo do Lobo. É uma reprodução que está colada num painel, no meio de outras imagens, no escritório da estação de comboio onde eles aguardam. Não é por acaso, claro.

O Tempo do Lobo

é um filme difícil de aguentar. É um filme feito de silêncios e elipses e, acima de tudo, arrisco, de verdade. Tudo que vemos é tão credível, sem lugares comuns, sem efeitos, sem melodrama. É um filme seco. Felizmente o realizador cria a distanciação necessária para evitar uma enchurrada de lágrimas. O filme começa com um golpe duro e inesperado que nos encosta à parede e a impressão que tenho é mesmo essa, parece que vi todo o filme, duas horas, encostada a um muro, a engolir em seco, estupefacta como o pequeno Benny. Será que um dia os mortos ressuscitarão? Resta-nos tão pouco (mesmo de nós próprios) quando tudo está perdido: uma cassete com música, um cigarro, um papel e um lápis, um sacríficio, a leve esperança que um comboio chegue.

Numa entrevista, Michael Haneke explica que foi buscar o título ao "Codex Regius", o mais antigo poema alemão e mais precisamente ao "Song of the Sightseer", que descreve um tempo antes do "Ragnarök", o fim do mundo.

Os três posts que se seguem (para cima) são ainda sobre o filme. Imprescindível? Será esse o adjectivo para "O Tempo do Lobo"? Extraordinário? Como eu gostava de encontrar a palavra certa.

Sábado, Novembro 20

Sábado à tarde

No café, enquanto a televisão debita o Nelson Ned (... Mas tudo passa tudo passará / E nada fica / Nada ficará / Só se encontra a felicidade / Quando se entrega o coração...) revivo o meu momento à Duras: se em vez do café houvesse um campari e se fizesse calor...
- O quê? Escrevias um tratado sobre canções pirosas e corações despedaçados? Deixa-te disso.
Agradeço o conselho, abandono o meu ambicioso projecto literário e acendo um cigarro.

- Vamos à Praça Velasques?
Passo os olhos pelas bancas de velharias à cata de um livro qualquer. Encontro o Cesariny demasiado caro. Não compro mas roubo-lhe algumas palavras sobre Pessanha, também ele adora o "Branco e Vermelho", sorrio da cumplicidade e anoto na cabeça que tenho que rever o filme do Miguel Gonçalves, gostei tanto dele. Não descubro nenhum Pavese, nenhuma raridade. Por cinco euros cedo à "Visita de Velha Senhora" (Portugália, 1964, em bom estado), uma peça de Friedrich Dürrenmatt. Cada vez me apetece mais ler teatro.

Os críticos dizem mal mas eu quero ver "O Tempo do Lobo", de Michael Haneke. Dos recortes dos jornais guardei duas frases:
Há um mal(-estar) austríaco?
E é Inverno e faz cada vez mais frio...
Em todo o lado.

filmes que eu gostava de voltar a ver

Anthony é uma personagem* de Subway Riders, de Amos Poe. Num texto que descobri, por acaso, em "Um Quarto cheio de Espelhos", João Miguel Fernandes Jorge escreve sobre o filme.

É um filme nocturno, lembro-me apenas do saxofone, dos azuis e vermelhos. Mas agora descubro esta frase de Anthony, citada por Fernandes Jorge: "A casa é onde temos o coração".

________
*Anthony é também um assassino, para além do bem e do mal, uma espécie de personagem de Dostoievsky deambulando em Nova Iorque

Sexta-feira, Novembro 19

1ª Proposta para a inauguração oficial da Casa da Música*

«The Tiger Lillies, a UK-based “freak-cabaret trio”, sometimes perform in full clown make-up or with members dressed as pigs. Lead singer and accordionist Martyn Jacques, sings odes to the dispossessed and deranged in an eerie falsetto while the other two members accompany with upright bass and percussion. Their songs channel the spirit of punk with a dash of ska and mix in the passion of chansons, while reviving forgotten gypsy music and the songs of troubadours.»

New Sounds (emissão de 03.11.2004) © WNYC

_________
* prevista para 14 de abril de 2005

Quinta-feira, Novembro 18

O meu encantador de serpentes


Camilo Pessanha (à esquerda, afagando o cão) com João Pereira Vasco © Instituto Camões 2004

Nos poemas de Camilo Pessanha há música mas há também, mais profundo ainda, uma repetição hipnótica, encantadora (por via do ópio, talvez), que nos transporta para um outro lado. Por exemplo, no poema "Branco e vermelho" que começa assim:

A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e de imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaimento.

Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Fez-se em redor de mim.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso...
Que delícia sem fim!

...

[o poema pode (e deve) ser lido na íntegra aqui.]

é de mim

ou a tradução de "Austerlitz" de W. G. Sebald é desleixada (assim como a revisão e a impressão)? Que pena, Sebald merecia muito mais.

Ainda estou no princípio das duzentas e setenta e quatro páginas mas já percebi o modo como ele se aproxima de Thomas Bernhard e ainda o modo como se afasta. Fascinante, uma, duas, muitas vezes.

Quarta-feira, Novembro 17

Temperatura das cores

[explicação não científica]

Tenho duas camisolas idênticas. O mesmo modelo, a mesma matéria-prima, diferem apenas na cor: uma é castanha e a outra vermelha escura. A vermelha é sempre a mais quente.

Regras da casa

#1: neste blogue é permitido fumar!

«I’m a heavy smoker. I’ve smoked ever since I’ve painted. I discovered one day, in a science magazine, that smoking had a beneficial effect on concentration. And it’s true that helps me concentrate on my work. I don’t understand how the Renaissance painters managed to paint without smoking…»

Balthus, In his own words, © Assouline

Terça-feira, Novembro 16

Será que a grandeza literária é ainda possível?

Hoje, se passar por uma livraria (e vou fazer tudo por isso), sei que não resistirei a Austerlitz de W.G. Sebald.

da beleza


Além de recusarem o visual, os últimos filmes de Bresson renunciam também ao «bonito». Nenhum dos seus actores não-profissionais são bonitos num sentido exterior. A primeira reacção, ao ver Claude Laydu (o padre de Journal d’un curé de campagne), François Leterrier (Fontaine de Un condamné à mort s’est échappé), Martin Lassalle (Michel, em Pickpocket), e Florence Carrez (Jeanne, em Le procès de Jeanne d’Arc), é achá-los feios. Depois, a partir de um certo ponto qualquer, começamos a ver os rostos como extraordinariamente belos.

Susan Sontag, "O estilo espiritual nos filmes de Robert Bresson" in Contra a Interpretação (e outros ensaios), Gótica, Março de 2004

Segunda-feira, Novembro 15

de Variações Elegíacas:

I
Wer, wenn ich schriee

Quem, se eu gritar
me concede
a profundeza inversa deste céu
que ao fim da tarde
eu vejo da minha janela
contemplando os anjos
que as nuvens imitam?

Alguém me ouve se eu gritar?

Oiço vozes
mas são vozes inventadas
porque é inútil perscrutar o silêncio
e por isso vos reinvento
a cada pancada do meu coração
a cada pancada surda
que não repercute
no ímpeto claro do vosso desenho fantástico
no alado lado da vossa impossibilidade.

Se eu gritar
alguém me ouve
em todas estas coisas?
Nenhum anjo
escuta o meu grito
que não penetra a noite
e só encontra o eco de nenhum desejo

E lançando de meus braços o desejo
não invejo
admiro
a sufocante beleza deste ocaso
cheio de nuvens velocíssimas
e tudo o que eu sinto
é tão imenso
como este ocaso
dantesco
tiepolesco
wagneriano
que eu contemplo
doente do meu excessivo amor do que é belo
que me afoga
na sua imensidão aérea

E tão fortuitamente criado pelo vento
e pela terra que se inclina
este ocaso laranja sobre azul
explêndido e kitsch
é tão impermanente
como vós
nuvens-anjos que me arrebatais
com vossos incêndios imensos e falsos
ilusão de óptica que me fascina e oprime

Encostada à minha janela
contemplo a vossa beleza
que a todo o instante
se faz e desfaz
até o chumbo da sombra avançar
e aos poucos surgir a noite
antiga e idêntica sempre
lançando-me em vossos braços
vazios
cheios só de vozes
inaudíveis

Ana Hatherly, "Rilkeana"
Assírio & Alvim, Novembro de 1999

strangers talk only about the weather* #1



10 de Setembro de 2004, 13h38. O céu que vejo da minha casa. Hoje o dia está ainda mais azul, quase sem nuvens. Vê-se tudo, até muito longe, com uma grande definição, a linha do horizonte traçada a régua.

* all over the world it's the same

um belo quarto de hotel, com um belo frigorífico

Distraí-me e à última da hora já não consegui bilhetes para o Schauspielfrankfurt. Hoje, ao ler as palavras ("Não gosto de acabamentos: as coisas que têm um aspecto acabado estão mortas.") de Armin Petras, fiquei ainda com mais pena. Ok, para me redimir, no sábado trago da Biblioteca as peças de Sarah Kane. Hã? Sarah Kane como redenção? Claro:
"Não preciso de um belo quarto de hotel em palco para que a peça pareça verdade. A verdade está na cabeça das pessoas. E não diria que isso é ironia, diria antes que é distância. Acho sinceramente que o teatro tem de ajudar as pessoas a fazerem a sua vida, a divertirem-se. Aquilo que acontece em palco não é a vida."

a nuvem e o rochedo

Num dos seus textos sobre Rui Chafes*, Maria Filomena Molder cita uma frase de Teixeira de Pascoaes: O ideal da nuvem é o rochedo.

A frase ficou na minha cabeça mas quando a quero dizer sai sempre trocada: "o ideal do rochedo é a nuvem". É assim que sai, como na fotografia do Gérard Castello-Lopes.

_____________
*"Perigos e Pressários" do Catálogo Como uma Nuvem Pesada, Galeria Atlântico, Porto, Maio de 1989, incluído no livro "Matérias Sensíveis" editado pela Relógio d'Água

Domingo, Novembro 14

Oh! Eu quero este livro!

Em verdade, é estranho não mais habitar a terra, não praticar mais os costumes recém-aprendidos, não mais conferir às rosas, nem a outras coisas promissoras, a significação de um futuro humano...
Rilke


Abbas Kiarostami, Estradas de Kiarostami 1978-2003

misteries

Sábado, Novembro 13

a blossoming bird's cherry tree

We haven't found Maria's home yet. I'm looking for a wooden unpainted house, a backyard with an abandoned agricultural machine overgrown with nettle in the middle, and towering above it all a blossoming bird's cherry tree. We have to find a house like this near Stockholm.

Andrei Tarkoksvi, 9 September 1984, Stockholm

com os nossos olhos cegos

Uma das sequências mais extraordinárias (mas não o são todas?) de "O Sacríficio" é a do milagre, quando Alexander vai a casa de Maria em busca da salvação para o mundo. Ele não acredita em Otto, não acredita que Maria seja uma bruxa nem tão pouco que ela possa evitar a catástrofe que já aconteceu. Hesita no caminho, cai, quase desiste mas, apesar de continuar a duvidar, prossegue. A beleza de toda esta cena está para além das palavras, é comovente e de uma intensidade que não consigo descrever.

Há um momento em que Alexander recorda o velho jardim da casa da sua mãe, um jardim abandonado e esquecido. A mãe, que estava muito doente, às vezes sentava-se numa cadeira, junto à janela a olhar para esse jardim. Um dia, para agradar à mãe, ele resolveu podar as árvores, arrancar as ervas daninhas. Mas quando se sentou na cadeira junto à janela e olhou para o jardim percebeu que tinha quebrado toda a beleza que aí existia, toda a beleza que existe sempre por si, em tudo, toda a harmonia, toda a doçura. É essa beleza que Andrei Tarkovski nos mostra nos seus filmes, uma beleza primordial e eterna.

"Uma imagem é uma impressão da verdade que Deus nos permite ver, com os nossos olhos cegos", escreve Tarkovski no seu Diário.

Erbame dich*

I listened to Bach's St. Matthew Passion. Truly, music is the best solace for man in distress.

Andrei Tarkoksvi, 15 February 1986, Paris


* Mein Gott, um meiner Zähren willen! / Schaue hier, / Herz und Auge Weint vor dir / Bitterlich.
[Tem piedade / Meu Deus, vê as minhas lágrimas / Vê no meu coração e nos meus olhos / as lágrimas amargas.]
       


The image is not a certain meaning expressed by the director,
but the entire world reflected as in drop of water.

Andrei Tarkovski, Instant Light -Tarkovski Polaroids
«This is what one ought to be: like water. It knows no obstacles: it flows, a dam stops it, it breaks the dam and it flows again, it is rectangular in a rectangular vessel, round in a round one; water is stronger and more necessary than everything else.»
St. Basil the Great

copiado do diário de Andrei Tarkovski, Paris, 25 de Janeiro de 1986

Sexta-feira, Novembro 12

Depois de para sempre

Deixar mentalmente apodrecer o corpo para melhor o reconhecer e estudar, podia ser a divisa da arte de Rui Chafes. Lembrando a história que Ezra Pound conta no início de ABC of Reading sobre Agassiz e o peixe-lua, do qual Agassiz pediu uma descrição ao jovem recém-formado, que procurava junto dele uma instrução mais alta. Após várias tentativas falhadas, embora regulares e académicas, de descrição, Agassiz insistiu para que o jovem licenciado olhasse o peixe: ao fim de algumas semanas, o peixe estava em adiantado estado de decomposição, mas o estudante sabia alguma coisa acerca dele. Esta é também a boa maneira de descrever o processo de pensamento que age nas esculturas de Rui Chafes: colocar-se junto daquilo que sempre se degrada, se decompõe, daquilo que sempre já foi. Por que não pediu Agassiz ao rapaz, que tanto se esforçava por se elevar, que contemplasse um peixe no aquário ou por que não o fez nadar ao seu encontro? Foi um peixe já morto que lhe apresentou, e é aí pungentemente que a natureza desta arte se revela, entre a compaixão, a compreensão das afinidades e o poder do aniquilamento.

Maria Filomena Molder em "Uma Dócil Mortalidade", sobre Rui Chafes
in Matérias Sensíveis, Relógio d'Água, Dezembro de 1999

e tudo será ainda possível…

«Um sonho perturba-me com uma persistência espantosa. Chama-me de volta à aldeia do meu avô. Àquela casa, onde nasci há quarenta anos em cima de uma mesa de jantar. A visão é-me tão cara que até me dói. Mas, quando quero entrar nessa casa, aparece qualquer coisa e impede-mo. Tenho este sonho com frequência. Mas quando vejo as paredes de madeira e a escuridão, sei, mesmo a sonhar, que não passa de um sonho. E a minha imensa alegria perde-se na sombra da espera do despertar. Por vezes, porém, deixo de sonhar com a casa e com os pinheiros em torno da casa da minha infância. E tenho saudades. E espero impaciente o regresso desse sonho, onde voltarei a ver-me criança e a sentir-me feliz, porque tudo está ainda pela frente e tudo será ainda possível…»

Aleksei, no filme “O Espelho” de Andrei Tarkovski.

Quinta-feira, Novembro 11

contradições (ou o mistério da música)

Ouço as Leçons des Ténèbres, de François Couperin. São três peças belíssimas. Falam de fé mas o que eu ouço é apenas a sombra e o vento, como neste poema:

Muito estranho sempre me pareceu
Os homens adorarem um deus.
E a vida a esse deus dedicarem
E diante dele se curvarem.
Que os deuses são feitos por dentro
Da matéria da sombra ou do vento


Yüan Mei (1716-1797), China (excerto?), tradução de Maria Ondina Braga e publicado n'A Rosa do Mundo (Assírio & Alvim)

a notícia do dia:

Anéis de saturno emitem melodias quando atingidos por meteoritos

«Don Gurnett da Universidade de Iowa, afirmou à revista "New Scientist" ter ficado "estupefacto" quando ouviu as notas musicais. Os tons são curtos - duram entre um e três segundos - e, ao contrário de outros tons celestes associados a diversos processos cósmicos, distinguem-se facilmente uns dos outros.
A descoberta foi anunciada no encontro anual da Divisão de Ciências Planetárias da Sociedade Astronómica Americana, e sugere que cada um destes tons é produzido através de impulsos de energia criados por impactes de meteoritos nas camadas de gelo que constituem os anéis.»

[mais pormenores na última página do Público, imagens e sons, disponíneis aqui]

abrir os olhos



21. Dust Road in West Australia, Wim Wenders

Quarta-feira, Novembro 10

Brilho

St. Alexander, Girolamo Romanino

Era preciso que fosses
Jardim, rosa, campo santo
E que trouxesses no bolso
Uma navalha apertada

Raul de Carvalho, "Poesia Instante"
Ulmeiro, 1984

Terça-feira, Novembro 9

o entrançador de tabaco

Nas férias, na esplanada do Apolo 80, contaram-me uma história, nem é sequer uma história, é apenas uma frase: um dia - num café? - o António Gancho - de cigarro na mão, imagino - virou-se para Herberto Helder e disse - sorrindo? - “As Ilhas... é fatal!”
Mas Herberto Helder não respondeu. Calou-se. E desde então tento imaginar a sua voz.

Hoje à tarde ouvi-o pela primeira vez e reconheci-o. É o entrançador de tabaco.

Let's take a walk in Park Drive



Jeff Wall

Segunda-feira, Novembro 8

Porque é que gosto de Harold Pinter?

Um. Porque não utiliza jogos psicológicos, não explica nada.

Dois. Porque a sua escrita é ágil, as palavras saem disparadas e certeiras, como se não pudesse ser de outra forma. E não pode, e é isso que me espanta. Porque me espanta, Três.

Quatro. Por causa da sua concisão exemplar e dolorosa. No prefácio de "Teatro", Jorge Silva Melo descreve Harold Pinter como um mestre do rarefeito, do quase nada: Um universo de incertezas, contradições, mentiras, invenções, não-ditos, uma escrita sucinta rarefeita. E um diabólico domínio da língua que lhe permite, com quase nada, criar tensões. Por isso mesmo.

Cinco. Como é que hei-de explicar? “A Nova Ordem Mundial” é uma peça muito curta, com três personagens apenas: um homem sentado numa cadeira, de olhos vendados e que não abre a boca todo o tempo; e dois torturadores. Dois homens vulgares, tipos com que nos cruzamos no dia-a-dia, tipos cinzentos que se comovem e choram, torcionários. Sente-se uma ameaça constante, um medo que dilacera. A violência exercida, sabe-se lá porquê, mas exercida de uma forma inevitável. É isso o Harold Pinter, isso que não sei explicar.

o quarto pinteriano

Pedro Marques: [...] O quarto pinteriano atravessa toda a sua obra. A primeira peça chama-se The Room. Estabelece-se logo aí esta relação entre o quarto/pessoa-que-domina-um-espaço e a pessoa que vem de fora para ser examinada ou para abalar a ordem estabelecida anteriormente. É interessante ver a evolução dos quartos no teatro de Pinter. Começa por ser o tal quarto em The Room (uma obra que ecoa estranhamente como o Ruínas). Tal como na peça de Sarah Kane, em The Room a acção é interrompida por um súbito acto de violência, espancamento do cego que vem revelar dolorosas memórias de infância.

Em Feliz Aniversário já se consegue identificar uma casa que será depois invadida por duas personagens (podiam ter saído da peça seguinte) que, entrando nas memórias mais íntimas dos moradores, são convidadas para uma festa de aniversário e acabam por levar um dos moradores. Só podemos perceber a perplexidade do examinado Stanley pelo seu balbuciar, pelas perguntas dos examinadores e pela advertência final de Pete (outro morador) quando vê Stanley ser levado pelos homens e grita na soleira da porta para fora de casa "Não deixes que eles te digam o que tens de fazer!"

N'O Serviço, estamos numa subcave com um elevador que envia ordens arbitrárias, em princípio ordens para a morte de uma pessoa, mas, em vez disso, pedidos de pratos de comida, uma espectacular metáfora sobre a arbitrariedade das nossas vidas. Em seguida, o quarto torna-se numa Hothouse, literalmente "estufa", explicitamente uma câmara de tortura, Câmara Ardente, mais um cenário que dá conta de uma sociedade inquisitória. Logo a seguir, The Caretaker (O Encarregado), onde estamos no quarto de um porteiro/encarregado-de-um-prédio, posição naturalmente subalterna mas que mesmo assim joga os seus jogos de poder, dominar ou ser dominado. Onde o dominado, desta vez, nem sequer sabe a sua identidade. Pelo meio, Pinter escreve um guião de cinema, The Servant, que, sendo embora adaptação de um romance de Robin Maugham, podemos ver como uma extensão de The Caretaker: um mordomo ganha progressivamente território, desfazendo as relações anteriormente estabelecidas. Depois, Pinter começa a analisar o casal: aquilo que faz as pessoas ficarem juntas, partilharem o mesmo 'quarto'. Em O Amante, Pinter mostra engenhosamente as mecânicas do sexo e do amor através de uma peça que nos revela claramente dois quartos, que obrigam a dois comportamentos. Uma indicação da vida esquizofrénica que um casal suporta. O comportamento do marido responsável, trabalhador, pontual, Richard, que se desdobra em Max, o amante, conquistador, terno, que nunca se encontrará com Sarah no quarto, nem nunca virá senão à hora do chá.

Em The Homecoming, Pinter sugere-nos uma casa onde se sente as gerações que lá passaram: há duas personagens mais velhas, carregadas de memórias, se calhar não muito exactas, mas que vão sedimentando no espectador uma compreensão dos conflitos gerados. A ordem desta casa é alterada quando o filho de um deles vem inesperadamente com a mulher passar uns dias a casa do pai. Depois, Pinter escreve mais uma peça (originalmente para televisão) chamada The Basement (A Cave) e termina aquilo a que eu gosto de chamar o ciclo dos quartos.

A seguir, foge deliberadamente dos quartos e escreve duas peças com títulos que à partida podem revelar uma nova preocupação: Landscape e Silence. Segue-se Há Tanto Tempo (Old Times), onde o quarto é o mesmo, onde as memórias partilhadas sugerem confusões e equívocos, mas onde acontece uma coisa curiosa: o quarto é sempre o mesmo, mas a disposição da mobília é invertida de um acto para o outro, sugerindo uma inversão na ordem dos valores, nas hierarquias. Pinter irá retomar a temática dos quartos em Traições, mas aqui a ordem está desfeita, a peça anda para trás e o quarto é um apartamento de amantes, sem futuro nem passado, que surge assim como um desencantado quarto em ruínas de uma relação desfeita, também ela sem passado nem futuro.

Até que chega a Um Para o Caminho, em que o quarto onde Nicolas interroga as suas vítimas está num prédio onde se produzem mais atrocidades, mais interrogatórios, violações, e que é o quarto de um pai (e de quem fala em nome do pai de uma das vítimas, Gila). Se calhar uma sala parecida com a sala onde esta conhecera o seu marido Victor. A sala da autoridade. É engraçado perceber como ele parte de um quarto/página-em-branco. Porque, no teatro, aquilo corresponde à página em branco, serão as três paredes, a mesa e umas cadeiras - para pôr pessoas em conflito. Torturadores e torturados.

À conversa sobre os problemas que nos põe o teatro de Harold Pinter

Natureza morta

Um quarto. Uma janela na parede do fundo, a metade inferior tapada com serapilheira. Uma cama de ferro ao longo da parede da direita. Por cima, um armário de cozinha pequeno, baldes de tinta, caixas com porcas, parafusos, etc. Mais caixas, jarras, ao lado da cama. Uma porta na esquerda alta. À esquerda da janela, um amotoado: um lava-louças, um escadote, um balde para carvão, um corta-relva, um carrinho de compras, caixas, gavetas de cómoda. Por baixo deste amontoado uma cama de ferro. Em frente, um fogão a gás. Sobre o fogão a gás, uma estatueta de Buda. Na direita baixa, uma lareira. Em volta algumas malas, um tapete enrolado, um maçarico, uma cadeira de madeira tombada, caixas, uma série de objectos decorativos, um estendal de armar, umas poucas tábuas de madeira curtas, um radiador eléctrico pequeno e uma torradeira eléctrica muito velha. Mais abaixo, uma pilha de jornais velhos. Debaixo da cama de Aston junto à parede da direita está um aspirador, invisível até ser usado. Há um balde pendurado no tecto.

Harold Pinter, indicações para a peça “O encarregado”

Domingo, Novembro 7

expresso taschen

Hoje tomei o pequeno-almoço com o Francis Bacon. O café estava cheio às dez da manhã. Quase todos homens, quase todos já velhos. Empurravam o café com as notícias, em silêncio. Ninguém achou estranho eu estar ali com um morto. Nem a cor de laranja os sobressaltou, nem o Papa de boca escancarada, nem as carcaças que transformaram a minha mesa num talho. "Açougue", como eu prefiro. Ninguém reparou. Ele contou-me alguns segredos (Penso sempre em mim não tanto como um pintor mas como um veículo para o acidente e o acaso... Não me julgo dotado; só penso que sou receptivo) e, quando nos despedimos, reparei que piscou o olho a um rapaz ensonado que entrou com "O Jogo" debaixo do braço.

Francis: I myself and the life I've lived happen to be more profoundly curious than my work. Then sometimes, when I think about it, I'd prefer everything about my life to blow up after I die and disappear.

je disais: un mystère

je disais ni un art, ni une technique
un mystère
et, pour le résoudre
une simple potion magique
pour éclairer notre lanterne
magique
elle aussi, n'est-ce pas
mais
l'histoire du cinéma
est d'abord liée à celle de la médecine
les corps torturés d'Eisenstein
par-delà le Caravage
et le Greco
s'adressent
aux premiers écorchés de Vésale
et le fameux regard
de Joan Fontaine
devant le verre de lait
ne répond pas
à une héroïne de Delacroix
mais au chien de Pasteur
car toute la fortune de Kodak
s'est faite
avec des plaques de radio
pas avec Blanche Neige
car, encore
puisqu'il avait voulu
imiter le mouvement de la vie
el était normal
il était logique
que l'industrie du film
se soit d'abord vendue
à l'industrie de la mort
ô, combien de scénarios
sur un nouveau-né
sur une fleur qui pousse
mais combien sur des rafales de mitraillettes

Fatale Beauté, Histoire(s) du cinéma, JGL (Gallimard)

Sábado, Novembro 6

une héroïne de Delacroix



Eugene Delacroix, "Rapariga Orfã no Cemitério", 1824, óleo em tela

posso citar Godard?

Para além de tudo mais, há duas frases no "Elogio do Amor" de Jean-Luc Godard que me impressionaram. É precisamente este o verbo, impressionar. Como a luz impressiona a película fotográfica:

C'est lorsque les choses finissent qu'elles prennent un sens.

Pour penser à quelque chose, il faut obligatoirement penser à autre chose.

o andar do flâneur

No texto sobre Walter Benjamim ("Homens em Tempos Sombrios", Relógio d'Água), Hannah Arendt refere que Max Rychner descreveu o modo de andar de Benjamin como «um avançar e ao mesmo tempo um estar parado, uma estranha mistura de ambas as coisas».

Creio que é desta maneira que se movimentam as pessoas que não pertencem ao seu tempo. Os desajustados. Walter Benjamim era, sem qualquer dúvida, assim.

Mais à frente, Arendt escreve: «Poderíamos então dizer que Benjamin não se preparou para nenhuma outra "profissão" além da de coleccionador particular e erudito absolutamente independente, aquilo a que então se dava o nome de Privatgelehrter».

Portanto, um mestre. A seguir com atenção.

Sexta-feira, Novembro 5

A 26 de Setembro de 1940,

Walter Benjamin, que se preparava para emigrar para a América, suicidou-se na fronteira franco-espanhola. Várias razões o levaram a isso. A Gestapo confiscara o seu apartamento em Paris, que continha a sua biblioteca (conseguira fazer sair da Alemanha «a metade mais importante») e muitos dos seus manuscritos; tinha bons motivos para se preocupar também com o destino dos outros manuscritos que, graças aos bons ofícios de Georges Bataille, tinham sido colocados na Biblioteca Nacional antes da sua fuga de Paris para Lourdes, na França não ocupada. Como iria ele viver sem a sua biblioteca, como podia ganhar a vida sem a vasta colecção de citações e excertos que se encontrava entre os seus manuscritos? Além disso, nada o atraía na América, onde, conforme costumava dizer, provavelmente ninguém saberia o que fazer dele além de o passearem pelo país inteiro, exibindo-o como o «último europeu». Mas a causa imediata do suicídio de Benjamim foi um azar verdadeiramente excepcional. Nos termos do armistício entre a França de Vichy e o Terceiro Reich, os refugiados da Alemanha hitleriana - les réfugiés provenant d’Allemagne, como eram oficialmente designados em França - corriam o risco de serem repatriados, o que presumivelmente só aconteceria no caso de se tratar de opositores políticos. Para salvar esta categoria de refugiados - que, sublinhe-se de passagem, nunca incluiu a massa apolítica dos judeus que mais tarde vieram a revelar-se os mais ameaçados de todos - os Estados Unidos tinham distribuído um certo número de vistos de emergência através dos seus consulados na França não ocupada. Graças aos esforços do Instituto, em Nova Iorque, Benjamim foi um dos primeiros a receber um desses vistos em Marselha. Obteve também rapidamente um visto de trânsito espanhol que lhe permitia chegar a Lisboa e embarcar aí num navio. Não dispunha, no entanto, do visto de saída francês, que nesse tempo ainda era necessário e que o Governo francês, ansioso por agradar à Gestapo, invariavelmente negava aos refugiados alemães. Em geral, isto não representava um obstáculo intransponível, pois era bem conhecida uma entrada relativamente curta e não dfícil de percorrer a pé, que atravessava a montanha até Port-Bou e que a polícia de fronteiras francesa não guardava. Ainda assim, para Benjamin, que aparentemente sofria de problemas cardíacos, a mais breve caminhada constituía um esforço enorme, e ele deve ter chegado absolutamente exausto. O pequeno grupo de refugiados em que se integrava atingiu o posto fronteiriço espanhol e soube aí que a Espanha fechara a fronteira nesse mesmo dia e que os funcionários da alfândega não aceitavam vistos emitidos em Marselha. Os refugiados teriam que regressar a França pelo mesmo caminho no dia seguinte. Durante a noite Benjamin pôs termos à sua vida, e os funcionários, impressionados com o suicídio, autorizaram os seus companheiros a seguir viagem até Portugal. Algumas semanas mais tarde, o embargo aos vistos foi revogado. Um dia antes, Benjamin teria passado a fronteira sem dificuldades; um dia depois já se saberia em Marselha que nesse momento não era possível atravessar a Espanha. Só naquele dia era possível a catástrofe.

Walter Benjamin, um dos "Homens de Tempos Sombrios", de Hannah Arendt

Quinta-feira, Novembro 4

Anselm Kiefer: Nuremberga

In Memorian Dr. K. H. G.

- Hölderlin ist ihnen unbekannt?* - perguntou o Dr. K. H. G. enquanto estava a fazer a cova para o cadáver de um cavalo.
- Quem era? - perguntou o guarda alemão.
- O autor de Hyperion - explicou o Dr. K. H. G.., que gostava muito de explicar as coisas. - A figura mais significativa do romantismo alemão. E Heine, por exemplo?
- Quem são eles? - perguntou o guarda.
- São poetas - disse o Dr. K. H. G. - E o nome de Schiller, também não lhe diz nada?
- Conheço sim - disse o guarda alemão.
- E Rilke?
- Esse também - disse o guarda alemão, que ficou vermelho como um pimento quando abateu a tiro o Dr. K. H. G.

_______________
* «Não conhece Hölderlin?»

página 37 de "Histórias de 1 minuto, vol.1" de István Örkény
[tradução de Piroska Felkai e edição da cavalo de ferro]

Comunicado Oficial do Governo – Depois da Vitória Universal das Ideias do Comunismo

István Balogh, tratador de cavalos na Cooperativa dos Fazendeiros do Estado de Bábolna, começou as suas férias anuais*.

Agência Noticiosa Húngara

* O jornal diário do Partido Comunista Húngaro, Népszabadsg, anunciava todos os anos o seguinte: «Kádár Janos, Primeiro Secretário do Partido Socialista Húngaro dos Trabalhadores, começou hoje as suas férias anuais.»

página 87 de "Histórias de 1 minuto, vol.1" de István Örkény
[tradução de Piroska Felkai e edição da cavalo de ferro]

it's time to make a revolution

Gosto muito desta fotografia de Josef Koudelka: a Praça Wenceslau, em Praga, vazia e o relógio, em primeiro plano, a avisar que algo se passa.

E o que se passa é o vazio. Ao fim da tarde era normal a praça encher-se de pessoas, obrigadas a prestar vassalagem ao opressor, agitando-se em falsas manifestações de júbilo. Mas neste dia ninguém saiu à rua.

A força do silêncio pode ser esmagadora. Quando nos tiram tudo, temos ainda o silêncio. É esse silêncio perturbador que ouvimos na fotografia.

Dizer não. Cerrar os lábios e dizer não. Dizer não.

o relógio de Koudelka



Checoslováquia, 1968, © Josef Koudelka

History is an angel being blown backwards into the future

...
She said: What is history?
And he said: History is an angel being blown backwards into the future
He said: History is a pile of debris
And the angel wants to go back and fix things
To repair the things that have been broken But there is a storm blowing from Paradise
And the storm keeps blowing the angel backwards into the future
And this storm, this storm is called Progress

vocals: Laurie Anderson

Quarta-feira, Novembro 3

o anjo

O anjo, no entanto, assemelha-se a tudo de que eu tive de me separar: as pessoas e sobretudo as coisas. Nas coisas que já não tenho, ele reside. Ele torna-as transparentes e atrás delas todas, aparece-me aquele para quem são destinadas. Walter Benjamin

Terça-feira, Novembro 2

I don't vote for Bush



Krzysztof Wodiczko --> Homeless Vehicle in New York City

My Heart

I'm not going to cry all the time
nor shall I laugh all the time,
I don't prefer one "strain" to another.
I'd have the immediacy of a bad movie,
not just a sleeper, but also the big,
overproduced first-run kind. I want to be
at least as alive as the vulgar. And if
some aficionado of my mess says "That's
not like Frank!", all to the good! I
don't wear brown and grey suits all the time,
do I? No. I wear workshirts to the opera,
often. I want my feet to be bare,
I want my face to be shaven, and my heart -
you can't plan on the heart, but
the better part of it, my poetry, is open.

Frank O'Hara

perdidos em Tóquio

Charlotte:

I tried taking pictures, but they were so mediocre. I guess every girl goes through a photography phase. You know, horses... taking pictures of your feet.

Segunda-feira, Novembro 1

Tokyo Diary



Tóquio é uma das cidades mais tristes do mundo, diz Nobuyoshi Araki.

Um lugar.

Onde nenhum. Um tempo para tentar ver. Tentar dizer. Quão pequeno. Quão vasto. Se não ilimitado com que limites. Donde o obscuro. Agora não. Agora que se sabe mais. Agora que não se sabe mais. Sabe-se somente que saída não há. Sem se saber porque se sabe somente que saída não há. Somente entrada. E daí um outro. Um outro lugar onde nenhum. Donde outrora dali regresso nenhum. Não. Lugar nenhum a não ser só um. Nenhum lugar a não ser só um onde lugar nenhum. Donde nunca outrora uma entrada. Dalgum modo uma entrada. Sem um só além. Dali donde não há ali. Por lá onde por lá não há. Ali sem de lá nem dali nem sequer por onde.

Samuel Beckett, "Pioravante Marche"
[tradução de Miguel Esteves Cardoso, edição de O Independente e Assírio & Alvim]