Sábado, Novembro 6

une héroïne de Delacroix



Eugene Delacroix, "Rapariga Orfã no Cemitério", 1824, óleo em tela

posso citar Godard?

Para além de tudo mais, há duas frases no "Elogio do Amor" de Jean-Luc Godard que me impressionaram. É precisamente este o verbo, impressionar. Como a luz impressiona a película fotográfica:

C'est lorsque les choses finissent qu'elles prennent un sens.

Pour penser à quelque chose, il faut obligatoirement penser à autre chose.

o andar do flâneur

No texto sobre Walter Benjamim ("Homens em Tempos Sombrios", Relógio d'Água), Hannah Arendt refere que Max Rychner descreveu o modo de andar de Benjamin como «um avançar e ao mesmo tempo um estar parado, uma estranha mistura de ambas as coisas».

Creio que é desta maneira que se movimentam as pessoas que não pertencem ao seu tempo. Os desajustados. Walter Benjamim era, sem qualquer dúvida, assim.

Mais à frente, Arendt escreve: «Poderíamos então dizer que Benjamin não se preparou para nenhuma outra "profissão" além da de coleccionador particular e erudito absolutamente independente, aquilo a que então se dava o nome de Privatgelehrter».

Portanto, um mestre. A seguir com atenção.

Sexta-feira, Novembro 5

A 26 de Setembro de 1940,

Walter Benjamin, que se preparava para emigrar para a América, suicidou-se na fronteira franco-espanhola. Várias razões o levaram a isso. A Gestapo confiscara o seu apartamento em Paris, que continha a sua biblioteca (conseguira fazer sair da Alemanha «a metade mais importante») e muitos dos seus manuscritos; tinha bons motivos para se preocupar também com o destino dos outros manuscritos que, graças aos bons ofícios de Georges Bataille, tinham sido colocados na Biblioteca Nacional antes da sua fuga de Paris para Lourdes, na França não ocupada. Como iria ele viver sem a sua biblioteca, como podia ganhar a vida sem a vasta colecção de citações e excertos que se encontrava entre os seus manuscritos? Além disso, nada o atraía na América, onde, conforme costumava dizer, provavelmente ninguém saberia o que fazer dele além de o passearem pelo país inteiro, exibindo-o como o «último europeu». Mas a causa imediata do suicídio de Benjamim foi um azar verdadeiramente excepcional. Nos termos do armistício entre a França de Vichy e o Terceiro Reich, os refugiados da Alemanha hitleriana - les réfugiés provenant d’Allemagne, como eram oficialmente designados em França - corriam o risco de serem repatriados, o que presumivelmente só aconteceria no caso de se tratar de opositores políticos. Para salvar esta categoria de refugiados - que, sublinhe-se de passagem, nunca incluiu a massa apolítica dos judeus que mais tarde vieram a revelar-se os mais ameaçados de todos - os Estados Unidos tinham distribuído um certo número de vistos de emergência através dos seus consulados na França não ocupada. Graças aos esforços do Instituto, em Nova Iorque, Benjamim foi um dos primeiros a receber um desses vistos em Marselha. Obteve também rapidamente um visto de trânsito espanhol que lhe permitia chegar a Lisboa e embarcar aí num navio. Não dispunha, no entanto, do visto de saída francês, que nesse tempo ainda era necessário e que o Governo francês, ansioso por agradar à Gestapo, invariavelmente negava aos refugiados alemães. Em geral, isto não representava um obstáculo intransponível, pois era bem conhecida uma entrada relativamente curta e não dfícil de percorrer a pé, que atravessava a montanha até Port-Bou e que a polícia de fronteiras francesa não guardava. Ainda assim, para Benjamin, que aparentemente sofria de problemas cardíacos, a mais breve caminhada constituía um esforço enorme, e ele deve ter chegado absolutamente exausto. O pequeno grupo de refugiados em que se integrava atingiu o posto fronteiriço espanhol e soube aí que a Espanha fechara a fronteira nesse mesmo dia e que os funcionários da alfândega não aceitavam vistos emitidos em Marselha. Os refugiados teriam que regressar a França pelo mesmo caminho no dia seguinte. Durante a noite Benjamin pôs termos à sua vida, e os funcionários, impressionados com o suicídio, autorizaram os seus companheiros a seguir viagem até Portugal. Algumas semanas mais tarde, o embargo aos vistos foi revogado. Um dia antes, Benjamin teria passado a fronteira sem dificuldades; um dia depois já se saberia em Marselha que nesse momento não era possível atravessar a Espanha. Só naquele dia era possível a catástrofe.

Walter Benjamin, um dos "Homens de Tempos Sombrios", de Hannah Arendt

Quinta-feira, Novembro 4

Anselm Kiefer: Nuremberga

In Memorian Dr. K. H. G.

- Hölderlin ist ihnen unbekannt?* - perguntou o Dr. K. H. G. enquanto estava a fazer a cova para o cadáver de um cavalo.
- Quem era? - perguntou o guarda alemão.
- O autor de Hyperion - explicou o Dr. K. H. G.., que gostava muito de explicar as coisas. - A figura mais significativa do romantismo alemão. E Heine, por exemplo?
- Quem são eles? - perguntou o guarda.
- São poetas - disse o Dr. K. H. G. - E o nome de Schiller, também não lhe diz nada?
- Conheço sim - disse o guarda alemão.
- E Rilke?
- Esse também - disse o guarda alemão, que ficou vermelho como um pimento quando abateu a tiro o Dr. K. H. G.

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* «Não conhece Hölderlin?»

página 37 de "Histórias de 1 minuto, vol.1" de István Örkény
[tradução de Piroska Felkai e edição da cavalo de ferro]

Comunicado Oficial do Governo – Depois da Vitória Universal das Ideias do Comunismo

István Balogh, tratador de cavalos na Cooperativa dos Fazendeiros do Estado de Bábolna, começou as suas férias anuais*.

Agência Noticiosa Húngara

* O jornal diário do Partido Comunista Húngaro, Népszabadsg, anunciava todos os anos o seguinte: «Kádár Janos, Primeiro Secretário do Partido Socialista Húngaro dos Trabalhadores, começou hoje as suas férias anuais.»

página 87 de "Histórias de 1 minuto, vol.1" de István Örkény
[tradução de Piroska Felkai e edição da cavalo de ferro]

it's time to make a revolution

Gosto muito desta fotografia de Josef Koudelka: a Praça Wenceslau, em Praga, vazia e o relógio, em primeiro plano, a avisar que algo se passa.

E o que se passa é o vazio. Ao fim da tarde era normal a praça encher-se de pessoas, obrigadas a prestar vassalagem ao opressor, agitando-se em falsas manifestações de júbilo. Mas neste dia ninguém saiu à rua.

A força do silêncio pode ser esmagadora. Quando nos tiram tudo, temos ainda o silêncio. É esse silêncio perturbador que ouvimos na fotografia.

Dizer não. Cerrar os lábios e dizer não. Dizer não.

o relógio de Koudelka



Checoslováquia, 1968, © Josef Koudelka

History is an angel being blown backwards into the future

...
She said: What is history?
And he said: History is an angel being blown backwards into the future
He said: History is a pile of debris
And the angel wants to go back and fix things
To repair the things that have been broken But there is a storm blowing from Paradise
And the storm keeps blowing the angel backwards into the future
And this storm, this storm is called Progress

vocals: Laurie Anderson

Quarta-feira, Novembro 3

o anjo

O anjo, no entanto, assemelha-se a tudo de que eu tive de me separar: as pessoas e sobretudo as coisas. Nas coisas que já não tenho, ele reside. Ele torna-as transparentes e atrás delas todas, aparece-me aquele para quem são destinadas. Walter Benjamin

Terça-feira, Novembro 2

I don't vote for Bush



Krzysztof Wodiczko --> Homeless Vehicle in New York City

My Heart

I'm not going to cry all the time
nor shall I laugh all the time,
I don't prefer one "strain" to another.
I'd have the immediacy of a bad movie,
not just a sleeper, but also the big,
overproduced first-run kind. I want to be
at least as alive as the vulgar. And if
some aficionado of my mess says "That's
not like Frank!", all to the good! I
don't wear brown and grey suits all the time,
do I? No. I wear workshirts to the opera,
often. I want my feet to be bare,
I want my face to be shaven, and my heart -
you can't plan on the heart, but
the better part of it, my poetry, is open.

Frank O'Hara

perdidos em Tóquio

Charlotte:

I tried taking pictures, but they were so mediocre. I guess every girl goes through a photography phase. You know, horses... taking pictures of your feet.

Segunda-feira, Novembro 1

Tokyo Diary



Tóquio é uma das cidades mais tristes do mundo, diz Nobuyoshi Araki.

Um lugar.

Onde nenhum. Um tempo para tentar ver. Tentar dizer. Quão pequeno. Quão vasto. Se não ilimitado com que limites. Donde o obscuro. Agora não. Agora que se sabe mais. Agora que não se sabe mais. Sabe-se somente que saída não há. Sem se saber porque se sabe somente que saída não há. Somente entrada. E daí um outro. Um outro lugar onde nenhum. Donde outrora dali regresso nenhum. Não. Lugar nenhum a não ser só um. Nenhum lugar a não ser só um onde lugar nenhum. Donde nunca outrora uma entrada. Dalgum modo uma entrada. Sem um só além. Dali donde não há ali. Por lá onde por lá não há. Ali sem de lá nem dali nem sequer por onde.

Samuel Beckett, "Pioravante Marche"
[tradução de Miguel Esteves Cardoso, edição de O Independente e Assírio & Alvim]