Não tinha vocação para estátua. Anos e anos, séculos, o tempo todo debaixo do inclemente sol de Verão, sob a fria chuva de Inverno, cagado das moscas, pombas e pardais, mijado por cães, gatos, ratos e várias gerações de bêbados. Sentia-se cansado. Aquilo não era vida para alguém da sua idade e condição. Era maçadora, aborrecida, enfadonha; mas também monótona, sem brilho nem surpresa, acanhada, repetitiva, cruel. Estou a tentar encontrar uma palavra para descrever aquela espécie de existência. Bom, digamos que a tristeza cobria a sua vida como um enorme chapéu.
Uma noite, quando a praça se achava deserta, tomou uma decisão muito singular. Mexeu uma perna, depois outra e, sem pedir licença às autoridades locais, pôs-se em fuga. Saiu da praça a correr e desapareceu no vasto mundo. Dizem-me, e acredito, que o efeito de uma estátua de bronze a correr é irresistivelmente cómico.
Foi capturado alguns dias depois, por um caçador de estátuas, a três mil e seiscentos quilómetros de distância. Mais coisa, menos coisa.