Segunda-feira, Julho 13

Leitura de Férias (PUB)

Este Verão, escolha um livro altamente recomendado pelos supermercados Fnac, Bertrand, Books & Living e Modelo-Continente.

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Domingo, Julho 12

A vida com árvores # 10

Janela aberta, vento nas árvores altas ao fundo, escrevo, re-escrevo, avanço, tenho de avançar. Do meu lugar não vejo o jardim, apenas o muro. Do mesmo branco que a página em branco no computador. Quando a laranjeira crescer virá para o meio da página. As palavras poderão pousar como pássaros. Esconder-se de outra maneira. Procurarei no verde sem ter de erguer os olhos.

posted by Luís Mourão @ 19:24

Na insónia

O homem deita-se cedo. Não pode conciliar o sono. Dá voltas, como é de supor, na cama. Enreda-se entre os lençóis. Acende um cigarro. Lê um pouco. Torna a apagar a luz. Mas não pode dormir. Às três da madrugada levanta-se. Acorda o amigo do lado e confia-lhe que não pode dormir. Pede conselho. O amigo lhe aconselha a dar um pequeno passeio a fim de cansar-se um pouco. Que em seguida tome uma xícara de chá de cidreira e que apague a luz. Faz tudo isto, mas não consegue dormir. Torna a levantar-se. Desta vez recorre ao médico. Como sempre sucede, o médico fala muito, mas o homem não dorme. Às seis da manhã carrega um revólver e estoura os miolos. O homem está morto, mas não pôde dormir. A insónia é uma coisa muito persistente.

Virgílio Piñera, "Projecto para um sonho". Tradução de Teresa Cristófani Barreto.

Sábado, Julho 11

TOM WAITS: You remember when they drained McArthur Park, the lake?
BECK: I do, yeah...
TOM WAITS: They found unbelievable things: Cars, human bones, weaponry.
BECK: They should have done an exhibit.
TOM WAITS: I don't know why they didn't. I thought that's why they drained it.
BECK: I'd always heard that when they drained the Echo Park Lake they found an amateur submarine.
TOM WAITS: Oh, my God.
BECK: I don't know if that was lore.
TOM WAITS: You mean a homemade submarine?
BECK: Yeah, I think it was older too, from the early days of "home submarine building".

***

TOM WAITS: Where does this "Best" thing come from? Is that human? Is that American? Is it all over the world? Everyone wants the best eye surgeon, the best babysitter, the best vehicle, the best prosthetic arm, and the best hat. There's also the worst of all those things available and they're doing rather well. (Laughs.) Denny's is doing great. It's always crowded. You have to wait for a table.
BECK: Also this obsession with ranking. All the "Best of" lists. I get asked to write "Best of" lists occasionally. An emphasis on ranking things. Having a hierarchy and having it be written in granite, written in stone.
TOM WAITS: It's economic. So you can charge more.
BECK: Yeah, it must be. But maybe it's just a need to have some order that's been established, and that everybody has been notified. I don't know.
TOM WAITS: There's too much of everything.
BECK: Maybe it's a millennial thing. It started around the millennium. "What are the best movies? What are the best songs?"
TOM WAITS: Well, then there's the pressure of feeling that you need to have what has been already rated the best. A lot of people are afraid to explore their own peculiar taste for fear - that it would be uncool. Just like when you're a teenager you don't want to be caught with the wrong sports shirt, the wrong socks.

***

BECK: I was reading about the Greek playwright, Euripides, and a few others. He had written 105 plays and two of the plays survived from antiquity. I was thinking, "Can you imagine writing 105 plays, and you had to write 105 for one or two of them to survive?" I was thinking maybe in a way that the people who were influenced by the lost plays are the ones who are going to help them survive in some way. It's not really about what you're doing originally, it's about the transmitting of the thing to the next person. It mutates along the way and turns into other things.
TOM WAITS: You leave a little map for somebody. Maybe the others were lesser works. Or maybe the two that survived were lesser works.
BECK: Maybe they were the throwaways? You never know. Maybe there's things in there that were lost that would've changed everything?
TOM WAITS: That's very possible.
BECK: The throwaway ones that he wrote to make the deadline are the ones we have.
TOM WAITS: It's like they found one of those van Gogh's at a garage sale. This woman bought it and she was using it to block out the sun in her kitchen. She was using it as a window shade, so it was getting all faded from the sun. And she cut it because it didn't fit the window. When they finally discovered she had a van Gogh as a window shade, they brought in all these experts from the museum and they were all filling in her living room and they said, "How can you cut off the top off this painting?" And she said, "It was just a little piece of the sky." Sometimes it's the value you attach to things. It's subjective. And we record on stuff that's going to disintegrate. Just like films are made on celluloid that's going to vanish, it's going to be gone. It's like drawing on wax paper or something.
BECK: Yeah, I think I read that only twenty percent of the films made before 1930 have survived.

Versão completa aqui.

Sexta-feira, Julho 10

Aquele clarão branco

Christoph van Elden perdeu todos os dentes num só dia. A coisa começou pela manhã e ao princípio da tarde já não restava nenhum na arcada superior. “Apesar de tudo”, pensou, “a situação não é grave, pois restam-me ainda vários na arcada inferior”. Mas tinha acabado de pensar isto quando caiu mais um.
Seguiu então, como habitualmente, pela Avenida Bommel e, parando na frente de uma tabacaria para ler os títulos dos jornais, perdeu outro. As coisas começavam a ficar feias. Christoph tirou um lenço, assoou o nariz e caiu outro ainda. Apanhou-o e observou-o entre os dedos: era o molar que o incomodava há anos e que o dentista declarara sempre, contra todas as evidências, saudável e cheio de vida.
Entretanto, a própria língua começara a empurrar um incisivo como se quisesse pô-lo fora da boca, o que veio a suceder por volta das três da tarde. Christoph arranjou a gravata, passou a mão pelo cabelo, olhou o horizonte com ar sonhador, o sol por entre os edifícios, imaginou prados cobertos de papoilas, deu alguns passos decididos e caíram sete dentes de uma vez. “Os dentes têm uma maneira muito própria de se expressarem”, pensou filosoficamente. E acrescentou em voz alta, por dentro, para si mesmo: “É uma coisa que salta logo à vista.” Nesse preciso instante, o penúltimo dente caiu no chão e deu dois pulos à sua frente.
Chegou, por fim, a noite; mas também não trouxe nada de bom. Sobrava um único dente. Um triste, desolado e solitário canino do lado direito. Foi quando aconteceu aquele clarão branco. E o dente voou, de alma tão leve como sombra de borboleta, para muito longe.
Quando Bertrand Russell entra no mundo festivo do ócio e da negação do trabalho, sente que as suas opiniões passam por "uma revolução". E continua assim: "Penso que se trabalhou demasiado no mundo, que a crença de que o trabalho é uma virtude causou enormes danos e que o que se deve pregar nos países industrializados modernos é completamente diferente do que sempre se pregou."
(...)
Russell lamenta que aqueles que se reformam se dediquem a fazer outros trabalhos e se mantenham activos do ponto de vista produtivo, no sentido tradicional do termo. Do mesmo modo, investe contra os que poupam dinheiro ("o verdadeiro malvado... é o homem que poupa"). Porquê? Porque o homem que guarda obsessivamente o dinheiro não está a fazer outra coisa senão a emprestar as suas poupanças "ao governo". (...) Não poupar dinheiro, transgredir, folgar, ser, enfim, preguiçoso, um pouco libertino, moralmente um vagabundo - exercer the right to be lazy -, é, em boa medida, fazer oposição.
(...)
Russell prefere uma boa pândega a um mau caminho-de-ferro, um prazer bem aproveitado a um trabalho mal empregue. Uma boa pândega pode beneficar muita gente: "O talhante, o padeiro, o traficante de álcool." E se o dinheiro é gasto "em colocar carris em lugares onde os eléctricos são desnecessários, terá sido desviada uma considerável quantidade por caminhos que não darão prazer a ninguém".

Iván de la Nuez, "Fantasia Vermelha". Tradução de Ana Bela Almeida.


Bertrand Russell.

Quinta-feira, Julho 9

Diário de Bernfried Järvi

6 de Julho de 1978
Nos últimos dias, saindo do escritório, escolho o caminho mais longo para regressar a casa. Percorro a pé toda a cidade de Berlim com o passo rápido de alguém que tem uma missão a cumprir: encontrar uma ideia. Uma ideia que salve o dia, a semana, o mês. Uma ideia, quem sabe, que me salve a vida.

Quarta-feira, Julho 8

Em busca da palavra certa? Fácil, meu chapa. Siga o fio furtivo da pulga que costura o pêlo negro do cachorro.

Dalton Trevisan, "234".

Thomas

Era um homenzinho cinzento. Herdara o tom directamente do pai. A mãe, pelo contrário, fora sempre de um admirável e resplandecente azul. Mas isso de pouco valeu a Thomas. A natureza tinha seguido o seu caminho. E o resultado foi que nunca o mundo conhecera um homenzinho mais cinzento. Os velhos escavavam na memória sem encontrarem ninguém parecido. Mudo como uma coluna. Impassível como uma igreja vazia. Um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico, pequeno e barrigudo (receio que a lista se torne interminável). Nunca a sorte o surpreendera, nunca o destino lhe preparara uma emboscada.
Deixava-se ficar sentado nos cafés durante horas a observar as pessoas. Oh, todas elas tão brilhantes! Qualquer uma delas infinitamente mais brilhante do que ele. Depois, regressava a casa, estendia-se na cama, fechava os olhos e, muito simplesmente, adormecia. Nos seus sonhos, o tom continuava o mesmo: cinzento. Por vezes, sonhava que era capaz de assoar furiosamente o nariz e com isso iluminava a noite. Mas de manhã tudo permanecia igual.
E os dias, os meses, os anos sucediam-se de acordo com aquilo que todos concordamos chamar “a marcha do mundo”. E o cinzentismo de Thomas ia dando lugar a uma tonalidade cada vez mais sombria. Tornara-se praticamente invisível no escuro. Apenas se distinguiam os seus olhos vagos, rolando à volta, para todos os lados, como os de um gato pardo. Até que uma noite, até que uma noite, sim, até que uma noite desapareceu para sempre como se a escuridão o tivesse engolido.
E é tudo.

Terça-feira, Julho 7

Meu companheiro, já na rua, fez-me contemplar a fachada do edifício, fazendo-me observar sua velhice. "Parece - disse-me - do século XVIII...", mas, nem havia acabado de pronunciar estas palavras teve de rectificá-las, pois agora parecia um edifício construído, no máximo, há dez anos. O porteiro (havia um porteiro) esclareceu-nos que o edifício ia-se fazendo e refazendo segundo o mais arbitrário desígnio, e que sempre estava e estaria em perpétua edificação; que jamais adoptaria uma forma definitiva ou um estilo determinado.

Virgílio Piñera, "Projecto para um sonho". Tradução de Teresa Cristófani Barreto.


Virgílio Piñera, 1970.

Segunda-feira, Julho 6

[Durante a sua visita a Cuba, em 1960,] Sartre observa tudo. Por exemplo, as barbas cubanas, que lhe parecem tão diferentes das de Saint-Germain-de-Prés, as quais se "cuidam" e "cultivam", "flores de queixo, todas iguais", enquanto que "nos cubanos, cada uma cresce como pode, segundo a vontade do sistema piloso". Sartre atenta nos barbados e nos imberbes, nos de rosto enrugado e nos que o têm liso.

Iván de la Nuez, "Fantasia Vermelha". Tradução de Ana Bela Almeida.

Domingo, Julho 5

Não há, em Portugal, uma tradição subversiva. São poucos os autores portugueses que poderiam entrar no catálogo da Antígona, e esses estão editados noutras editoras.

Luís Oliveira, editor da Antígona.

Absolutamente a não perder

Sexta-feira, Julho 3

Uma paisagem da região de Budesheim

“Uma paisagem da região de Budesheim”, foi o que o cliente pediu a Holbein. O contrato foi celebrado em Março de 1523. O pintor deu início ao trabalho no mês seguinte. Instalou-se em Budesheim e pintou durante largos dias. Árvores vagamente azuis, a erva verde da planície, um velho portão de madeira retorcida, muros cobertos de musgo, duas ou três casas cinzentas e uma longa névoa alaranjada a envolver tudo.
O trabalho ficou concluído em Maio de 1523. Trata-se de uma conhecida tela de 86 x 107 cm., intitulada justamente “Uma paisagem da região de Budesheim” e onde figura apenas um auto-retrato do pintor. A boca aberta num amplo sorriso, ruidoso e grotesco, milhares de dentes a luzir, o nariz roxo, os braços abertos e as pontas dos dedos segurando duas orelhas.
O cliente recebeu o quadro em casa, perto de Basileia, em Junho de 1523. Pagou o valor acordado e acrescentou-lhe ainda uma gratificação muito substancial.

Mais uns dias de férias. Praia. Talvez vá a Vila do Conde. Falhar Cézanne em Lisboa. Falhar outras coisas. Dedicar-me à verdadeira vida suburbana. Ler o segundo volume d' O Romance do Genji sem interrupções. Procurar Kitsune em Cândido dos Reis. Volto em breve.


Nota posterior: O belíssimo filme de João Penalva não está em Cândido dos Reis mas, em contrapartida, vai ser projectado no próximo dia 15, às 22h00, no Passos Manuel.

Quarta-feira, Julho 1


Oportunidade de conhecer o trabalho de Khalil Joreige e Joana Hadjithomas antes do efeito Catherine Deneuve. Em Vila do Conde. Com um empurrão do senhor Rancière:
... For me, the fundamental question is to explore the possibility of maintaining spaces of play. To discover how to produce forms for the presentation of objects, forms for the organization of spaces, that thwart expectations. The main enemy of artistic creativity as well as of political creativity is consensus — that is, inscription within given roles, possibilities, and competences. Godard said ironically that the epic was for Israelis and the documentary for Palestinians. Which is to say that the distribution of genres — for example, the division between the freedom of fiction and the reality of the news — is always already a distribution of possibilities and capacities: To say that, in the dominant regime of representation, documentary is for the Palestinians is to say that they can only offer the bodies of their victims to the gaze of news cameras or to the compassionate gaze at their suffering. That is, the world is divided between those who can and those who cannot afford the luxury of playing with words and images. Subversion begins when this division is contested, as when a Palestinian filmmaker like Elia Suleiman makes a comedy about the daily repression and humiliation that Israeli checkpoints represent and transforms a young Palestinian resistance fighter into a manga character. Think also of the work of Lebanese artists like Walid Raad, Khalil Joreige, Joana Hadjithomas, Tony Chakar, Lamia Joreige, and Jalal Toufic, who, through their films, installations, and performances, blur the interplay between fact and fiction to establish a new relationship to the civil war and to the occupation, by way of the subjective gaze or the fictive inquiry, making "fictional archives" of the war, fictionalizing the détournement of a surveillance camera to film a sunset, or playing with the sounds of mortar shells and fireworks, and so on. This very constructed, at times playful, relationship to their history addresses a spectator whose interpretive and emotional capacity is not only acknowledged but called upon. In other words, the work is constructed in such a way that it is up to the spectator to interpret it and to react to it affectively.

Entram um gigante à civil e um anão de uniforme

O GIGANTE: Você é que tem sorte, pode tornar-se útil à comunidade. A mim, o médico do regimento mandou-me logo embora.
O ANÃO: Por que motivo?
O GIGANTE: Por não ter força que chegue. Quer dizer, de acordo com o velho resultado da inspecção, de há quinze anos. Nessa altura tinha o mesmo aspecto que você tem agora.
O ANÃO: Se é assim, admiro-me que não tenham querido que você ficasse. A mim, o médico mal me viu fiquei logo apurado. A mamã ficou tristíssima.
O GIGANTE: Que filhinho da mamã você me saiu.
O ANÃO: Mas eu estou contente. Cresce o homem quanto mais alto aspira. A princípio, é certo que tive dúvidas sobre se estaria à altura desta grande época e se estaria em condições de combater ombro com ombro. Mas à paisana só se ouvem piadas e da tropa regressarei como um herói sobre cuja cabeça muitas balas hão-de ter passado. Os outros atiram-se para o chão, mas eu... fico de pé!
O GIGANTE: Seu felizardo!
O ANÃO: Deixe lá, a culpa não é sua. A junta é que decide.
O GIGANTE: Eu safei-me limpinho.
O ANÃO: A mim o médico topou-me logo.
O GIGANTE: Vamos comer, estou com uma fome de gigante.
O ANÃO: Eu como qualquer coisinha.

Karl Kraus, "Os últimos dias da Humanidade". Tradução de António Sousa Ribeiro.

Terça-feira, Junho 30

Que o que não pôde ser na acção seja na criação

Como escudar-me do medo? Com relação a isto, o escudo seria a literatura. Além de escrever o que vivemos, escrevemos também o que não vivemos. Que o que não pôde ser na acção seja na criação. É neste sentido que me servi da literatura como um escudo.

Virgilio Piñera, introdução a "Contos Frios". Tradução de Teresa Cristófani Barreto.

a mesa

Realizou-se uma conferência internacional de filósofos no Hawai sobre o tema da Realidade.
Durante três dias Daisetz Teitaro Suzuki não disse nada.
Finalmente, o moderador virou-se para ele e perguntou: "Dr. Suzuki, diria que esta mesa, à volta da qual estamos sentados, é real?"
Suzuki levantou a cabeça e disse sim.
O moderador perguntou em que sentido Suzuki pensava que a mesa era real.
Suzuki disse: "Em todos os sentidos."

John Cage, indeterminacy #116

Segunda-feira, Junho 29

a arte de falhar o alvo


Há quatro anos, ou talvez cinco, conversava com Hidekazu Yoshida. Estávamos no comboio de Donaueschingen para Colónia. Eu falei do livro de Herrigel chamado "Zen e a Arte do Tiro Com Arco"; o clímax melodramático deste livro tem a ver com um arqueiro acertar no olho do touro, na mais completa escuridão. Yoshida disse-me que o autor se esquecera de assinalar uma coisa, é que vive actualmente no Japão um estimadíssimo arqueiro que ainda não foi capaz de acertar no olho do touro, mesmo em pleno dia. John Cage, indeterminacy #26

Domingo, Junho 28

Dois que se desenrascaram encontram-se.

O PATRIOTA: (...) O que eu gostava de saber era, como é ele em pessoa?
O ASSINANTE: Em pessoa... é difícil de dizer. De momento, está muito angustiado, desgraçadamente depois de amanhã tem de ir à inspecção.
O PATRIOTA: Ah, sim, mas porque é que ele está angustiado?
O ASSINANTE: Ora, por causa da inspecção!
O PATRIOTA: Angustiado? Porque está cheio de medo de não ficar apurado?
O ASSINANTE: Não percebo o que está a dizer, ele está angustiado, é evidente, porque receia que vá ficar apurado!
O PATRIOTA: Não se faça de engraçado. Hans Muller? O Hans Muller que se esfarrapa pela pátria? Ora essa! É que eu nunca ouvi falar de ninguém que desse tanto a impressão como ele de que está disposto a dar a vida pela união dos Nibelungos! E eu que tinha a ideia de que naquela altura ele regressou de propósito da Alemanha, onde foi dar um abraço aos guerreiros, à nossa tropa de cotim, porque está em pulgas, porque quer oferecer-se voluntário! Ele vai ficar mas é feliz e contente, foi o que pensei, se eles o apurarem...? E se não o apurarem, sabe Deus do que será capaz!

Karl Kraus, "Os últimos dias da Humanidade". Tradução de António Sousa Ribeiro.

PHE: Os moradores do bairro foram realojados um bairro novo, o que foi documentado por si. Como é que foi vivida esta mudança?

Pedro Costa: Esperavam muitíssimo, estavam ansiosos por mudar. Agora passaram quatro anos e estão muito tristes. Não gostam de viver ali porque estão separados. Já não é possível a vida da rua, não é possível fazer nada do que faziam, como por exemplo os churrascos, a carne assada... a polícia não deixa, há leis europeias que impedem esse tipo de coisas. Perderam todo o dinheiro que tinham a comprar móveis e televisores, para reproduzir os modelos das casas das pessoas endinheiradas que limpam.
É tudo um pouco violento, mas não falo de uma violência física, é uma violência de outro género. Antes não era assim, eram pobres, miseráveis, sem condições mínimas para viver... mas tinham o bairro. O bairro é uma atitude. As pessoas do bairro não gostam de mudar nem de sair, cria-se uma espécie de gueto que se vai ampliando.


Excerto de uma entrevista com Pedro Costa | In PhotoEspaña 2009 | © SNPC (trad.)
— quando parece que não há nada, é quando na realidade há alguma coisa.

A cada vez que vejo JUVENTUDE EM MARCHA, assusto-me. Ontem à noite, talvez por estar estendida no sofá, desinteressei-me completamente da história: do bairro velho esverdeado, do bairro novo branco cheio de aranhas, dos encontros entre pais e filhos, da luta e resistência dos finados (é daí que vem Ventura, como Leão em CASA DE LAVA), da apatia e desistência dos mais novos.
Vi tudo a uma distância maior e lassa — o próprio ecrã da televisão afasta — , e por isso reparei melhor na densa afinidade entre Ventura e o olhar de Pedro Costa. A colocação da câmara, o confronto dos ângulos, a luz ou as sombras que preenchem os planos, têm exactamente a forma de Ventura. Como se Pedro Costa e a sua máquina tivessem feito um pacto de sangue com esse homem meio vivo meio morto (o poder dos mortos é desmedido e perigoso), algo dessa ordem — Apolo entrelaçado em Dioniso, no profundo coração das trevas. Sempre acreditei que o amor também é uma coisa diabólica, mais obscura que radiosa. É noite ainda.