quarta-feira, Abril 16

Uma história longínqua que nos acompanha a passos lentos.

terça-feira, Abril 15



Le Petit Silence Illustré - La seule revue qui n'ait strictement rien à dire. 
Revista criada e dirigida por Jacques Sternberg, em 1955. Páginas do número 3/4, Abril/Maio de 1955.

A vidraça

O ourives mantinha-se de pé por detrás da montra a observar com certa emoção aquele provável cliente que havia alguns minutos parecia hesitante na escolha. Pelo ar sobressaltado do indivíduo, o ourives percebeu que ele se decidira e, estupefacto, viu-o estender o braço, abrir a mão, e fechá-la sobre um colar de diamantes, a peça mais bela da casa, por sinal.
O indivíduo meteu calmamente a jóia ao bolso e foi-se embora.
Arrancando-se ao seu entorpecimento, o ourives ainda saiu para examinar a montra. Não havia dúvida; estava tudo exactamente como os seus olhos lhe diziam: a vidraça não estava partida, não estava rachada, não estava sequer riscada.

Jacques Sternberg, 270 contos de arrepiar. Tradução de Manuel João Gomes.

Sternberg é o autor em destaque na próxima Leitura do Gato Vadio, sábado, 19 de Abril, pelas 17h00. 

segunda-feira, Abril 14

Próximo sábado, 19 de Abril, pelas 17h00.



Imagem de Luís Nobre.

Gato Vadio: Rua do Rosário, 281, Porto.

domingo, Abril 13

O pedido

Posso pedir-lhe o pé de sua filha? - perguntou o homem ao pai da noiva que por acaso era maneta.

Jacques Sternberg, 270 contos de arrepiar. Tradução de Manuel João Gomes.

sábado, Abril 12

Jean-Baptiste

Lully bateu com o bordão de maestro no pé.
O pé morreu de gangrena.
A seguir morreu Lully.
O bordão morreu depois.

The Cellar: An Escape

O início do terceiro capítulo da autobiografia de Thomas Bernhard é um dos melhores estudos sobre o percurso e trabalho de Pedro Costa? Sim, mais coisa menos coisa.

sexta-feira, Abril 11

- Olha, o soft power sagrado atacou a cerejeira.
Diógenes, surgindo.
Explicação do mundo: sclormdrvitchilikitchikioucdichitribicicmjoljaguygiuiji.

Trindade
A linguagem é uma matéria – e é por isso que ela é a mestra! Eis a minha boca que o diz: a palavra boca não come; a palavra água escorre quando é pronunciada; a palavra fogo não arde – e no entanto a palavra árvore queima, a palavra homem vai matar o seu próximo, a palavra cão ladra, a palavra tonelada não pesa muito, a palavra luz não ilumina.

Sibila
Ou um objecto razoa como uma palavra ou a coisa ressoa contra uma palavra: não consigo sair desta réplica.

Raquel
A palavra cão não ladra.

Trindade
A não ser este!

Raquel
Ahhhrch!

Sibila
O que é que tu dizes?

Trindade
O ladrante fala.

Sibila
A palavra cão não ladra.

Raquel
Mas morde!

Ela sangra.

Trindade
Mudem a linguagem: não digas mais ooo mas iii, ooo mas iiii, ooo mas iii, aaa mas uuu.

Raquel
Acredito agora que a palavra faca poderá cortar-me a cabeça.

Sibila Ó meu Deus, faz com que a palavra cão não ladre! Senão, vou cortar a minha garganta com a palavra faca!

quinta-feira, Abril 10

quarta-feira, Abril 9

Um recado

Era assaz espantoso aquele letreiro pregado na porta de um jazigo: VOLTO DENTRO DE INSTANTES.

Jacques Sternberg, 270 contos de arrepiar. Tradução de Manuel João Gomes.

Livro dos feitiços e encantamentos #9


PARA GANHAR AO XADREZ


INGREDIENTES:

1 guarda-chuva
1 mapa desdobrável da região da Patagónia
1 esponja de banho
O casco de um cavalo
7 frascos de erva-do-diabo*
3 dentes de ouro
1 macaco empalhado por mão de mestre
Casca de 5 limões
1 agulha e linha de coser


MODO DE FAZER:

Colocar todos os ingredientes nos bolsos e esperar, pestanejando muito devagar, em movimentos regulares, metódicos, sem falhas. Quando os olhos transbordarem de visões, correr pelo telhado, correr, correr, chispando entre os pombos e as nuvens. 

Descer do telhado e tirar os ingredientes dos bolsos, primeiro uns e depois outros, e dispô-los em cima de uma mesa de cozinha. A tarefa não é tão fácil como se possa imaginar. Proceder com algum cuidado.

Usar a agulha e a linha para unir todos os ingredientes, e guardar numa gaveta fechada à chave, juntamente com a casca de uma noz. Roer as unhas e contar de um a duzentos e sessenta mil, sem cair no sono nem bocejar ou coçar a nuca.

Na madrugada do dia seguinte, entoar três cantigas para o Exu, se o xadrezista adversário for um homem, ou três cantigas para a Pomba-gira, se for uma mulher.**

* O mais seguro é colher directamente a erva-do-diabo no campo e transformá-la em pó. Os produtos desta erva disponíveis nas casas da especialidade são, na sua maioria, falsos.
** Se o feitiço não resultar, é prudente não insistir. Nunca fazer segunda tentativa.

terça-feira, Abril 8

Representação gráfica do espírito (wikipédia).

segunda-feira, Abril 7

Abril. As árvores murmuram-nos coisas estranhas ao ouvido.

domingo, Abril 6

sábado, Abril 5

Hoje, sábado, 5 de Abril, pelas 17h00



A imagem da leitura, belíssima, como sempre, é do Luís Nobre.
Numa peça em cinco actos que Erik Satie e Jules Dépaquit escreveram em colaboração, no fim do século XIX, o último gag diz respeito a um tipo estranho, misterioso, que durante os cinco actos do drama passa e volta a passar no fundo do palco, com os braços carregados de relógios. Porquê? Só no final da última cena se tem acesso à chave do enigma: esse homem transporta relógios porque é relojoeiro.

sexta-feira, Abril 4

(Pelo contrário:) Deitar tudo a perder, não consigo lembrar-me de um gesto mais cheio de esperança.
Diz Cocteau que Satie um dia lhe tinha confessado: «Quero fazer uma peça de teatro para cães, e já sei qual é o cenário. Quando o pano abrir, mostrará um osso.»

quinta-feira, Abril 3

Thomas Bernhard:

Um esquema filosófico baseado em anedotas que é ao mesmo tempo uma teoria geral das lágrimas.
MEDUSA: Pois, claro!... Pois claro!... Está a parecer-me que já o vi em qualquer lado, num local conhecido.
Não haja dúvidas.
POLICARPO: Mas onde poderá ter sido, senhor?
MEDUSA: Nas borras de café... Costumo consultá-las muitas vezes... só para me divertir. Aliás, gosto muito de café, principalmente do bom. (Dá um estalo com a língua.) Traz-me uma recomendação de quem?
ASTOLFO: Do general Póstumo, senhor.
MEDUSA: Acabei agora mesmo de lhe telefonar. Que boa criatura! É a bondade em pessoa & faz sempre tudo o que estiver na sua mão fazer.
Um dia, passava ele uma revista às tropas e um coronel apresentou-lhe um homem que ainda não tinha apanhado nenhum castigo.
Cheio de bondade, o general interrogou o soldado:
- O meu amigo nunca apanhou nenhum castigo?
- É verdade, meu general.
- Nesse caso, vou dar-lhe um: trinta dias de prisão.
Ora aqui está um verdadeiro militar!...

Erik Satie, A armadilha de Medusa. Tradução de Alberto Nunes Sampaio.

Próximo sábado, 5 de Abril, pelas 17h00, no Gato Vadio.