terça-feira, Abril 22

Assim gira a roda do destino

Havia um homem que tinha uma voz a soprar histórias dentro da cabeça. Histórias e mais histórias, uma após outra. Dezenas, centenas, milhares de histórias. Eram tantas e tão belas que o homem podia ter ganho a vida a escrevê-las. Uma vida inteira. Até lhe caírem os dedos.
A voz, porém, expressava-se numa língua que o homem desconhecia. Não compreendia uma palavra do que ouvia. Nem uma só daquelas sílabas lhe era familiar. Que língua seria aquela? Nunca soube. Obviamente, nunca chegou a escrever história alguma.
Assim vai o mundo. Assim gira a roda do destino.*

* Uma pergunta: se o homem não conhecia a língua, como podemos saber se aquilo que a voz lhe soprava dentro da cabeça eram histórias? Não há resposta para isto.

Lektion #103

Drohende Gefahr, Angst, Katastrophe.

Diálogo na caixa de correio #35

Tenho lido a maioria dos artigos publicados no El País sobre o García Márquez. Dá para perceber, por contraste, o pudor anglo-americano em falar dele, com excepção de meia dúzia de escritores (mas os leitores do Guardian revelaram-se apaixonados e conhecedores). Um autor que de facto revela uma clivagem entre mundos, literários e não apenas. No mundo hispânico, é apresentado como o Cervantes do século XX. Os anglos preferem o Borges e por isso calam-se, até porque, como sempre, o desconhecem, na sua maioria. 

As cerimónias fúnebres impressionam: http://cultura.elpais.com/cultura/2014/04/22/album/1398132974_580730.html#1398132974_580730_1398133588

E mostram outra coisa, que me impressiona desde que li as memórias do Ruben Darío: a forma como na hispano-América os escritores circulam entre os vários países, num cosmopolitismo interno (e que, em grande parte, dispensa a Espanha) que faz daquelas nações, por um instante, uma única pátria (bolivariana).

segunda-feira, Abril 21

O avestruz

- Agora quero voar - exclamou o avestruz colossal.
E todo o povo das aves se postou sério, em seu redor, à espera.
- Agora quero voar - repetiu. Abriu amplamente as poderosas asas, qual veleiro a todo o pano, e largou pelo chão adiante sem que o perdesse por uma passada sequer.
Vede aqui uma imagem poética daquelas cabeças nada poéticas, que, nas primeiras linhas das suas odes colossais, ostentam discurso imponente, ameaçando elevar-se acima das nuvens e estrelas, permanecendo no entanto sempre fiéis à poeira.

Gotthold Ephraim Lessing, Fábulas. Tradução de Fernando Ribeiro.

os filhos de Yasujiro Ozu

Enquanto debicava o empadão, a minha mãe virou-se para mim e disse: "parece que tens 22 anos".
A tolice daquela idade assustou-me. Depois percebi que é o pensamento que vem a seguir que assusta.

domingo, Abril 20

O cisne olha para as belas estradas, os hotéis cheios, o cabrito e os folares da televisão e esfrega a barriga consolado.

sábado, Abril 19

É hoje à tarde, sábado, 19 de Abril, pelas 17h00.



Imagem de Luís Nobre.

Gato Vadio: Rua do Rosário, 281, Porto.

A sanção

Naquela terra os delitos são numerosos mas há uma única sanção, sempre idêntica.
Empurra-se o condenado para o meio dos carris de uma via férrea, dentro de um interminável túnel. O condenado fica doravante a saber o que o espera. Põe-se a correr. Foge, é a sua última oportunidade. Ilusão, pois o túnel não tem fim.
O condenado corre então até perder o fôlego e a seguir a vida.
Pode contudo afirmar-se que nunca passou nenhum comboio por aquela linha.

Jacques Sternberg, 270 contos de arrepiar. Tradução de Manuel João Gomes.

Sternberg é o autor em destaque esta tarde de sábado, 19 de Abril, pelas 17h00, na Leitura do Gato Vadio. 

sexta-feira, Abril 18

Sacudir o pano do pó à janela: dizer adeus à semana que passou.

quinta-feira, Abril 17

Une chose réussie est une transformation d'une chose manquée. 
Donc une chose manquée n'est manquée que par abandon.

Paul Valéry (Tel Quel, Littérature,  Pléiade Oeuvres II, page 553)

quarta-feira, Abril 16

Law of Dramatic Emphasis: Scenes involving extreme amounts of action are depicted with either still-frames or black screens with a slash of bright color (usually red or white).
Uma história longínqua que nos acompanha a passos lentos.

terça-feira, Abril 15



Le Petit Silence Illustré - La seule revue qui n'ait strictement rien à dire. 
Revista criada e dirigida por Jacques Sternberg, em 1955. Páginas do número 3/4, Abril/Maio de 1955.

A vidraça

O ourives mantinha-se de pé por detrás da montra a observar com certa emoção aquele provável cliente que havia alguns minutos parecia hesitante na escolha. Pelo ar sobressaltado do indivíduo, o ourives percebeu que ele se decidira e, estupefacto, viu-o estender o braço, abrir a mão, e fechá-la sobre um colar de diamantes, a peça mais bela da casa, por sinal.
O indivíduo meteu calmamente a jóia ao bolso e foi-se embora.
Arrancando-se ao seu entorpecimento, o ourives ainda saiu para examinar a montra. Não havia dúvida; estava tudo exactamente como os seus olhos lhe diziam: a vidraça não estava partida, não estava rachada, não estava sequer riscada.

Jacques Sternberg, 270 contos de arrepiar. Tradução de Manuel João Gomes.

Sternberg é o autor em destaque na próxima Leitura do Gato Vadio, sábado, 19 de Abril, pelas 17h00. 

segunda-feira, Abril 14

Pensar a informação não como conteúdo mas como forma. Não dados (matéria), mas fluxo (energia).
Não interessa o que diz, apenas que corre sem parar. O meio não é a mensagem, já nem sequer a mensagem é mensagem; a única mensagem que existe é esse movimento contínuo.

Ia jurar que a Laurie Anderson escreveu uma canção sobre isto, mas não encontro a letra.

domingo, Abril 13

O pedido

Posso pedir-lhe o pé de sua filha? - perguntou o homem ao pai da noiva que por acaso era maneta.

Jacques Sternberg, 270 contos de arrepiar. Tradução de Manuel João Gomes.

sábado, Abril 12

Jean-Baptiste

Lully bateu com o bordão de maestro no pé.
O pé morreu de gangrena.
A seguir morreu Lully.
O bordão morreu depois.

The Cellar: An Escape

O início do terceiro capítulo da autobiografia de Thomas Bernhard é um dos melhores estudos sobre o percurso e trabalho de Pedro Costa? Sim, mais coisa menos coisa.

sexta-feira, Abril 11

- Olha, o soft power sagrado atacou a cerejeira.
Diógenes, surgindo.
Explicação do mundo: sclormdrvitchilikitchikioucdichitribicicmjoljaguygiuiji.

Trindade
A linguagem é uma matéria – e é por isso que ela é a mestra! Eis a minha boca que o diz: a palavra boca não come; a palavra água escorre quando é pronunciada; a palavra fogo não arde – e no entanto a palavra árvore queima, a palavra homem vai matar o seu próximo, a palavra cão ladra, a palavra tonelada não pesa muito, a palavra luz não ilumina.

Sibila
Ou um objecto razoa como uma palavra ou a coisa ressoa contra uma palavra: não consigo sair desta réplica.

Raquel
A palavra cão não ladra.

Trindade
A não ser este!

Raquel
Ahhhrch!

Sibila
O que é que tu dizes?

Trindade
O ladrante fala.

Sibila
A palavra cão não ladra.

Raquel
Mas morde!

Ela sangra.

Trindade
Mudem a linguagem: não digas mais ooo mas iii, ooo mas iiii, ooo mas iii, aaa mas uuu.

Raquel
Acredito agora que a palavra faca poderá cortar-me a cabeça.

Sibila Ó meu Deus, faz com que a palavra cão não ladre! Senão, vou cortar a minha garganta com a palavra faca!

quinta-feira, Abril 10

quarta-feira, Abril 9

Um recado

Era assaz espantoso aquele letreiro pregado na porta de um jazigo: VOLTO DENTRO DE INSTANTES.

Jacques Sternberg, 270 contos de arrepiar. Tradução de Manuel João Gomes.

Livro dos feitiços e encantamentos #9


PARA GANHAR AO XADREZ


INGREDIENTES:

1 guarda-chuva
1 mapa desdobrável da região da Patagónia
1 esponja de banho
O casco de um cavalo
7 frascos de erva-do-diabo*
3 dentes de ouro
1 macaco empalhado por mão de mestre
Casca de 5 limões
1 agulha e linha de coser


MODO DE FAZER:

Colocar todos os ingredientes nos bolsos e esperar, pestanejando muito devagar, em movimentos regulares, metódicos, sem falhas. Quando os olhos transbordarem de visões, correr pelo telhado, correr, correr, chispando entre os pombos e as nuvens. 

Descer do telhado e tirar os ingredientes dos bolsos, primeiro uns e depois outros, e dispô-los em cima de uma mesa de cozinha. A tarefa não é tão fácil como se possa imaginar. Proceder com algum cuidado.

Usar a agulha e a linha para unir todos os ingredientes, e guardar numa gaveta fechada à chave, juntamente com a casca de uma noz. Roer as unhas e contar de um a duzentos e sessenta mil, sem cair no sono nem bocejar ou coçar a nuca.

Na madrugada do dia seguinte, entoar três cantigas para o Exu, se o xadrezista adversário for um homem, ou três cantigas para a Pomba-gira, se for uma mulher.**

* O mais seguro é colher directamente a erva-do-diabo no campo e transformá-la em pó. Os produtos desta erva disponíveis nas casas da especialidade são, na sua maioria, falsos.
** Se o feitiço não resultar, é prudente não insistir. Nunca fazer segunda tentativa.