Domingo, Janeiro 29

LXXV

Chegará um dia
em que todos admirarão
a tua obra, com maíúsculas,
A Tua Obra, que hoje desprezam
- ou que ousam até ignorar -,
e se arrependerão
por te terem conhecido tarde demais.

Assim suportas a vida.
Ou suportas assim a morte?

Angel Erro.
Tradução de Luís Filipe Parrado.

Oblomov sou eu

Em 1996, depois de 15 anos morando e estudando fora do Brasil, Charles Cosac decidiu voltar para o país. Desembarcou carregando duas malas e três desejos: reaproximar-se do pai, casar-se com um homem e arrumar um trabalho que justificasse sua existência no mundo.

Continua aqui.

— Porque é que não convidaram Umberto Eco para negociar o acordo de concertação social?

O Sentido de Possibilidade

Poderia definir-se o sentido de possibilidade como aquela capacidade de pensar tudo aquilo que também poderia ser e de não dar mais importância àquilo que é do que àquilo que não é. Como se vê, as consequências desta disposição criadora podem ser notáveis; infelizmente, não é raro que façam aparecer como falso aquilo que as pessoas admiram e como lícito aquilo que elas proíbem, ou então as duas coisas como sendo indiferentes. Esses homens do possível vivem, como se costuma dizer, numa trama mais subtil, numa teia de névoa, fantasia, sonhos e conjuntivos; se uma criança mostra tendências destas, acaba-se firmemente com elas, e diz-se-lhe que tais pessoas são visionários, sonhadores, fracos, gente que tudo julga saber melhor e em tudo põe defeito.
Quando se quer elogiar estes loucos, chama-se-lhes também idealistas, mas é claro que com isso só se alude à sua natureza débil, incapaz de compreender a realidade, ou que a evita por melancolia, uma natureza na qual a falta do sentido de realidade é um verdadeiro defeito. O possível, porém, não abarca apenas os sonhos dos neurasténicos, mas também os desígnios ainda adormecidos de Deus. Uma experiência possível ou uma verdade possível não são iguais a uma experiência real e uma verdade real menos o valor da sua realidade, mas têm, pelo menos do ponto de vista dos seus partidários, algo de muito divino, um fogo, um ímpeto, uma vontade de construir e um utopismo consciente que não teme a realidade, antes vê nela uma missão e uma invenção. Ao fim e ao cabo, a Terra não é assim tão velha, e não se pode dizer que o seu estado alguma vez tenha sido verdadeiramente interessante. Se quisermos então distinguir de uma maneira fácil aqueles que se guiam pelo sentido do real dos que se guiam pelo sentido do possível, basta pensarmos numa determinada soma de dinheiro. Por exemplo: tudo aquilo que mil marcos contêm, efectivamente, de possibilidades, está de facto neles, quer os possuamos quer não; o facto de o senhor Eu ou o senhor Tu os possuírem não lhes acrescenta nada, como nada acrescentaria a uma rosa ou a uma mulher. Mas, dizem os do sentido de realidade, um louco faz com eles um pé-de-meia, enquanto um homem prático os põe a trabalhar para si; até à beleza de uma mulher aquele que a possui acrescenta ou retira alguma coisa. É a realidade que desperta a possibilidade, e nada seria mais errado do que negar isso. E no entanto, no cômputo global ou em média, as possibilidades serão sempre as mesmas até aparecer alguém para quem uma coisa real não é mais importante do que uma imaginária. É ele que dará às novas possibilidades o seu sentido e a sua finalidade, é ele que as desperta.


Um Homem sem Qualidades, de Robert Musil, tradução de João Barrento, Edições Dom Quixote

Sábado, Janeiro 28

A gata corre, salta, ataca os meus pés; não me mexo, fingo que sou uma montanha. Depois ela encosta-se à minha barriga e adormece. Fecho os olhos, transformo-me na montanha.

Sexta-feira, Janeiro 27

strangers talk only about the weather #126

TP. O nicho do «livro infantil» vem-se tornando dominante no mercado generalista, sobretudo no de perfil de «grande superfície» ou «grande rede», como é facilmente constatável numa visita a um hipermercado ou a uma FNAC. Desse ponto de vista, o risco num ramo de edição como o vosso não é consideravelmente atenuado pela dinâmica do mercado actual nessa área?

B. Existe uma dinâmica, mas é uma dinâmica ruidosa levada a cabo pela ditadura das novidades e pelo tal prazo de iogurte das mesmas em que só certas editoras conseguem participar. Nessa corrida não entramos. Nós somos o caracol na berma da estrada que os vê passar. É claro que no meio de quem assiste à corrida, há sempre alguém que repara em caracóis. E felizes da vida por haver quem pegue em nós. Não temos pressa de chegar a lado algum. Para além disso, o espírito das pequenas editoras nunca deve ser procurar o confortável, mas sim ser a pedra na engrenagem. Cabe-nos ir ao encontro do risco, porque não vão ser as grandes editoras que o farão. E se ninguém o fizer, continuaremos privados de obras e autores fundamentais.

Cláudia Lopes e Miguel Gouveia.

Quinta-feira, Janeiro 26

Meia-volta

No período que se seguiu a Exile [on Main St., álbum de 1972, dos Rolling Stones], a tecnologia usada em estúdio era tanta que nem o engenheiro de som mais inteligente do mundo percebia o que realmente se passava. Seria alguém capaz de me explicar porque é que, se no primeiro álbum dos Stones tínhamos conseguido um grande som de bateria com um microfone apenas, agora, com quinze microfones, a bateria soava a alguém a cagar num telhado de zinco? A verdade é que toda a gente se deixou hipnotizar pela tecnologia; só hoje é que os vês todos a dar lentamente meia-volta.

Keith Richards, Life. Tradução de José Luís Costa.

Quarta-feira, Janeiro 25

A filosofia como ingratidão

O doutor Julio Fausto Fernández foi
secretário-geral
do Partido Comunista
de El Salvador.

Cedo, traiu,
e foi ministro da Justiça
de um ditador
e foi diplomata
e professor da Universidade
e escritor muito famoso.

Para explicar a sua mudança
escreveu um livro intitulado
“Do materialismo marxista ao
realismo cristão”.

Que vai fazer agora o pobre
doutor Julio Fausto Fernández
quando o realismo cristão
a cada dia se converte mais
ao materialismo marxista?

Roque Dalton.

Terça-feira, Janeiro 24

- Mas que diabo de patacoadas são essas? - interrompeu o caixeiro. - Parecem mesmo as tretas que a gente lê nos folhetos religiosos!
- É uma história - disse Herrick. - Em casa contei-a muitas vezes aos miúdos, mas se vos aborrece fico por aqui...
- Não! Continua! - respondeu o doente agastado. - Mais vale essa do que nada.

R. L. Stevenson, No vazio da onda. Tradução de Aníbal Fernandes.
Porto, 24 jan (Lusa) - Uma lontra apareceu hoje, cerca das 12h30, numa praia da Foz, no Porto, deslocou-se até uma esplanada próxima e regressou pouco depois ao seu meio natural.

Fonte da Polícia Marítima disse à Lusa que, apesar das tentativas, não foi possível apanhar o animal, "aparentemente saudável", que acabou por conseguir fugir.

Ilda Martins, que testemunhou esta incursão da lontra marinha pelas praias do Porto, contou à Lusa que o mamífero "saiu do mar, deslocou-se até à esplanada da Pizza Hut e sentou-se numa cadeira".


Aqui.

Segunda-feira, Janeiro 23

E o cómico, obscuro, nauseabundo costume de inculcar nos espíritos primitivos a ideia de um Deus com túnica azul e barbas de seis meses.
Espantosa e deplorável imagem de um velho a voar pelos ares como qualquer andorinha!...

Francisco Tario, Equinócio.

Feroz (sobre Carl Th. Dreyer), por Jean-Marie Straub

O que admiro particularmente nos filmes de Dreyer que pude ver ou rever nestes últimos anos é sua ferocidade em relação ao mundo burguês: à sua justiça (O presidente [1918–9], também uma das mais surpreendentes construções narrativas que eu conheço e um dos filmes mais griffithianos, logo um dos mais bonitos), à sua vaidade (sentimentos e cenários: Mikael, 1924), à sua intolerância (Dias de ira, [1943], impressionante por sua violência e por sua dialética), à sua hipocrisia angelical (“Ela morreu… Ela não está mais aqui. Ela está no céu…”, diz o pai em A palavra [1954–5], e o filho responde: “Sim, mas também amei seu corpo…”) e a seu puritanismo (Gertrud [1964], por isso tão bem acolhido pelos parisienses dos Champs Elysées). (...)

Publicado originalmente em francês, na p. 35 de um longo dossiê dos Cahiers du cinéma (n.207, dezembro de 1968) consagrado a Carl Theodor Dreyer. Traduzido em italiano e anotado por Adriano Aprà em J.-M. Straub e D. Huillet, Testi Cinematografi ci, op. cit., p. 254–256. Traduzido do francês por Mateus Araújo Silva e publicado no Catálogo "Straub-Huillet", CCBB, 2012.

Domingo, Janeiro 22

Sobre a circulação ser restrita, bom, não sei ao certo, mas parece-me que a arte, mais concretamente a literatura, mais especificamente a poesia foram, são e serão sempre matérias de interesse marginal. Por marginal, aqui, quero dizer só pouco central. Se pensarmos que quase metade da população do mundo não tem acesso a água, aí sim, aí falamos de um problema central. Se falarmos de fome, de saúde pública, de desemprego, continuamos em assuntos centrais. Mas por estes, mais laterais, parece-me, houve sempre uns quantos, não muitos, que se interessaram. Há um poema de Wislawa Szymborska que fala disso lindamente. Não é mau, nem bom. Ninguém parece espantado ou incomodado pelo facto de o aeromodelismo ou a numismática não serem diariamente capas de revista. Que esperamos de um escritor ou de um editor sério? Que apareça nu nas páginas centrais de um jornal? A literatura, com tudo o que a rodeia, a escrita, a rasura, a maturação e, no último momento, a edição, não pode ser um jogo de abrir e fechar pernas, de aparecer semi-vestido, revelando carecas, brincos ou tatuagens, só para vender mais uns livros.

Changuito.

Platão, se ainda vivesse

 — tomamo-lo como exemplo, porque ele é geralmente considerado, a par de uma dúzia de outros, como o maior dos pensadores —, ficaria com certeza encantado com a redacção de um jornal, onde a cada dia que passa uma nova ideia pode ser criada, trocada, refinada, aonde chegam de todos os cantos do mundo, a uma velocidade que ele nunca imaginou, catadupas de notícias, e uma equipa de demiurgos está pronta para analisar imediatamente o seu conteúdo espiritual e empírico. Imaginaria ver numa redacção aquele topos ouranio, o lugar empíreo das Ideias cuja existência descreveu de forma tão viva que ainda hoje todos os homens bons, quando falam aos filhos ou aos empregados, são idealistas. E é claro que se Platão se pudesse apresentar hoje, de repente, numa redacção para provar que é aquele grande escritor que morreu há mais de dois mil anos, iria com isso provocar grande agitação e assinar os mais lucrativos contratos. E se conseguisse, num prazo de três semanas, escrever um volume de cartas de viagens filosóficas e alguns milhares dos seus conhecidos contos, talvez até adaptar ao cinema uma ou outra das suas obras mais antigas, podemos estar certos de que viveria à grande durante muito tempo. Mas assim que o seu regresso deixasse de ter actualidade e o senhor Platão quisesse ainda concretizar uma das suas conhecidas ideias, que nunca conseguiram afirmar-se plenamente, o chefe de redacção limitar-se-ia a pedir-lhe que escrevesse uma bonita crónica para a página de entretenimento (o mais levezinho e ligeiro possível, estilo pouco pesado, porque é preciso pensar nos leitores), e o editor da secção diria ainda que só conseguiria meter essa colaboração uma vez por mês, porque tinha muitos outros talentos em lista de espera.


Um Homem sem Qualidades, de Robert Musil, tradução de João Barrento, Edições Dom Quixote

Sábado, Janeiro 21

Hoje, pelas 17h00. No Gato Vadio, Porto

Matéria religiosa

Nos últimos anos, será talvez a velhice, vi-me obrigada a aceitar a existência em mim de um sentimento religioso (sim, o sentimento religioso é o mais inconfessável de todos). Nada disto tem a ver com a igreja, claro; o mais estranho, porém, é que ao procurar situar esse sentimento, e depois de muito esforço, percebi que ele não pairava no espírito como coisa abstracta mas consiste na harmonia silenciosa das substâncias químicas que compõem o meu corpo — na matéria, portanto.

Sexta-feira, Janeiro 20

Who is the third who walks always beside you?
When I count, there are only you and I together
But when I look ahead up the white road
There is always another one walking beside you
Gliding wrapt in a brown mantle, hooded
I do not know whether a man or a woman
— But who is that on the other side of you?


Ontem à noite, antes de adormecer, compreendi quem é o terceiro que caminha sempre a teu lado do poema de Eliot. O pronome interrogativo who é uma armadilha.

Quinta-feira, Janeiro 19

Amigo



Fumámos juntos, bebemos juntos, comemos juntos, lemos juntos, rimos juntos, escrevemos juntos.
RUI COSTA (1972-2012)

Os filhos da velha

Uma velha deu à luz uma ninhada de ratos. Estavam espalhados pela cama.
De manhã, ao acordar, viu que se tinha enganado e que tinha dado à luz uma ninhada de ratazanas.
Ratazanas, ratos, que diferença faz? Berrava o marido, temos a cama infestada de roedores bebés.
Eu quando dou à luz ratos quero que sejam ratos. Não é descobrir de repente que afinal são ratazanas. Eu até gosto de ratazanas, mas quando dou à luz gosto de saber o que estou a dar à luz...
Então e estes mexilhões? Perguntou o marido.
Isso foi noutra noite, o restaurante estava escuro, mas o empregado tinha prometido ostras.

Russell Edson, O espelho atormentado. Tradução de Guilherme Mendonça.

Próximo sábado, 21 de Janeiro, pelas 17h00, no Gato Vadio (rua do Rosário, 281, Porto).

Quarta-feira, Janeiro 18

Como se obtém o fragmento de liberdade

Pega-se num escritor. Mostra-se-lhe um livro de Maurice Nadeau, barra-se muito bem barrado com manteiga e vai ao forno a lourar. Tira-se e sai um frango com ferragens, cristaleiras, acção, muita acção, e diversos.
Outra:
Pega-se num elefante. Diz-se-lhe que é parvo e chama-se para o grupo. Ele vai e atira o grupo abaixo, soterrando quem estava e quem não estava.
Outra:
Pega-se num estudante. Mete-se num banho de casquiforite (resíduo humano a 300 graus negativos) e chama-se-lhe ensino, para animar. Ao fim de três imersões, está obtido o fragmento.
Outra:
Mete-se a mão de Almeida Garrett no túmulo de S. Frei Gil, há muitos anos removido para outro túmulo. A mão remexe e não encontra o santo. À saída, a mão não encontra Almeida Garrett.

Mário Cesariny.

Música do filme Chronik der Anna Magdalena Bach,

conforme ficha técnica do catálogo Straub-Huillet (Centro Cultural Banco do Brasil): Johann Sebastian Bach: Concerto de Brandeburgo n° 5, BWV 1050, primeiro movimento (alegro 1), compassos 147–227, cravo e orquestra, 1720–1721; Pequeno livro de teclado de Wilhelm Friedemann Bach, BWV 128, prelúdio nº 6, clavicórdio, 1720; Pequeno livro de teclado de Anna Magdalena Bach Anno 1722, BWV 812, minueto 2 da Suíte em ré menor (Suíte francesa 1), espineta; Sonata n° 2 em ré maior para viola da gamba e cravo obligé, BWV 1028, adagio, cerca de 1720; Sonata em trio nº 2 em dó menor para orgão, BWV 526, largo, orgão, 1727; Magnifi cat em ré maior, BWV 243, n° 11 e n° 12 até o compasso 19 (“Sicut locutus est” e Glória), 1728–1731; Pequeno livro de teclado de A.M.B. 1725, BWV 830, Tempo di Gavotta de la partita em mi menor, espineta; Cantata BWV 205, “Éolo apaziguado”, recitativo para baixo (“Sim! Sim! As horas são doravante próximas”) e ária (“Como rirei alegremente”), 1725; Cantata BWV 198 (Ode fúnebre), coro final, 1727; Cantata BWV 244a (Música fúnebre para o príncipe Leopoldo), ária “Que com alegria o mundo seja abandonado”, compasso 25 até o final, 1729; Paixão segundo São Mateus, BWV 244, coro de abertura, 1729–1741…; Cantata BWV 42, “Mas à noite do mesmo Sabbat”, sinfonia de introdução (da capo, compassos 1 a 53) e recitativo para tenor, 1725; Prelúdio em si menor para orgão BWV 544, 1727–1731; Missa em si menor, BWV 232, 1º Kyrie eleison, compassos 1–30, 1731–1733; Cantata BWV 215, coro de entrada, compassos 1–181, 1734; Oratório da Ascensão, BWV 11, segunda parte do coro fi nal, 1735; Terceira parte do Método de teclado, coral “Kyrie, Deus Espírito Santo”, BWV 671, 1739; Segunda parte do Método de teclado, Concerto no gosto italiano, BWV 971, andante, 1735; Cantata BWV 140, primeiro duo, compassos 1–36, 1731; Variações Goldberg, BWV 988, 25ª variação, 1741–1742; Cantata BWV 82, “Eu tive o suficiente”, último recitativo e última ária, 1727; Oferenda musical, BWV 1079, Ricercar para 6, compassos 1–39, cravo, 1747; A arte da fuga, BWV 1080, contraponto XIX, compassos 193–239, cravo, 1750; Coral para orgão “Perante teu trono eu me apresento”, BWV 668, primeira parte, compassos 1–11, 1750. Assim como, de Leo Leonius, o moteto ordinário do domingo em latim para o 11º domingo após a Trindade, trecho do “ Florilegium Portense “ de Erhard Bodenschatz.

Terça-feira, Janeiro 17

Como uma vaca veio residir com os orelhudos

Um dia numa floresta um coelho matou um homem. Uma vaca observava esperando que o homem se levantasse. Um insecto rastejou na cara do homem. Uma vaca observava esperando que o homem se levantasse. Uma vaca saltou uma sebe para ver mais de perto como um coelho arruma um homem. Um coelho ataca uma vaca pensando que a vaca veio ajudar o homem. O coelho domina a vaca e arrasta a vaca para a sua toca.
Quando a vaca desperta a vaca pensa, eu queria estar no cimo da terra indo com o homem para o meu estábulo.
Mas a vaca permanece com estes orelhudos para o resto da vida.

Russell Edson, O Túnel. Tradução de José Alberto Oliveira.

Próximo sábado, 21 de Janeiro, pelas 17h00, no Gato Vadio (rua do Rosário, 281, Porto).

Segunda-feira, Janeiro 16

Sem que sequer nos dêmos conta, há algo de primordial no modo como reagimos a uma pulsação. Toda a nossa existência é governada por um ritmo de setenta e duas batidas por minuto. Se o comboio teve um papel tão importante para os músicos de blues, não foi só por lhes permitir viajar do Delta até Detroit; foi sobretudo pelo ritmo das locomotivas e das próprias linhas: mudavas de linha, mudavas de ritmo. É como um eco do que se passa no interior do corpo humano. Mesmo que venha de uma máquina, de um comboio, a percepção que o teu corpo tem disso é de natureza musical. O corpo humano é capaz de sentir ritmos até onde eles não existem. Ouçam Mystery Train do Elvis Presley: um dos maiores temas de rock and roll de sempre, sem um único instrumento de percussão. O ritmo é apenas sugerido; o corpo trata do resto. Não é preciso torná-lo explícito. Julgo que as pessoas se enganam quando falam de rock and roll. Não tem nada a ver com rock, tem tudo a ver com roll.

Keith Richards, Life. Tradução de José Luís Costa.