Quinta-feira, Maio 22



— Sabe-se lá... Ainda teria outras coisas em que me ocupar... Nunca ninguém o viu pegar num livro, Jaretzki.
— Ora diga-me cá, mas com toda a franqueza, o senhor lê, realmente, todos esses livros que tem para aí, a cada canto do quarto?
— Leio.
— É formidável! E isso tem qualquer sentido ou qualquer objectivo?
— Nenhum.


Diálogo entre Jaretzki e o Dr. Flurschütz, "Os Sonâmbulos — volume III Huguenau ou o realismo", de Hermann Broch, Edições 70

Quarta-feira, Maio 21

old place


Na loja ikea de Matosinhos há uma estante cheia de livros. Entre os livros, uma tradução sueca de Hamlet. Acho que Godard gostaria de saber isso. Não, há muito tempo que Godard sabe.

Pêssego

Markus Grob alimentava uma forte paixão por Vivienne Bogusky. Uma paixão tão forte que tinha vontade de a trincar, milímetro a milímetro, como a uma maçã. “Uma maçã fresca, tenra, sumarenta e preciosa. Por outras palavras, uma maçã especialmente apaladada”, pensou ele, tentado pela sua incomensurável gulodice.
Se bem o pensou, melhor o fez. Ajoelhou-se na frente de Vivienne, levantou-lhe a saia lenta e silenciosamente com a ponta dos dedos e, usando de uma profunda solenidade, trincou – oh, maravilha! – a sua preciosa, sumarenta, tenra e fresca canela. Vivienne soltou um gritinho de dor e repugnância – mais de repugnância do que de dor -, seguido de uma violenta bofetada no idólatra, para dizer a coisa com educação. Uma bofetada tão violenta que arrancou e atirou para longe a orelha esquerda de Markus Grob.
Longa e viva foi a felicidade de que ele gozou com este brevíssimo episódio. Reduzido a uma única orelha, Markus ganhou novos motivos para amar ainda mais Vivienne. E assim, eis que o seu desejo se centra agora no pescoço adorável do seu amor. E de dedos enfiados na boca, imagina um pêssego.

Terça-feira, Maio 20

vidros bonitos



Hoje às dez da manhã, na paragem de autocarro junto a minha casa, um homem e uma rapariga comiam cerejas. Tinham um ar muito satisfeito.

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A professora queria saber onde estava a modernidade da Casa de Serralves. Uma miúda disse: "tem vidros bonitos". A professora não entendeu nada: "vidros bonitos ou muitos vidros? Deviam ser três ou quatro horas, eu estava deitada debaixo de uma árvore a uns metros, com "Os sonâmbulos" debaixo da cabeça (voltar com o fio à meada). Sabia a resposta, mas fiquei calada a fumar um cigarro.

§

Ah, o mundo moderno... 1ª ou 2ª classe?

§

Herman Broch não era só escritor. De momento é isso que me interessa (o não ser).

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(Sente-se humidade na sala, e o cheiro do cloro. Quando a água pára de correr, os peixes agitam-se como o vento antes da tempestade explodir. A ciência explica isso de outra forma.)

Segunda-feira, Maio 19

Mon coeur de silex / Ton coeur de pyrex

(isto no youtube é muito mais bonito — procurar British TV, Verão de 1969)

os movimentos do coração

Robert Walser gostava de romances de cordel, comprava-os nos quiosques e lia-os com mais entusiasmo do que as obras sérias da literatura. Talvez por um pouco de despeito, mas sobretudo por prazer e delírio amoroso. Os traços mais vulgares transbordam das suas histórias: há sempre um rapaz e uma rapariga, ou um homem e uma mulher, ou dois homens e uma mulher, ou... — e nas suas faces brilha, verdadeiro, o lustro fácil do cordel. Mas inesperadamente, surge qualquer coisa no percurso que altera, ou desfaz, tudo isso; como é o caso da confissão de Marie, a rapariga que vive numa ruazinha lateral na cidade e se refugia na floresta. Então deixamos de perceber quem é Walser, e então começa.
As primeiras cerejas.

A lição ético-política da Ovelha Negra: notícias de Cannes

O par de sapatos pretos

Era um dia triste, escuro e frio. Elwood Veeblefetzer tinha os pés gelados. Ora, cada pessoa tem os seus pequenos caprichos e o de Elwood era não gostar de sentir os pés gelados. Por isso, passara a manhã a matar moscas para aquecer os cachimbos. Também tinha feito isto e aquilo, mas o resultado fora o mesmo: os pés continuavam frios. A culpa era obviamente dos sapatos.
Saiu então de casa para comprar sapatos novos. Na sapataria, o empregado informou-o que os sapatos vermelhos tinham esgotado, mas que em compensação tinha exactamente aquilo que ele precisava: um par de sapatos pretos. Elwood ainda torceu o nariz para um lado e para o outro. Mas colocou a caixa debaixo do braço, pagou e saiu a correr.
Em casa, mal abriu a caixa, os sapatos saltaram para o chão e desataram a fugir em todas as direcções. Sem vontade de brincar, Elwood dispôs-se a apanhá-los usando de todos os estratagemas. Primeiro, acenando-lhes com falinhas mansas e promessas de felicidade conjunta. Depois, tentando esmurrá-los com o punho fechado. Mas, nada. Elwood continuava com os pés escandalosamente gelados.
- Irra… irra… irra… - gritava ele, em meias e agitando no ar uma furiosa e inútil cana de pesca.
Entretanto, o sapato esquerdo tinha-se escondido algures debaixo da cama ou saltado pela janela, não sei bem. E o direito não hesitara em morder a mão de Elwood com uma vivacidade invulgar para um sapato, fugindo depois vá-se lá saber para onde.
Ora aqui está um par de sapatos que, como é hábito dizer-se, errou a vocação.

Domingo, Maio 18

apanhada numa teia

É uma das cenas mais invulgares e íntimas do filme. Keiko está na cama, em casa da mãe (uma casa pequena de um bairro pobre, que faz lembrar ainda Tóquio antiga), a recuperar de uma úlcera.
A exiguidade do espaço é opressiva, a cama ocupa quase toda a divisão e domina os enquadramentos. Keiko escreve umas notas num caderno que esconde debaixo da almofada. A patroa vem visitá-la; traz sopa de tartaruga, oferece-lhe dinheiro para fruta, e, sem o mencionar, apressa-a a regressar ao trabalho. A mãe dá-lhe cabo da cabeça, ora pedindo-lhe dinheiro para resolver os problemas do irmão, ora criticando-lhe as extravagâncias: o apartamento caro, os perfumes, o quimono de seda...
Um cliente aparece com um cesto, ela não o recebe — sente-se profundamente cansada.

lugares comuns




Chove. Os pássaros debicam o chão. Há um velho filme de Kenji Mizoguchi que se chama Samidare zoshi (Crónica das chuvas de Maio, segundo as folhas da cinemateca). Em português, a palavra estação também designa o sítio onde os comboios chegam e partem (lembrei-me disso ontem, ao ver as últimas cenas de "Quando uma mulher sobe as escadas"). Os italinos dizem stagione.

XXXVII. Controvérsia teológica

— Desde Juliano que os deuses nos abandonaram, diz C. Bassus.
— Desde Augusto que Deus nos abandonou, diz M. Polio.
— Desde Numa que os deuses nos abandonaram, diz Ti. Sossibianus.
— Deus abandonou-nos desde sempre, conclui P. Saufeius.


As Tábuas de Buxo de Aprovenia Avitia, capítulo II (fólio 485 r° a fólio 490 r°), por Pascal Quignard, tradução de Ernesto Sampaio, Cotovia, [guardar em: os movimentos de deus ao domingo]

Sábado, Maio 17

caligrafia, gesto


Encontrei estas bonitas fotografias de Michaux, no blog gramatologia, de amir brito cadôr. Surrupiei-as.

"J’écris pour me parcourir", diz ele

Acordei ensonada (eu e as nuvens). Fui à baixa fazer uns recados. Em cima do balcão dos livros, uma linha invisível, oblíqua, entre o Diário 1941-1943 de Etty Hillesum (a pequena tarja azul violeta de Etty tem a cor da chávena que desde miúda tanto me perturba; na introdução, de novo, aquela palavra de Anna Akhmátova) e uma via para a insubmissão de Henri Michaux (é um manual de geografia de bolso, mais ou menos clandestino, obrigatório). Fiz-me desentendida e vim embora.

Strangers talk only about the weather #86

Mizoguchi filma os monogatari sem afectações, como a minha avó contava as histórias: tudo é visível, tudo é palpável, tudo é possível. A isso eu chamo realismo.

Sexta-feira, Maio 16

Caravana em Braga. Amanhã, 17 de Maio, 18h00.



APRESENTAÇÃO DE "CARAVANA" EM BRAGA.
Amanhã, sábado, 17 de Maio, 18h00.
Livraria Centésima Página (Av. Central nº 118-120).
Apresentação a cargo de Luís Mourão com leitura de contos pelo autor.
Mais informações sobre o livro aqui.

"Caravana" no webboom.
"A Livraria Poetria não consegue mais prosseguir o seu caminho sozinha. Por implacáveis e nada poéticas razões: a sua (crónica) fraqueza financeira, sempre no limite da resistência, que tornou insuficiente a força da sua imagem, identidade, competência profissional, atendimento de excepção.

Apesar de ter cumprido, na sua tão curta vida (5 anos) pelo menos um dos seus mais importantes desígnios: contribuir para divulgar e induzir num grande número de pessoas o gosto (e até mesmo o vício) da poesia e do teatro, estas artes admiráveis que sem o sabermos nos tornam mais humanos, mais refinados, mais livres, mais atentos a este nosso mundo.

Porém, este continua a ser um bom projecto. O que teria acontecido se TODOS os que compram livros de poesia e de teatro o tivessem feito aqui? Mas também, convém dizê-lo, quantos aqui vieram e não encontraram o livro que procuravam? Os editores e distribuidores sabem do que estamos a falar.

Basta que uma só pessoa o queira e possa para a Poetria continuar a existir - com a forte identidade que granjeou, os laços que criou, o seu logo inconfundível, com um conceito e um potencial para conquistar rapidamente estatuto de marca nacional.

É convicção da Poetria que apenas lhe faltou 'um pouco mais de azul' para voar... Esse 'azul' pode ser em forma de participação no capital, investimento, coragem, criatividade. Ou 'outra vontade inteligente', como diria o imenso Herberto Helder.

Parafraseando Mário de Carvalho, 'era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto'.

A Poetria fica à vossa espera. Até lá, o sonho continua."

A Livraria Poetria fica na Rua das Oliveiras, junto ao Teatro Carlos Alberto.

DH: Os contos da Lua Vaga...
DH: Não acenda a luz, por favor!
JMS: Não vou acender, vou-me embora!
Você já não me quer cá!
Adeus!
Isto é o fim de qual filme do Mizoguchi?

Quinta-feira, Maio 15

A bicicleta de Menno Zutphen

Menno Zutphen não sabia nada da vida. Também não sabia muito acerca do mundo. Um dia montou na sua bicicleta e partiram juntos. Estavam decididos a conhecer o mundo e a desvendar os insondáveis mistérios da existência.
No entanto, pouco depois de partirem, começou a chover e um vento frio soprou de vários pontos cardeais*. Zutphen correu para casa a abrigar-se. Comeu sopa de abóbora e depois deitou-se a dormir, feliz, ainda que um pouco cansado.
A bicicleta, por sua vez, não se rendeu tão facilmente aos desagradáveis caprichos da natureza. E mesmo abandonada pelo seu companheiro**, seguiu viagem para Moscovo.


* Daqui o ditado: “O tempo muda miraculosamente, como se a natureza quisesse dar-nos um espectáculo permanente, servindo-se de subtis mudanças de cenário.”
** Quem o quiser que o compre!

Quarta-feira, Maio 14

Força e fraqueza

...
Ela: Não és tão forte nem tão fraco como eu pensava.
Ele: Se não te importas, dá-me mais uma cerveja.



Robert Walser, Histórias de Amor, tradução de Isabel Castro Silva, Relógio d'Água, Abril 2008

Posters de Jean Jullien

Por cima das chaminés

Os problemas começaram uns dias antes do fim. Do fim de quê? Do fim, ora. Uns barulhos horríveis principiaram do outro lado do tecto. Faziam lembrar gatos aos trambolhões pelo telhado. Mas também um bando de gaivotas a insultar outro bando de gaivotas com os piores palavrões. Ou peixes enormes saltando de uma telha para a outra. Ou ainda cavaleiros com plumas, galopando por cima das chaminés. Estou a inventar quanto às plumas. É um disparate, claro.
A princípio, Gilels Ockeghem não atribuiu grande importância ao caso e durante algum tempo procurou ignorá-lo. Mas o tempo não trouxe qualquer alívio. Os barulhos persistiam, de manhã até à noite e de noite até de manhã, cada vez mais horríveis. Ockeghem tapava os ouvidos com as palmas da mãos na esperança de terminar com aquele pesadelo. Mas sem resultado.
Deixou de conseguir dormir. Ele, tão sossegado dantes, achava-se agora possuído duma contínua excitação. Passava as noites sentado, com os olhos fixos no tecto vazio, o sangue a gelar-lhe nas veias, sem mexer um músculo. Fechou-se no quarto, desistiu do trabalho de caixeiro, tirou os óculos e começou a beber, um copo atrás do outro.
Por fim, já não lhe restava outra saída. Tirou um cigarro, fumou-o e, arrastando os pés, subiu ao telhado.

Terça-feira, Maio 13

that's all folks!

A ligação a Hölderlin é evidente. Sem entrar nas questões íntimas, circunscrevendo-me apenas à literatura, e resumindo em extremo: o verso Freundliches Lachen ist auch nicht ferne percorre quase todas as histórias de Walser. Mas há outras influências — se é que posso dizer assim descaradamente, influências — menos sérias. Lembram-se daquele efeito dos desenhos animados; quando menos se espera sai um martelo de trás das costas, uma bomba do bolso, ou um bolo coberto com chantilly de onde calhar? Bom, a seu jeito, Walser faz mais ou menos isso. O rapaz Gaspar ou Pedro ou Simão vai a andar por uma estrada e encontra um palácio, e no palácio uma princesa, e no quarto da princesa um traje de pajem, e por aí fora. E agora, parafraseando Walser, se em vez de um autor, eu fosse uma autora, escrevia já a seguir e de um jacto dois volumes inteiros sobre tão doce matéria.

Segunda-feira, Maio 12

Por duas vezes,

Lilie (Clotilde Hesme) olha para nós. No primeiro plano diz "Bernardo Bertolucci", depois de ter perguntado a alguém se conhecia o filme Prima Della Rivoluzione. Na segunda vez está sentada na cama junto a François, vira-se e explica-nos: "la solitude qu’il y a dans le coeur de chaque homme, c’est incroyable".

Caravana em Braga. Próximo sábado, 17 de Maio, 18h00.



Apresentação do livro "Caravana" em Braga.
Sábado, 17 de Maio, 18h00.
Livraria Centésima Página.
Com apresentação de Luis Mourão e leitura de contos pelo autor.

Mais informações sobre o livro aqui.

"Caravana" no webboom.

O que aconteceu a Wippich

“Raios me partam!”, pensou Wippich. Então, num abrir e fechar de olhos, os raios partiram-no. Quer dizer, não o partiram por completo. Apenas o pé direito, para lhe fazer a vontade.
- Raios me partam! – repetiu ele, cheio de dor, gritando e saltitando ao pé-coxinho.
Então, os raios partiram-lhe o outro pé.
Com ambos os pés partidos, Wippich caiu e só por sorte não partiu também o braço esquerdo. Em consequência disso, fez um gesto expressivo que não deixava nada por dizer. No entanto, e esquecendo os mais elementares princípios da prudência, gritou de novo e a plenos pulmões:
- Ah, raios me partam!
Infelizmente, desta vez os raios não foram tão complacentes e partiram-no dos pés - é uma força de expressão, pois os pés já estavam partidos - à cabeça.
Por aí parou Wippich. E não houve maneira de lhe arrancar nem mais uma palavra.

aquilo que presumes

As sessões de "O sabor do cinema" destinam-se também a um público mais jovem (terças às 14h00), por isso a folha de sala tem sempre algumas "propostas de exploração pedagógica da sessão" — pistas simples para pensar no filme para além da projecção. Gosto de ler essas propostas e no caso d' "O Desprezo" de Jean-Luc Godard (que bom que é vê-lo num écran grande!), gosto particularmente do ponto dois; é o tipo de exercício que se pode fazer à noite, na cama, em vez de contar ovelhas.
2. Imagina o que passa pela cabeça de Brigitte Bardot durante os seus longos banhos de sol e constrói, a partir daquilo que presumes, um texto com a forma de um monólogo interior.

Domingo, Maio 11

et voilà


Une fois le mépris pour Paul entré en elle, il n'en sortira pas, car ce mépris, encore une fois, n'est pas un sentiment psychologique né de la réflexion, c'est un sentiment physique comme le froid ou la chaleur, rien de plus, et contre lequel le vent et les marées ne peuvent rien changer; et voilà en fait pourquoi le Mépris est une tragédie. jlg

Sábado, Maio 10

sim, a capa é feia

Comi uma taça de arroz doce com muita canela e sentei-me a ler as histórias. Tenho um problema nos olhos, o excesso de luz magoa-me e não páro de chorar — um choro miúdinho que até vai bem com os textos. Cheguei à página 27 e reconheci tudo — em tempos traduzi "O Barco" (nur eine Skizze), a partir da versão inglesa de Tom Whalen —... mas agora faltava qualquer coisa. Por exemplo nesta frase:

A tradução de Isabel Castro Silva, correcta e, espero, o mais literal possível:
É magnífico ver como o luar se parece com um amante, afogado em prazer, e como a água se parece com a feliz amada, que abraça e afaga o seu príncipe bem-amado.

O meu devaneio:
É uma maravilha! A lua parece um apaixonado afogado em prazer e o lago, a feliz dama que abraça e cinge o seu nobre amado.

As diferenças são evidentes (até o ponto de exclamação inventei!), tomei o partido de Tom Whalen e forcei a inversão de géneros: em lua convertida em apaixonado, o lago em dama. É uma pena estar errada pois há no erro uma certa verdade. Para além disso, bom... o livro é tão comovente que até custa a ler.

"En construcción", de José Luis Guerín

Dois homens que trabalham na demolição do velho bairro El Chino e na construção dos novos edifícios falam sobre "Terra dos Faraós", de Howard Hawks. É a hora do almoço, eles estão sentados a uma mesa de campanha, no estaleiro das obras; comem, bebem e conversam. Se não me engano, há mais duas referências a filmes antigos que passam à noite na televisão — "Zorro" e "Miguel Strogoff" — mas Guerín mostra-nos apenas o de Hawks, porque apenas esse é necessário; mostra-nos as cenas finais — quando a pirâmide se fecha, encerrando o faraó morto e a raínha viva —, através de uma janela de uma dessas casas degradadas que vai ser demolida.

Voltando ao que importa: a pausa a meio do trabalho, a comida, o vinho, e a conversa. A estes homens interessa o que conhecem, os materiais, a construção, o modo fantástico como o arquitecto concebeu um mecanismo tão simples — ou tão complexo? nem sei dizer — e eficaz. E falam, maravilhados, do modo como as pedras eram talhadas uma a uma e transportadas sabe-se lá como e depois encaixadas numa ordem perfeita e eterna. Há algo, tem de haver algo, de iluminado, diz um deles. Ah, se pudessemos falar assim dos filmes.


E ainda. Nas casas velhas, as mulheres estendem a roupa (uma rapariga aproveita para namoriscar um rapaz das obras). Não sei explicar (nem quero), mas sinto que esta roupa pendendo das pequenas varandas, junto aos vasos e aos estores, também é muito importante para o filme (ver nota sobre o branco, sobre o silêncio e sobre a imobilidade).

Sexta-feira, Maio 9

Fading Hutongs, Beijing 2006

«Os hutongs são apenas os caminhos estreitos que dão passagem às diversas siheyuan onde a lei mandava haver espaço para cultivar uma árvore. É a passagem que situa o aglomerado familiar — uma ruazinha que pode ter de largura, até 6 metros ou apenas um. Tal como as casas de pátio se conectam umas com as outras formando blocos, também os hutong, que se estendem por um máximo de 9 metros, se vão conectando, por vezes de esguelha, transformando-se, para o estranho, em estreitos e sinuosos labirintos. Quem conhece o ritual sabe que progridem nos eixos este/oeste ou norte/sul, para que as habitações olhem sempre para sul.
Nos últimos anos, nos hutongs, abriram-se lojas de comércio e de lazer, restaurantes e cafés ou cabeleireiras que prestam outros serviços — afinal o hutong define a vida intensa que representa a sobrevivência popular.» Maria do Carmo Serén, CPF

Krzystof Lojewski

Era um homem vazio. Oco como um barco. Quando sentia frio enchia o bandulho de palha e engolia fogo. Quando sentia calor embuchava gelo até ficar completo como uma arca frigorífica. Para matar a fome comia pedras. Não uma, mas muitas. Também engolia pedras nos dias de vento. Quando tinha sede emborcava água como um elefante. Quando sentia vontade de transformar canários em profetas e dar concertos de harpa sem instrumento, não fazia nada. É impossível transformar canários em profetas e dar um concerto de harpa sem instrumento.